A Forca Filme

A Forca

A Forca é uma farsa: utilizando o recurso de found footage enquanto claramente usa tomadas provenientes de diferentes câmeras, o longa ainda acrescenta sons não-diegéticos para “apimentar” A Forca Poster seus sustos – que apenas em raros momentos em que se mostram eficientes e, mesmo nesses casos, a tensão é mínima. Como se não bastasse, o terror ainda consegue ser protagonizado por quatro dos personagens mais estúpidos e irritantes do cinema recente.

Em 1993, o clube de teatro de uma escola do Nebraska apresenta sua produção de A Forca, uma história situada na América Colonial (aparentemente) em que o protagonista é condenado à morte por enforcamento devido a seus crimes, deixando sua amada aos prantos. Um acidente, porém, faz com que o jovem Charlie, intérprete do personagem, seja realmente enforcado na noite de estreia da peça. Vinte anos depois, o clube prepara uma nova produção da peça. O protagonista, agora, é vivido por Reese (Reese Houser), um popular jogador de futebol que se envolveu no teatro por ter uma queda por Pfeifer (Pfeifer Ross). O melhor amigo de Reese, Ryan (Ryan Shoos), acha tudo aquilo uma bobagem e, ao lado de sua namorada, Cassidy (Cassidy Spilker), convence Reese a acompanhá-los até a escola na noite anterior à estreia para destruir o cenário.

Se a câmera de Ryan funciona como um recurso contra o tédio do personagem em lidar com o teatro durante as aulas, não há explicação plausível para sua decisão de registrar em vídeo o vandalismo que comete contra o cenário – e a estupidez disso não é comentada nenhuma vez pelos outros estudantes. Aliás, o estilo found footage da produção logo se mostra falsário: após uma gravação da peça original de 93, o letreiro anuncia que o que veremos a seguir é evidência pertencente à polícia – mas o vídeo é claramente montado a partir de diferentes câmeras. A verdade é que os constantes planos de pés correndo e o estilo de falso documentário proporcionado pelo found footage não justifica a escolha dos diretores e roteiristas Travis Cluff e Chris Lofing, servindo basicamente para deixar os personagens praticamente mergulhados na escuridão.

Além disso, os cineastas ignoram um dos princípios básicos do found footage – o espectador tem a mesma experiência do personagem com a câmera – ao acrescentar sons não-diegéticos diversas vezes para assinalar um susto se aproximando, ao invés de deixar esses momentos funcionarem por si só. Com ou sem sons adicionais, os sustos não funcionam; é apenas no terceiro ato do filme que existe alguma tensão e, mesmo assim, ela não é trabalhada, existindo apenas imediatamente antes e após o acontecimento que faz o espectador dar um pulinho na cadeira e mais nada (o mais eficiente destes é a primeira vez em que vemos a corda carregada por Charlie em torno do pescoço de alguém). Isso torna a experiência arrastada apesar da curta duração do filme, já que um dos elementos mais importantes dos gêneros do horror e do suspense é justamente a construção de uma atmosfera tensa, sufocante, que mergulha o público na história e no desespero daquele universo.

A Forca Crítica

A falta de tensão também acontece por simplesmente não nos importamos com aqueles personagens; é difícil torcer para que aquelas pessoas vivam. Reese, Cassidy e Pfeifer são apenas estúpidos e frequentemente irritantes, enquanto Ryan é completamente insuportável e, como A Forca é um filme de terror e alguém do grupo obviamente irá morrer, desde seu primeiro minuto de tela torcemos para que Ryan morra logo. Isso, é claro, acaba tornando Charlie uma figura bem mais interessante do que realmente é – e os realizadores do filme parecem certos de terem criado um novo vilão icônico do gênero. É verdade que eles acertam ao adiar ao máximo a primeira aparição do espírito do jovem, mas nada neste filme é interessante o bastante para causar qualquer impacto (o viral “Charlie-Charlie”, brincadeira em que pessoas supostamente invocam seu espírito, já foi mais atenção do que este longa merece).

Outro motivo de o envolvimento com os quatro personagens centrais ser tão difícil é que eles, e o filme, são absurdamente estúpidos. Se portas que não se abrem surpreendem os jovens mesmo depois de isso já ter acontecido dezenas de vezes, a burrice deles se estende até o final do filme – eles simplesmente não parecem perceber, em momento algum, o que está acontecendo ali (mesmo depois de terem descoberto o que está acontecendo ali). O roteiro sofre do mesmo mal: quando, no segundo ato, descobrimos mais informações sobre a peça original, é impossível de acreditar que os alunos daquela escola já não saberiam daqueles detalhes, principalmente por eles estarem atualmente trabalhando em uma nova produção de A Forca. Mas é assim que Cluff e Lofing tentam inserir algumas reviravoltas na trama, já que, desde o começo, basicamente apenas acompanhamos os quatro jovens correndo de um lado para o outro.

Por outro lado, a reviravolta final, brincando com o arquétipo da final girl (a garota que sobrevive para contar a história) é divertido e, em um filme bom, poderia ser excelente – aqui, a conclusão do filme é tão caricata que a revelação perde a força. A Forca, assim, é um longa que falha em todas as suas pretensões e que nos faz perder oitenta minutos ao lado de pessoas estúpidas e sem carisma algum, acompanhando uma história mal construída e sem nem ao menos levarmos alguns bons sustos no caminho.


The Gallows” (EUA, 2015), escrito e dirigido por Travis Cluff e Chris Lofing, com Cassidy Gifford, Pfeifer Brown, Ryan Shoos, Reese Mishler e Alexis Schneider


Trailer – A Forca

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