A Epidemia

por Vinicius Carlos Vieira em 19 de Novembro de 2010

Bem lá atrás, quando George A. Romero filmou seu “Exercito de Extermínio” em 1973, o mundo era outro, a idéia de fazer um filme original era outra, até os inimigos eram outros. Hoje, mais de três décadas depois, o cinema não só passa por uma crise de criatividade (vide uma imensidade de remakes), como uma pior ainda, de coragem de dar a essas novas visões de filme antigos a mesma força que eles tinham. “A Epidemia” emula a história original, mas sem dar aquele segundo passo.

Na história, de uma hora para outra, alguns moradores de uma cidadezinha caipira no interior dos Estados Unidos começam a apresentam um comportamento violento e estranho, logo todo lugar acaba sitiada pelo exército a fim de conter uma epidemia de um agente químico que caiu no reservatório da cidade. No meio disso, o xerife e sua esposa (Tymothy Olyphant e Radha Mitchell) precisam fugir dali para sobreviver, mas para isso tem que passar pelos soldados, com ordens bem claras de extermínio, e pelos infectados.

Aquele segundo passo é justamente deixar essa situação tão sufocante quanto à sinopse ai de cima promete, já que a decisão do roteiro de Scott Kosar e Ray Wright é simplesmente colocar a casal de personagens a andar em direção de um ou outro lugar, pior ainda, colocando com eles mais dois personagens sem nenhum desenvolvimento para serem usados com “bois de piranha” para os fãs do gênero. Afinal, um filme desses, sem ninguém morrendo, seria impossível.

E mesmo parecendo ter essa preocupação com o gênero, ela se esvai quando, em nenhum momento, ninguém ali parece uma ameaça aterradora o suficiente para matá-los. De um lado o exército parece distante, pouco entrando em conflito com os protagonistas e de outro os infectados, que até parecem uma ameaça mais competente, mas uma falta de dica de até onde chegam suas consciências, faz ser impossível prever o que temer. Alguns deles urram e se arrastam como zumbis, outros formam armadilhas, falam entre si e manejam armas, por fim, o amigo contaminado apresenta consciência até o momento do sacrifício (isso foi um spoiler, mas não se preocupe que você vai prever isso nos primeiros momentos). Resumindo: um show de conveniência.

A trama simples e eficiente até funciona, já que o único conflito é chegar à outra cidade e com isso é fácil se envolver, pelo menos um pouco, com a idéia, e a câmera de Breck Eisner (que fez o corrido “Sahara”) até tenta impor um ou outro angulo mais plástico, mas um desespero de criar uma “modernidade” que não precisaria existir, picota o filme inteiro, quebrando todo ritmo das sequencias e, a única coisa que faz, é impedir um monte de sequencias que ganhariam um peso tremendo se longas. O diretor da escola arrastando seu forcado deixando um rastro de sangue ganharia um ar épico com uma câmera apenas acompanhando-o, paradoxalmente, de modo calmo, mas aqui cai na mesmice genérica que atinge Hollywood.

Pior ainda, esse desespero de corte não deixa nem a competente maquiagem, que acompanha os infectados, ser apreciada, já que, nem bem a câmera olha em suas direções, logo vai para o chão da sala de edição.

Entre carros falhando e tiros no último segundo antes do personagem virar defunto, “A Epidemia” acaba se tornando uma refilmagem capenga que representa muito mais esse medo de Hollywood de ser pessimista e violenta (levando em conta o que é feito para ser mainstream) do que o clássico do terror de Romero. Infelizmente, tanto para os fãs quanto para todos que perderão a oportunidade de ter em mãos um filme que teria tudo para ser um bom filme de terror, não um filme sobre dois sobreviventes que olham apaixonados para uma bomba atômica iluminando o céu (isso foi mais um spoiler, mas pelo menos esse te prepara para a pior cena do filme.)

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The Crazies (EUA, 2010), escrito por Scott Kosar e Ray Wright, a partir do original de George A. Romero, dirigido por Breck Eisner, com Timothy Olyphant, Radha Mitchell, Joe Anderson e Danielle Panabaker

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