A Hora do Espanto

 

Melhor ou pior, mais ou menos fiel, o que estraga realmente qualquer refilmagem é seu original, mesmo que ela, como esse novo A Hora do Espanto, se esforce demais para ter identidade, modernizar a trama e contar a mesma história. Mas não adianta, quem Hora do Espanto Poster viu o primeiro vai passar esses pouco mais de cem minutos comparando-o com o original, porém quem não viu (ou conseguir fugir dessa comparação) vai ganhar um filme tão divertido quanto o de 1985.

E se para muitos essas menos de três décadas são um período pequeno demais para que o cinema já precise contar de novo essa mesma história para uma nova geração, a resposta talvez seja “sim”, principalmente, pois essa nova versão dirigida por Craig Gillespie (que tinha feito o esquizofrenicamente simpático A Garota Ideal) consegue perceber o quanto o público mudou e, mesmo assim, merece conhecer essa história que é interessante por si só.

Sai o garoto que começa a desconfiar que seu novo vizinho é um vampiro (em até uma espécie de referência hitchcockiana) e entra esse adolescente (Anton Yelchin de Star Trek) que vive com sua mãe (Toni Collete) em um subúrbio nos arredores de Las Vegas e descobre que seu vizinho (Colin Farrel) é realmente um vampiro.

Parece ser a mesma coisa, mas desconfiar e descobrir são detalhes completamente diferentes e que, justamente, diferenciam o filme para essa nova platéia. O romantismo do suspense dá lugar a agilidade que o espectador atual parece mais acostumado, um imediatismo que não deixa esse novo A Hora do Espanto durar mais que dois dias em uma corrida contra o relógio e por suas vidas. Pragmático, mas funcional para o mundo moderno.

E esse novo público não ganha só um ritmo mais encaixado com o cinema de hoje, mas também tem a oportunidade de dar de frente com uma história mais “modernamente condizente”. Collin Farrel tem o charme e a presença de “bad boy” que carrega o vilão muito mais para os dias de hoje do que um vampiro que se mostrasse clássico e canastrão, como Chris Sarandon faz no primeiro, comparação que demonstra que ambos funcionam, mas em momentos diferentes do cinema.

Las Vegas, a cidade que vive durante a noite está logo ali ao lado, locação perfeita para ação, já que não deixa ser esquisito o vizinho sumir durante o dia, e Peter Vincent, apresentador do programa de TV que dá nome do filme, agora é vivido pelo britânico David Tennant (conhecido na Inglaterra por ter vivido o famoso Doctor Who) que foge da imagem envelhecida que Roddy McDowall precisava ter no primeiro (condizente com o tom de “romantismo” que eu citei). O novo Peter Vincent acaba então sendo uma espécie de ilusionista meio gótico de TV e uma alusão divertida ao jeito “montado” do mágico Chris Angel, mas o mais importante é que tudo isso se liga diante da ingenuidade do amigo do protagonista, e não dele próprio (como no original).

Na verdade Yeltchn encarna um lado cínico que não existia no original (que talvez acabasse sendo encarnado por todos que o cercavam) e é jogado no meio de toda essa loucura graças a paranoia do melhor amigo (Christopher Mintz-Plasse), o que ajuda mais ainda que os novos espectadores embarquem na história, já que em um cinema atual muito mais chato e lógico, duvidar com todas as armas que um vampiro chamado Jerry more ao lado de sua casa é, obviamente, a primeira coisa que qualquer um faria.

Hora do Espanto Filme

E o grande ás na manga de Gillespie (visualmente seguro e até arriscando uma sequência sem cortes dentro de um carro no meio de uma perseguição) e do roteiro de Marti Noxon é isso: tratar toda história com a seriedade de algo real e atual, mas sem esquecer que, no final das contas, tudo se trata de uma história sobre um vampiro. Por isso, nada de renegar suas origens. Com respeito e humor, esse novo A Hora do Espanto deixa para ser clássico e romântico justamente onde as criaturas da noite mais sofreram nas mãos da cultura moderna: em suas raízes.

Não faltam referências (assim como a divertida participação do “Jerry Original”), nem situações que dão risadas do como é difícil decapitar alguém ou acertar um coração, assim como divertem o espectador que sabe que um vampiro que se preze não entra em nenhum lugar sem ser chamado, e que assim que entra, não faz nada a não ser refeições.

Por outro lado, principalmente o roteiro de Noxon falha na falta de coragem de criar um Peter Vincent apenas “apresentador de TV”, e ao invés disso lhe força de modo desajeitado uma espécie de passado “vampiresco” e que, pior ainda, cruza, convenientemente, exatamente com o do vilão principal, o que afasta o público que até aquele momento, provavelmente, se mostrava muito mais confortável com todo andamento da trama e não precisaria de um empurram final para acreditar na existência das criaturas (e de uma espécie de Van Helsing moderno).

Diferente do original A Hora do Espanto não quer ser um filme de suspense (e até começa como 90% dos filmes de terror atuais, com uma “morte de exemplo”) e joga limpo com seu espectador, criando um filme muito mais leve e rápido, que não perde um segundo, se joga de cabeça na ação, em um punhado de confrontos entre o herói e o vilão, muito sangue, vampiros e um 3D que funciona (mesmo sem surpreender). Tudo que o espectador atual precisa para sair feliz da sessão de cinema. Resumindo de modo simplista, dando ao seu público o que ele quer (assim como o original se orgulhava de fazer), e desde quando isso é ruim?


Fright Night (EUA, 2011), escrito por Marti Noxon dirigido por Craig Gillespie, com Anton Yelchin, Colin Farrel, Toni Collete, David Tennant, Imogen Poots e Christopher Mintz-Plasse


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