A Garota de Fogo | Filme espanhol se destaca como crítica socio política velada

A Garota de Fogo Filme

“Muitas coisas podem acontecer”, se você alterar algumas variáveis na História, diz o professor de matemática durante a aula, e completa: “Porém, dois mais dois sempre serão quatro.” E isso se torna uma conclusão, ou profecia, a respeito da inacreditável história de A Garota de Fogo. E o mais inacreditável no filme é que essa fala e tudo o que vemos nele favorece a narrativa, além de estar intrinsecamente ligado ao tema que ele quer explorar.

Passado em uma Espanha durante uma crise, algo comum no país e que é explicado como uma característica ambivalente do seu povo em uma sequência que lembra um pouco a atmosfera de Beleza Adormecida, embora um tom mais real, A Garota de Fogo começa de maneira muito simples: uma garota desafia um rígido professor falando a verdade. Logo depois vemos uma menina dançando ao som japonês, e seu pai, incapaz de lidar com o destino de sua filha com leucemia.

A motivação infantil do pai em dar de presente para sua filha o único item possível de ser alcançado em seu livro de desejos é a força motriz que leva o filme para outras viagens e universos, que consegue encaixar com perfeição poética e visual a história de uma esposa de um psiquiatra com tendências suicidas e um prisioneiro reformado que teme não poder controlar seus instintos, sendo que estes parecem a coisa mais racional e perigosamente sensata do filme. Em ambos os casos voltamos ao diálogo que citei sobre os problemas da nação espanhola, e logo fica óbvio que este é um dos melhores roteiros do ano, pelo seu intrincado jogo de conexões visuais, de dar inveja a trabalhos já icônicos como 21 gramas, Crash ou Babel.

A Garota de Fogo Crítica

Porém, nem de longe ele se torna enfadonho por sua complexidade. Ele é simples, previsível, mas fascinante ao mesmo tempo. Com um ritmo próprio, e criando seus personagens no tom exato para a história que quer contar, A Garota de Fogo parece não temer se tornar uma experiência fechada demais, ou com simbolismos que podem levar a diferentes interpretações. Pelo contrário: o filme abraça essa capacidade como se fosse justamente essa a forma de contar uma história com tantas nuances e tantos personagens funcionais.

No entanto, mesmo assim, se torna acessível ao grande público, que se tiver paciência na primeira metade, irá receber uma recompensa inquietante na segunda metade. Irá se indagar sobre o que está acontecendo e qual a moral da história. Será este filme uma crítica política, social, ambos?

Não importa. E nem importa o leque de possibilidades. O filme muito bem poderia tomar qualquer outro rumo e ainda seria igualmente poderoso. Porém, é no seu jogo naturalista, que evita trilhas sonoras e diálogos expositivos, que ele encontra a força do acaso e das coincidências irritantes. O único alento é que, aconteça o que acontecer, dois mais dois continuarão sendo quatro.


“Magical Girl” (Spa/Fra, 2014), escrito por Carlos Vermut, dirigido por Carlos Vermut, com José Sacristán, Marina Andruix, Raimundo Reyes de los, Lucía Pollán, Luis Bermejo


Trailer – A Garota de Fogo

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