A Garota Dinamarquesa Filme

A Garota Dinamarquesa

Quantas vezes uma pessoa aguenta receber o diagnóstico errado do problema de sua vida antes de perceber que está apenas se enganando em um mundo que não está pronta para recebê-la? E é possível até deduzir a essência da história contada em A Garota Dinamarquesa diante dessa questão, mas o que não impede de ser muito mais difícil senti-la.

Estruturado como um melodrama insosso, o novo filme de Tom Hooper (O Discurso do Rei) contém todas as virtudes que poderiam fazer parte de um ótimo drama sobre um assunto sexual ainda pouco explorado de maneira honesta. No entanto, se arriscando pouco e escolhendo o caminho seguro da pura e simples descrição de eventos, o resultado é no máximo satisfatório, com aquele gostinho de “poderia ser melhor”.

Narrando a vida da personagem da vida real Einar Wegener (e se você ainda não sabe exatamente do que se trata, seria um desperdício de surpresa dizer aqui), é interessante acompanhar o processo de “redescoberta” de Einar junto de sua esposa Gerda. Como todo casal jovem da época, tentam fazer um filho, mas sem sucesso. Ambos são pintores e fazem parte de uma parcela da sociedade europeia já acostumada a comportamentos excêntricos. Dessa forma, começando com a necessidade de Einar vestir peças de roupa femininas para posar para os quadros de Gerda, logo isso se torna uma brincadeira sexual, e em seguida já vemos Einar desfilar em um evento de arte maquiado e vestido como uma mulher, Lili, anunciada como a prima de Einar que veio do interior.

Logo também se torna óbvio que, apesar de se focar na vida de Einar, a melhor coisa do filme é o relacionamento que este nutria com sua esposa e o jogo de confidencialidades dos dois. E mesmo quando Gerda começa a temer pelo desaparecimento do que um dia foi seu marido, é tocante perceber seu amor em se desapegar de seu relacionamento original, ou mesmo encarar o fato de que, na realidade, ambos eram muito mais melhores amigos do que qualque outra coisa. É curioso, portanto, que as melhores cenas não girem em torno disso. Uma delas, por exemplo, é sobre a surpresa de Einar em perceber como os homens se jogam facilmente para cima de uma mulher assim que a veem, ainda mais sendo uma estranha e misteriosa mulher. Falando qualquer bobagem para conseguir abordar a “moça”, a sequência é um joguete tão cômico quanto revelador para o personagem e sua reação.

Aliás, o empenho de Eddie Redmayne mais uma vez se mostra recompensador, como foi em A Teoria de Tudo, onde interpretava Stephen Hawking, talvez com a única diferença da intensidade. É preciso lembrar também que a transformação de Hawking é trágica, enquanto a realizada por Eiar é um sonho a ser alcançado. Porém, ambos os caminhos não são fáceis, e precisam da ajuda de quem mais os ama. Porém, de uma forma ou de outra, Redmayne se torna o ator perfeito para o papel, e o desempenha com perfeição graças à cumplicidade e química desenvolvidas com Alicia Vikander (do ótimo Ex-Machina), que desempenha com ele dois papéis primordiais para que o filme seja mais do que parece.

Sendo assim, é desapontador a inserção de outros personagens, como os de Ben Whishaw e Matthias Schoenaerts, que, reais ou não, parecem desempenhar uma única função, nunca se inserindo organicamente na narrativa. Como consequência, cada episódio envolvendo um ou outro se torna mais ou menos desconexo com a história principal, nunca complementando-a. Isso costuma acontecer em histórias baseadas em casos reais, mas aqui se torna particularmente inquietante até pela falta de um elenco que consiga se destacar.

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Até o casal principal parece ter sido sabotado pelo roteiro de Lucinda Coxon, baseado no romance de David Ebershoff, que não se preocupa em convertê-los em seres de carne e osso, mas apenas mártires da situação. Até diálogos mais ou menos inspirados, como “um casamento cria algo mais que duas pessoas” soam clichês demais. E, mesmo apenas como mártires, o casal parece estar inserido em uma realidade onde não há muita resistência ou preconceito sobre a questão, apenas ignorância. Mas ignorância é algo que temos até hoje em dia, tornando o filme absurdamente inofensivo.

E as coisas só pioram com a direção de Hooper, que utiliza quadros que evocam uma profundidade de campo gigantesca, como uma rua com uma série de casas amarelas, ou até um corredor de hospital infinitamente longo. Essas cenas não possuem um significado facilmente traduzido, se é que foram pensadas com algum. As coisas se saem melhor quando há de fato algum simbolismo envolvido, como quando Einar está em um tratamento que envolve radiação, e vemos apenas metade do seu corpo pelo vidro da porta, como se este estivesse sendo cerrado ao meio, ou até mesmo a bonita passagem em que ele diz ter sonhado com sua mãe.

Entre altos e baixos, o saldo de A Garota Dinamarquesa está levemente acima da média, mas deixa a questão: quantas vezes mais um tema que merecia um tratamento melhor será levado à telona e ser exibido para um mundo que talvez ainda não esteja pronto para recebê-lo?


“The Danish Girl” (RU/EUA/Bel/Din/Ale, 2015), escrito por Lucinda Coxon, à partir do livro de David Ebershoff, dirigido por Tom Hooper, com Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Amber Heard e Adrian Schiller.


Trailer – A Garota Dinamarquesa