A Garota da Capa Vermelha

(contém um enorme SPOILER no último parágrafo!!!!!)

Não há dúvidas que seria muito mais fácil encontrar, e apontar, uma série enorme de erros e atalhos preguiçosos que A Garota da Capa Vermelha se permite ter (e seguir), o mais difícil é perceber que esses escorregões talvez sejam os grandes culpados para que essa reinvenção do conto da Chapeuzinho Vermelho não alcance degraus mais elevados, já que teria material para isso.

É inegável também perceber que, de um lado, Catherine Hardwick (que, depois de despontar com drama adolescente Aos Treze foi caindo de produção até chegar ao primeiro filme da saga Crepúsculo) é responsável direta pela maioria dessa falhas, fazendo escolhas artificiais, repetitivas e sem o mínimo valor narrativo. Ainda que, esteticamente, tenha lá seus acertos, acaba apostando muito mais no cavalo mai bonito e vistoso do que naquele feinho e azarão que pode dar resultado.

Em parceria com a fotografia de Mandy Walker (que cometeu os mesmo erros plásticos em Austrália), Hardwick desperdiça, não só uma direção de arte tremendamente esforçada, quanto um roteiro que sabe exatamente onde pisar, optando (ela) por uma artificialidade sem graça e pouco inventiva. Se tudo em A Garota da Capa Vermelha parece limpo e engomadinho demais, a dupla parece se esforçar a todo custo em mostrar isso, o que tira a atenção dos acertos estéticos da direção de arte, que cria, principalmente nos cenários, uma identidade orgânica e divertida (principalmente da casa da avó da protagonista, vivida, pela ainda linda Julie Christie) que em muito até lembra a mente inventiva da Disney em sua época áurea, onde os cenários pareciam todos vivamente rebuscados em torno da natureza onde aquela história se dava.

Nesse caso, as voltas de um pequeno vilarejo no meio de uma floresta em algum ponto da idade média, onde vive Valerie (Amanda Seyfried, mais uma vez insípida, inodora e insossa), uma mocinha apaixonada pelo lenhador (Shiloh Fernandez), mas acaba descobrindo estar sendo arranjada pela família para casar com o filho de ferreiro rico (Max Irons). Mas tudo isso, assim como a vida dessa vila, é abalada, mais uma vez (mais uma, pois eles já convivem com esse medo por décadas), pela aparição do temido lobo, que depois se mostra sendo um lobisomem e, graças a isso, entre em cena um caçador de monstros e bruxas, o Padre Solomon (Gary Oldman, e um daqueles momentos difíceis de entender de sua carreira).

Ainda que sofra com esse peso melodramático todos, com o casamento arranjado, da situação do vilarejo, de alguns momentos de ciúmes entre os personagens e até de um passado que acaba retornando para criar mais ainda esse tom novelesco (no sentido ruim da expressão), A Garota da Capa Vermelha acaba, no frigir dos ovos, ganhando um roteiro bem amarrado, que não deixa pontas soltas e arruma belas desculpas para inserir momentos clássicos da história original nessa nova história. Escrito por David Johnson (também responsável pelo texto do terror A Órfã), ainda que pareça depender de um enorme jogo de pistas (no começo) para serem buscadas (no final), todas pouco sutis, é impossível não acabar o filme tendo aquela sensação de que nada está fora do lugar. Até por que tudo foi esfregado em sua cara.

A cada descoberta ou suspeita (já que em certos momentos a trama esbarra em um thriller “quem é o lobisomem?”) o filme de Hardwick parece ter a necessidade, irritante, de ir buscar um pequeno flashback (às vezes só um flash mesmo, ou até uma recordação sonora) que mostra o quanto ninguém ali parece confiar no próprio público, que, de acordo com isso, não conseguiria lembrar-se de detalhes que foram mostrados a poucos minutos.

E talvez essa falta de confiança seja uma das máximas do filme (e que mais atrapalham), já que nada, em nenhum momento, parece ser simplesmente velado, como se, absolutamente nada pudesse ficar nas entrelinhas, o que, dado o esforço do roteiro em ser diferente e contar essa história clássica de modo criativo, talvez pudesse acontecer e criar um filme um pouco mais profundo. Já que, sobra nele uma leve profundidade psicológica que poderia ser mais explorada, ou ninguém percebeu que, no final das contas a Chapeuzinho fica com o Lobo Mal, e para isso eles tem que matar o pai dela, que matou a própria mãe (vulgo vovozinha), sem contar com uma relação incestuosa entre meio-irmãos que não acontece por pouco e um padre que acaba matando a mulher quando ela se torna um monstro ao mesmo tempo em que deixa os filhos presos em uma espécie de gaiola sobre rodas. Mas tudo isso é só subtexto e as vezes ele não está para ser lido, ou está?


Red Riding Hood (EUA, 2011), escrito por David Johnson, dirigido por Catherine Hardwick, com Amanda Seyfried, Gary Oldman, Billy Burke, Shiloh Fernandez, Max Irons, Virginia Madsen, Lukas Haas e Julie Christie.


8 Comments

  1. Pareceu que eu estava lendo um livro e não vendo um filme .-.

  2. gostei do filme mas no final ele poderia ter mordido a garota e leva-la junto com ele

  3. O filme, embora haja sangue, mordidas e pedaços de corpos, não pode ser considerado como terror… (Leia o meu comentário, na íntegra, no blog pedacosdeu )

  4. Não gostei do final, achei que poderia ter sido excelente, o rapaz não poderia ter sido mordido perdeu toda a graça do filme! deu pra ver a cara de desepçao de todos que estavam saindo da sala…..

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