A Jaqueta de Couro de Cervo | Curto e Inevitável


A lógica de A Jaqueta de Couro de Cervo é simples, direta e escalável. É daqueles filmes curtos que exploram um tema até seu inevitável final, não nos permitindo sair dos trilhos. Nos limitamos a ficar tensos, aguardando quando as coisas começarão a dar errado, enquanto assistimos nossa própria incompreensão de quando começa o fascínio por uma história de cinema.

Jean Dujardin (O Artista) vive Georges, um ser que se descontrói no primeiro momento do filme, enfiando sua jaqueta dentro de uma privada no meio do nada e nunca olhando para trás. Mas não se engane por esse pequeno ato. Georges está relaxado e focado. Sua raiva reacionária é demonstrada de maneira econômica e pontual, e seus atos amorais são efetuados sob um véu funcional que não nos permite ignorar sua seriedade.

Adèle Haenel, dos ótimos A Garota Desconhecida e Finalmente Livres, faz basicamente o nosso papel de espectadores, como a garçonete que só se empolga de verdade no primeiro momento selvagem de Georges que ela assiste, o que automaticamente define e acusa a desconstrução que é o Cinema, que parte de um Zé Ninguém de história ou premissa em busca de sua verdadeira identidade, na transformação do nada em algo.

Georges vive em função dessa jaqueta-título, que é o protagonista de fato, e cria um acessório humano para satisfazer os desejos mais fetichistas de nossa sociedade consumista, materialista e assassina, escolha o rótulo que quiser atacar. De brinde há um pouco de thriller e slasher, embora este não seja o principal, mas o instrumento pelo qual a discussão é posta na tela.

Enquanto isso Adèle vive a persona mais fascinante, pela sua atuação mais sincera e com menos maneirismos, além de nos entregar um retrato honesto de uma personagem de filme francês. Pelo pouco tempo de tela disponível para a atriz ela nos entrega mais presença que Georges, pois compreende que para este filme tresloucado de Quentin Dupieux é primordial que a câmera esteja invisível.

Uma trilha sonora anos 60 comenta sem interromper o espiral de loucura do protagonista, a jaqueta, em uma viagem metalinguística que vive pelas referências vagas do cinema, mas principalmente pela auto-referência. O próprio trabalho de edição é desconstruído, como podemos ver nos diálogos entre Georges e sua jaqueta, sem o disfarce que Georges é quem faz a voz da jaqueta. Por fim, a direção de arte não nos permite sair daquele mundo solitário e acre fotografado sem maiores surpresas, exceto nos banhar de western em um filme francês.

Essa é a mágica das cores do cinema, como a própria fachada do cinema da cidade onde se passa a ação, que com um misto de azul e principalmente vermelho já nos indica de imediato o perigo da ilusão. “Sozinhos” no escuro da sala, o cinema será sempre esse perigo de nos envolver além do recomendado em uma vida inexistente. E quando acaba é repentino e fugaz. A única coisa que permanece são as jaquetas de pele de animal. Que filme, que filme.

Dupieux é o diretor estonteante do cult ou quase-cult Rubber, O Pneu Assassino. Ele nutre esse fetiche materialista de maneira aberta e nos traz reflexões sinceras sobre o quanto os objetos exercem esse fascínio, mas no proceso percebemos que o próprio filme pode ser esse objeto.


“Le daim” (Fra, 2019), escrito e dirigido por Quentin Dupieux, com Jean Dujardin, Adèle Haenel e Albert Delpy.


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