A Cura | Novo filme do diretor de O Chamado é igualmente perturbador e envolvente

A Cura Filme

Tendo circulado por comédias dramáticas, comédias românticas, aventuras e pelo terror, Gore Verbinski é, definitivamente, um diretor versátil. Assim, é um prazer constatar que, depois de comandar o clássico do horror psicológico moderno O Chamado em 2002, ele retorna ao gênero com o perturbador e envolvente A Cura.

O longa acompanha o jovem Lockhart (Dane DeHaan), um ambicioso executivo de uma empresa de finanças em Wall Street. Depois que Pembroke (Harry Groener), um dos sócios da companhia, decide isolar-se em um misterioso sanatório aos pés dos Alpes Suíços, Lockhart recebe a missão de ir até lá e trazê-lo de volta a Nova York. Mas o trabalho não é tão simples quanto parece: ¿Ninguém vai embora daqui¿, o jovem escuta repetidas vezes. ¿Por que alguém iria querer isso?¿.

Ao descer as montanhas depois de uma primeira tentativa mal sucedida de convencer Pembroke a voltar com ele, o protagonista sofre um acidente de carro e, com uma perna quebrada, vê-se internado no sanatório. Conforme Lockhart tenta cumprir seu dever e voltar para casa, ele percebe cada vez mais que o idílico instituto esconde segredos inimagináveis por trás do suposto tratamento milagroso que oferece a seus pacientes.

O roteiro original de Justin Haythe divide com O Chamado apenas o fato de ambos serem suspenses psicológicos de terror. Entretanto, alguns dos elementos que tornaram a produção de 2002 marcante são percebidos também aqui, como a inteligente decisão de não explicar cada detalhe da história, a presença de imagens e símbolos perturbadores e o horror construído através de um clima constante de tensão e suspense, e não por meio de sustos e reviravoltas baratos.

Assim, a fotografia de Bojan Bazelli (repetindo a parceria com Verbinski de O Chamado e O Cavaleiro Solitário) investe em tons de verde, azul e amarelo, criando uma atmosfera doentia e aprisionadora desde os primeiros planos de A Cura até sua eficiente conclusão. A pergunta, aqui, é: há alguma coisa errada com os seres humanos, mas o que é essa inerente doença? O capitalismo desenfreado? A primeira cena segue um executivo de destaque na empresa que, trabalhando até tarde da noite depois que todos os seus colegas já foram para casa, sofre um súbito ataque cardíaco e morre sozinho, em meio a dezenas de computadores em pleno funcionamento.

Lockhart, por sua vez, ganha o olhar frio e cercado por olheiras fundas de Dane DeHaan, que constrói o protagonista com arrogância, cinismo, sagacidade e inteligência. Chegando perigosamente perto de descender à insanidade conforme mergulha nos mistérios do sanatório, Lockhart é referido apenas por seu sobrenome e frequentemente assume uma postura de cansaço e frustração diante da insistência e das mentiras (ou não) dos funcionários do hospital, que inclui um número aparentemente inesgotável de enfermeiras sinistras e é comandado pelo Dr. Volmer, interpretado por um Jason Isaacs que aproveita ao máximo a oportunidade de dar vida a um antagonista repleto de sutilezas e segredos.

Complementando o trio de personagens centrais, a doce Hannah (Mia Goth) é o contraponto perfeito à ansiedade de Lockhart. Hannah nasceu e cresceu sem jamais colocar os pés fora do instituto e, mesmo construída como uma criatura inocente e frágil, demonstra uma força interior surpreendente e que se torna mais forte à medida que ela também passa a fazer descobertas em relação ao sanatório e a Volmer.

Mas a trama não é exatamente surpreendente ¿ e nem planeja ser. Sim, há elementos inesperados, mas a própria direção de Verbinski acrescenta um toque incômodo aos copos de água praticamente onipresentes no sanatório e, é claro, à misteriosa vitamina tomada tanto pelos pacientes quanto pelos médicos. O cineasta prefere investir no já mencionado clima constante de tensão e, também, na ciclicidade dos acontecimentos, imprimindo ritmo a uma produção que jamais perde o fôlego ao longo de suas quase duas horas e meia de duração.

E por falar em água, ela é, sem dúvidas, o principal elemento da obra, surgindo como símbolo da cura oferecida pelo instituto e, através da presença das enguias, também da crueldade e loucura do lugar. Além disso, ao lado de lentes e espelhos, a água é utilizada com frequência para construir planos em que os personagens surgem distorcidos, refletindo a confusão e a insegurança de seus estados psicológicos.

Assim, o terceiro ato ganha toques deliciosamente góticos, comprovando a ambição e a criatividade de Verbinski e encerrando A Cura de maneira forte e marcante. Para tanto, é fundamental destacar também o fabuloso design de produção de Eve Stewart, que transforma o deslumbrante cenário e uma construção imponente em um lugar opressor. O instituto, espaçoso, rodeado por natureza e com uma vista belíssima para os Alpes, é um lugar interminável com potencial para revelar horrores por trás de cada porta ou esquina, onde uma sauna revela-se um inferno inescapável e uma visita ao dentista vira um pesadelo.

Orgulhosamente ambicioso e pouco sutil, A Cura acerta em cheio em sua conclusão cínica e estabelece-se como uma produção insana, marcante e energética. Gore Verbinski pode circular por qualquer gênero, mas é ótimo tê-lo de volta no comando de um terror psicológico.

[O parágrafo a seguir contém spoilers] Afinal, há definitivamente algo de errado com os seres humanos, concluí Verbinski ao mostrar os chefes de Lockhart insistindo para que ele retorne ao sanatório em chamas para trazer Pembroke de volta à empresa. Como declara o motorista Enrico (Ivo Nandi), os pacientes são ¿pessoas ricas, com problemas de ricos¿, e é mais fácil aceitar que um tratamento milagroso vai curá-los da misteriosa doença que acomete todos eles do que encarar a realidade e lidar com seus próprios problemas. De uma forma ou de outra, Lockhart encontrou sua cura.


¿A Cure for Wellness¿ (EUA/Ale, 2016), escrito por Justin Haythe, dirigido por Gore Verbinski, com Dane DeHaan, Mia Goth, Jason Isaacs, Ivo Nandi, Adrian Schiller, Celia Imrie, Harry Groener e Craig Wroe.


Trailer – A Cura

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