A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas | Colorido e divertidamente banal


Como o nome e o trailer de meia-hora já deve sugerir, A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas é uma animação muito bacana e é banal como a vida hoje em dia. Ela caminha pelo clássico das aventuras de apocalipse com família disfuncional e seus problemas de comunicação, mas sob o ponto de vista fofinho de uma futura cineasta.

A linguagem contemporânea de enfatizar as emoções e desejos colocando enfeites em vídeos, tão comum na web e em novelas juvenis coreanas, ganha vida nesse longa-metragem sobre mais uma vez nossa humanidade colocada em xeque pelo uso exacerbado da tecnologia conectada e o choque com a geração que nasceu sem ela.

Algumas piadas funcionam e outras não, mas você acaba simpatizando com a ideia de acompanhar essa família. Eles são simples, até demais. A única mais complexa e conflitante é Katie Mitchell, a garota-protagonista, porque ela é super-especial e é baseada em uma família de cineastas que formou a equipe responsável pelo filme. E você sabe como esses artistas são egocêntricos. Porém, ela entra em uma jornada para salvar a humanidade de uma vingativa Inteligência Artificial, e todos que já assistiram Ela, o romance dirigido por Spike Jonze com Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson, sabe que não se deve brincar com elas. Katie se desentende com seu velho pai, mas depois entende os sacrifícios que seus pais fizeram durante todo seu crescimento para manter essa família unida.

O design de produção me atrai. Pode ser esse uso de texturas 2D cartunestas em cima de personagens 3D. Pode ser essa mescla audiovisual que referencia ou pisca sutilmente e com respeito para obras sobre IA (Matrix, Tron, 2001) ou até mesmo sobre a evolução da tecnologia no cinema nos últimos anos, principalmente em animação. E esse filme não tenta ser mais um do mesmo, ele vai de encontro ao clássico usando a tecnologia disponível, como muitos animes têm feito. É saboroso capturar esse uso lúdico e ao mesmo tempo estilizado, principalmente se lembrarmos de como o caos impera no “mise en scene” do filme, ou seja, a disposição dos elementos de uma cena, evocando o próprio estado instável dessa família que não damos a menor chance.

Seu terceiro ato é manjado, mas continua engraçado, e se torna mais tocante. Quando o filme acaba e as tensões de julgar o que mais um filme com esse tema está fazendo aqui, a poeira abaixa e em retrospecto não me parece um filme tão medíocre assim. Mas é claro que ele é. Ele apenas ganhou nossa simpatia. O uso de cores em exagero e um cão adoravelmente aloprado podem ter contribuído. Você não gostaria de ter um cãozinho tão simpático e caolho para fazer viver suas aventuras de fundo verde no quintal de sua casa?


“The Mitchells vs the Machines” (EUA/Can/HK, 2021), escrito por Michael Rianda, Jeff Rowe e Alex Hirsch, dirigido por Michael Rianda e Jeff Rowe, com vozes de Abbi Jacobson, Danny McBride e Maya Rudolph.


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