A Lei | Crítica do Filme | CinemAqui

A Lei | Uma nota…rápida, verbal, teatral e subjetiva


A Lei funciona assim: um desses maconheiros de elite, de vanguarda, pós-moderno, usando metalinguagem, fazendo livres associações, decide que vai fazer um filme sobre “todas essas porra aí”. Ele monta um texto pra ser dito em primeira pessoa, escrito errado e com palavrões para soar certo com a vida real (como neste parágrafo). Seu objetivo? Quem sabe ganhar um dinheiro.

Porém, as leis de incentivo à “cultura” estão sendo “remodeladas”. Então falta dinheiro para estes projetos mais experimentais. Como a “Resistência” não pode parar, a solução é filmar tudo em um boteco de esquina em uma sequência só. Isso sim, é vanguarda. Pós-modernista. Metalinguagem… “essas porra toda ae”. E barato, já que a equipe já come no estabelecimento e fecha um pacotão pra descontar da “mais-valia” (ou como dizemos, “salário dos funcionários”).

A Lei é um filme de uma nota só orquestrado para ser rápido, verbal, teatral e subjetivo. Seu texto é de baixo calão com diferentes tons de violência, mas, principalmente, de perversidade. O objetivo é posicionar as “forças da lei”, as de execução apenas, dentro de um contexto social em que se torna difícil, se não impossível, disassociar seu discurso maquiado como fala cotidiana do sentimento de culpa e impotência dos intelectuais de classe média.

Mas não é apenas nessa rodinhas que a conversa gira. Para tocar nessas feridas com propriedade verborrágica e pseudo-racionalidade metalinguística, o texto gira sobre contravenções e crimes graves cometidos pelos policiais, que são a voz do pior profissional de segurança possível, mas que no filme vira o exemplo de serviço essencial exercido por essas forças. As ações são de tortura, e as vítimas, os excluídos da sociedade: mendigos terminais, mulheres e crianças da rua. Nada original, claro. É para ser bruto e chocante, não criativo.

Em meio ao mais do mesmo dividido em um rodízio de sete (ou oito? não me lembro mais) policiais durante um almoço falando, pensando e comendo seus “PFs”, a função de nós, espectadores, supostamente é se escandalizar frente a isso. Ou refletir. Sobre o quê, exatamente, me foge agora. A última frase dita no filme avisa que “se eu não entendi nada do que foi falado é porque sou burro”, uma forma infantil do cineasta se proteger contra críticas sobre um roteiro meia-boca.

Dito tudo isso, o uso neste texto de expressões chulas, de baixo calão e de péssimo gosto provém da necessidade do crítico de conversar no mesmo nível proposto pelo filme, visto que a comunicação literária deve sempre partir do pressuposto de manter um contexto social único. Explicar o filme em um “nível burguês” iria contra os princípios deste longa. Além de cobrar “mais-valia” de você, caro leitor… Ops, desculpe meu português só cobrá-lo mesmo.


“A Lei” (Bra, 2021), escrito e dirigido por Amadeo Canônico e André Sant’Anna, com Giovana Dorna, Vina Lopes e Alessandro Marba.


O filme faz parte da cobertura da 45° Mostra de Cinema de São Paulo

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