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A Jovem Rainha | Drama histórico teria muito a dizer, mas não fala muito sobre nada

A Jovem Rainha Filme

A Jovem Rainha tem vários assuntos para tratar durante o conturbado reinado da rainha Cristina no império sueco do século XVII, mas não parece conseguir se adequar ao tom mais apropriado. Se em alguns momentos gera o humor incidental da típica loucura dos monarcas, em outros tenta puxar a grandiosidade dos acontecimentos históricos, e no meio do caminho flerta perigosamente com um episódio de seriado de TV.

Enquanto a efervescência de conhecimento na Europa gerava mais e mais conteúdo científico e filosófico, seu braço fora do domínio da Igreja Católica – incluindo a Suécia – se mantinha preso ao conceito de determinismo de Lutero, fundador do protestantismo. É nesse clima que seu rei falecido é mantido por dois anos embalsamado pela insana rainha, enquanto uma jovem princesa de seis anos finalmente ocupa o papel de futura monarca (quando atingir a maioridade). Seu tutor a tenta manter na doutrina protestante, mas a enxurrada de conhecimento a leva em direção a René Descartes, filósofo da época que estava desconstruindo nossa forma de enxergar a realidade.

Considerada uma das mulheres mais instruídas de sua época, Cristina, nutria desde sua infância e adolescência o interesse por livres pensadores, particularmente tocada pela maneira de René Descartes em enxergar as emoções humanas, ela o adota como princípio para seu país, em um conturbado discurso de posse, voltado para a instrução de um povo ainda iletrado e isolado das descobertas científicas da Europa. Porém, estes planos estão longe do que é esperado de uma monarca, como podemos observar pela busca incessante de seus pretendentes; não só pela sede de poder, mas pelo puro pragmatismo político: sem um herdeiro, o futuro do reino fica nas mãos da caprichosa rainha. Sendo assim, sua função mais importante seria ter um filho, algo que ela renega já que está apaixonada por uma condessa, condecorada como sua dama de companhia. Ou seja, nem de longe as religiões da época poderiam nutrir a sede de conhecimento que Cristina tinha pelas emoções humanas; não tanto quanto seu filósofo francês favorito.

O filme em partes é construído como um relato histórico, quase documental, mas parece não tentar explicar ou buscar explicações dos rumos da nova rainha, além de ser muito ruim na contagem do tempo (seu reinado durou cerca de 20 anos, mas o filme parece narrar pouco mais que alguns meses). Os eventos de sucedem em um movimento caótico, quase que tirado dos livros de história, mas ao mesmo tempo é fascinante acompanhar essa viagem no tempo através de uma direção de arte voltada mais para o realismo da época, onde castelos eram lugares grandiosos, porém igualmente miseráveis ao resto da população. Corredores e becos estreitos do castelo revelam ou um realismo contundente ou uma falta de orçamento que puxa para o lado televisivo do projeto. Como prova disso observe como um vilarejo onde a rainha de encontra em um momento possui tão poucas casas e pessoas, e onde a rua principal parece começar e terminar no mesmo lugar.

Porém, ainda assim se torna curioso acompanhar as consequências de uma jovem rainha em tentar educar seu povo em uma época onde livros eram um artigo de luxo, tanto que lotar uma biblioteca exigia buscar trabalhos de várias regiões escritos nas mais diversas línguas, de grego e árabe a espanhol e francês. O que nos leva também a considerar que o uso do inglês no filme torna tudo muito televisivo e falso (pessoas falando inglês em plena Suécia naquela época parecia algo totalmente fora de contexto). Ao mesmo tempo que os diferentes idiomas fornecem pistas das diferentes formas de pensar (e da cisão religiosa no cristianismo), se torna uma auto-sabotagem um trabalho desses estar em um idioma não apenas hollywoodiano, mas simplesmente errado historicamente.

A Jovem Rainha Crítica

Enquanto isso, detalhes técnicos exagerados, como a trilha sonora, embora tenha o bom tom de usar os instrumentos da época como principais, como o cravo, tenta pontuar excessivamente as cenas, dramatizando além da conta. Em outros momentos soa completamente invasivo, oscilando de uma cena romântica para a ação, atrapalhando a primeira.

Porém, o pior de tudo mesmo é o filme nunca se preocupar com um conflito principal. Sim, sabemos que é importante para um governante governar, mas a tensão gerada pela guerra com os alemães, por exemplo, não passa de breves falas de seus conselheiros e uma taça virada ao contrário em cima de um mapa. Também sabemos que a religião era uma bandeira muito mais importante na época do que hoje, uma época em que o homem mais poderoso do mundo era o Papa. Também sabemos que o homossexualismo da rainha, além de ser um empecilho na geração de alianças e herdeiros, seria inaceitável na época.

Mas tudo isso parece ser citado de passagem muitas vezes, sem nunca ser considerado o grande conflito que o filme deve solucionar. Aliás, não é possível entender as motivações da rainha direto dela, já que os diálogos mudam de tom a todo momento e a atriz que a interpreta (Malin Buska) resume seu personagem a caras fechadas e aumento de voz. Sua interpretação sedutora é particularmente cômica, rivalizando com Bella Swan de Crepúsculo, o que definitivamente não é um elogio.


“The Girl King” (Fin/Ale/Can/Sue/Fra, 2015), escrito por Michel Marc Bouchard, dirigido por Mika Kaurismäki, com Malin Buska, Sarah Gadon, Michael Nyqvist, Lucas Bryant, Laura Birn


Trailer – A Jovem Rainha

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