A Cidade do Futuro | Uma história de amor em um Brasil esquecido

A Cidade do Futuro Filme

Que trabalho lindo de direção este de A Cidade do Futuro. Ele guia seus atores não-atores para realizarem seus símbolos. Ele conta uma história sem precisar das falas. Em suma, ele não precisa do elenco para narrar, mas os utiliza como potência e movimento.

Mas o movimento é meramente teórico. Não há atuações de fato, e o significado que extraímos de seus personagens ou é devido ao efeito Kuleshov, o teórico russo que há 100 anos descobre que a ordem na montagem das cenas muda o que sentimos por ela, ou é devido aos enquadramentos significativos da dupla de diretores, que não têm vergonha de soar tão basal em colocar um homem se ajoelhando em frente a uma mulher grávida e aceitando seu destino. Antes disso o mesmo homem rodeia a mulher em sua moto de maneira ameaçadora. Quer dizer, nós, espectadores, acreditamos ser ameaçador pela história que acompanhamos, de um triângulo amoroso entre pessoas que se amam mutuamente.

No começo do filme as dicas já são dadas. Ela, Milla, é uma professora de arte, e faz questão de deixar isso bem claro usando a mesma camiseta icônica com as máscaras do teatro grego. O pai da criança que vai nascer, Gilmar, é professor na mesma escola. São os mais jovens de lá, uma cidadezinha perdida na Bahia a 20 kms do Rio São Francisco. Ela foi construída pelo governo na geração passada para o projeto de transposição do rio, uma entre outras obras faraônicas da ditadura militar no Brasil. Os mais antigos lembram, mas esses jovens foram criados sem pais (apenas com mães), sem raízes e sem história em uma terra que ninguém quer.

Falar em História e Arte em um local icônico como esse exigiu duas corajosas decisões dos produtores: usar moradores da região para o elenco e adotar ao mesmo tempo uma postura teatral para o cinema. O resultado são momentos artificiais que emulam o significado daquelas pessoas inseridas naquela comunidade, em que os personagens parecem dispostos para ser pintado um quadro, como dois jovens se abraçando dentro de uma caverna enquanto um declara seu desejo de se casar ao outro. Esta é uma história simples, mas a forma com que é narrada nos traz cores curiosas de um folclore sendo descoberto “in loco”, assim como as cores do fotógrafo do filme, Gabriel Martins, exibe uma diversidade de sentimentos que oscilam entre o pastel e o azulado, mas sempre empoeirados.

Empoeirados ou empoderados? O maior risco do filme da dupla de diretores Cláudio Marques (que assina o roteiro) e Marília Hughes é soar excessivamente dramático para o espectador. O clichê do amor proibido se multiplica em contornos mais perigosos se considerarmos que esta é uma comunidade no interior, tradicional, e que eles são professores, que há um casal gay envolvido e que, talvez o pior atualmente, os seus relacionamentos são líquidos, podendo durar de uma noite até a vida inteira, com uma ou mais pessoas.

A Cidade do Futuro Crítica

Pensando ainda na ameaça constante e oculta de ser punido por fazer algo “errado” na sociedade é mais um fator que enriquece a narrativa, além de fazer pensar. Note como o namorado do pai da criança, Ígor, vaqueiro e jovem demais, precisa agora sempre olhar quem o está seguindo quando caminha sozinho à noite. Suas tentativas de viver uma vida normal estão condenadas para sempre neste lugar para onde sua família foi jogada. Sua mãe não o aceita mais e já o avisava dos perigos desse romance não-convencional. Ao quebrar a tradição por necessidades fisiológicas, o longa, que tenta unir o evento histórico da cidadezinha com a mudança espontânea da sociedade, demonstra como é importante para uma comunidade se manter unida em torno de sua terra e seguir suas tradições; do contrário ela se dilacera em pelo menos duas: jovens de mente aberta e velhos retrógrados porque assim os foi ensinado (mas que eles mesmos não passaram adiante).

Ao observar que o único suporte que permanece nessa família construída ao acaso são de apenas seus membros nos faz pensar em como existem grupos de valores tão díspares habitando as mesmas ruas, o que não pode nunca ser saudável a longo prazo. É uma das marcas sangrentas da democracia obrigar que pessoas que seriam banidas de sua comunidade continuarem convivendo nesse caldeirão de ódio.

A Cidade do Futuro tenta montar seu palco com base na defesa da tolerância, diversidade e amor, mas se esquece que esses são hinos vazios para quem nunca foi ensinado a respeitar o próximo. Se trata de um filme incompleto, com mensagens díspares, mas muito realista, mesmo usando seus tons teatrais demais. A música escolhida para o tema, “Jeito Carinhoso”, está longe de ser política. Ela fala sobre o amor e afeto, assim como a história do filme. E com isso deixa claro que o filme não tem a menor noção do que quer falar, apesar de o fazer muito bem.


“A Cidade do Futuro” (Bra, 2016), escrito por Cláudio Marques, dirigido por Cláudio Marques e Marília Hughes Guerreiro, com Gilmar Araujo, Igor Santos, Milla Suzart.


Trailer – A Cidade do Futuro

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