A Invenção de Hugo Cabret


Desde que em 2009 James Cameron revitalizou a tecnologia 3D e criou toda essa obsessão de Hollywood com a técnica se vem esperando que um verdadeiro gênio do cinema experimentasse as três dimensões e, felizmente, em A Invenção de Hugo Cabret, essa hora chegou ao fim com Martin Scorsese.

De cara, Scorsese passeia por essa Paris iluminada, entra nessa estação de trem, que pode ser considerada uma das personagens principais do filme, encontra o herói Hugo Cabret, se esgueirando por trás das paredes e observando esse organismo pulsante que é a estação, e só isso, antes mesmo de apresentar o título de seu filme, já demonstra o quanto Scorsese parece a fim de fazer com que sua primeira experiência nessa técnica seja mesmo inesquecível.

A Invenção de Hugo Cabret conta então a história desse garoto órfão (Asa Butterfield de O Garoto do Pijama Listrado), que perde o pai (Jude Law) e acaba indo morar com o tio, um bêbado que é responsável por arrumar e manter funcionando os relógios da Estação de Trem de Paris, mas logo se vê sozinho e o único modo de não acabar em um orfanato é manter o trabalho do tio e fugir dos olhos de todos.

Essa aventura então se estende pela procura de Hugo Cabret por um modo de consertar um autômato (uma espécie de robô mecânico) deixado por seu pai, que ele acha que lhe trará uma mensagem dele, mas, na verdade, o levará a descobrir um pouco mais sobre sonhos e um dos maiores criadores dessa matéria prima do cinema.

Scorsese então segue por esses dois caminhos, um à procura dos sonhos e outro em busca apenas de um público infanto-juvenil, o problema é que os dois caminhos não se juntam e permanecem independentes demais, como se, sequer, um precisasse do outro. Por um lado, de modo irretocável, Scorsese presta essa homenagem ao cinema, do outro fica apenas fugindo de um Inspetor de Estação (Sacha Baron Cohen) e seu cachorro, sem se preocupar em colocar tudo isso no mesmo filme de modo incisivo.

É inegável então que A Invenção de Hugo Cabret só então não chateia mais pois, enquanto brinca de gato e rato de modo bobo e narrativamente descuidado, aproveita para apresentar o melhor uso de 3D que o cinema viu nos últimos tempos, divertindo-se com a profundidade e, talvez pela primeira vez, brincando com a linguagem e inovando, como no momento em que a cabeça do Inspetor parece crescer e aumentar sua ameaça diante do herói Hugo Cabret. Uma pena, já que isso pouco interfere no resultado final, que poderia ser muito mais narrativamente maduro.

Não que isso seja um discurso contra um cinema mais infanto-juvenil, mas sim um que percebe que toda dinâmica de personagens e situações dentro da Estação, como os casais que se formam, só fazem com que A Invenção de Hugo Cabret perca a oportunidade de explorar apenas seu lado lírico e poético, que já seria, por si só essa aventura em busca do sonho perdido. Em busca do cinema mais fantástico da história, e desse lado Scorsese dá um show de sensibilidade.

a invenção de hugo cabret still

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Sem muitos spoilers (mas talvez nesse caso eles até venham a calhar, já que entrar no cinema sabendo da importância do diretor francês George Meliés para o cinema torne A Invenção de Hugo Cabret um pouco mais emocionante), o verdadeiro objetivo de Hugo Cabret é contar a história de como nasceu a fantasia do cinema, e para Scorsese, a oportunidade de demonstrar mais ainda sua paixão pela sétima arte. Para o diretor, desde o começo A Invenção de Hugo Cabret é sobre cinema, sobre a luz sibilante e o barulhinho característico do projetor que surgem ao fundo enquanto Hugo Cabret lembra do pai, como se estivesse vendo um filme, assim como da fascinação dos dois personagens centrais dentro do cinema descobrindo o quanto é delicioso sonhar enquanto fazem o espectador, sentado do lado de cá da tela, lembrar desse prazer quase infantil que às vezes acaba se perdendo com o tempo.

E Scorsese então parte em busca dessa segunda chance de homenagear essa personalidade que mudou o cinema e hoje, assim como em certo momento da primeira metade do século passado, parece ter se perdido nas lembranças. E ainda que grande parte da história do cineasta contada no filme seja verídica (resumida, porém verdadeira, já que as causas do fim de sua carreira esbarram em problemas muito menos românticos e muito mais econômicos), o grande objetivo do diretor parece mesmo ser recriar e colocar seu espectador nesse mundo.

É impossível não se apaixonar pela viagem que Scorsese faz pela obra do diretor francês, tanto através de seu matéria original, quanto por meio de apaixonantes recriações de seus filmes, momento então em que A Invenção de Hugo Cabret tem a oportunidade de trazer para o novo século, e para o 3D, essa fabrica de sonhos. Scorsese passa pelo começo do amor de Meliés ao cinema, a descoberta de suas trucagens e a todo modo de fazer um cinema fantástico em uma época que ele ainda engatinhava em termos narrativos. As aventuras desse garoto Hugo Cabret então se tornam a descoberta do cinema e de um modo de trazer felicidade (e respeito) a esse velho senhor que parecia ter perdido, assim como Hugo, sua principal fonte de inspiração e desde lá apenas vaga incógnito no meio da multidão.

O problema de A Invenção de Hugo Cabret é então não conseguir fugir desse outro lado bobo e inocente demais, com um visual impressionante é verdade, ainda mais com seus planos sequências, sem esquecer do impressionante acidente com o trem (esse quase inútil, já que acontece por meio de uma desculpa mais sem sentido ainda dentro da trama), tudo ao invés de investir com mais força nesse filme apaixonante sobre cinema, que traça um paralelo perfeito entre o 3D e o espectador dos irmãos Lumiere fugindo da vinda do trem, ao mesmo tempo em que conta a história de um garoto órfão que descobre que fugir desse trem é a melhor coisa do mundo.


Hugo (EUA, EAU 2012) escrito por John Logan, a partir do livro de Brian Selznick, dirigido por Martin Scorsese, com Asa Butterfield, Clhoe Grace Moretz, Christopher Lee, Sacha Baron Cohen, Ben Kingsley, Jude Law e Emily Mortimer.


Trailer – A Invenção de de Hugo Cabret

3 Comments

  1. Mais um ótimo trabalho da excelente atriz Emily Mortimer!! Já li ótimos comentários sobre uma nova série em que ela fará parte. O contexto de The Newsroom é muito intrigante, graças também a ajuda de um maravilhoso elenco. Eu mal posso esperar para ver essa série.

  2. Na metade do filme cochilei no cinema. Depois, o filme foi so alegria. A primeira parte do filme era dispensável. Valeu pela segunda parte. Mesmo assim, recomendo.

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