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A Chance de Fahim | Falta o xeque-mate


Eu jogava xadrez frequentemente na minha adolescência, voltei a jogar quase todos os dias há mais de um ano e recomendo que você comece hoje. É fácil depois que se aprendem as regras básicas. E, dado o devido tempo, as táticas e estratégias viram apenas o pano de fundo de uma auto-análise profunda sobre a vida e como encaramos nosso dia-a-dia. Nem todos podem lutar boxe e aprender alguma coisa com isso, mas todos, independente do seu nível de inteligência, podem encontrar no xadrez um espelho de sua alma.

Filmes sobre este esporte (está nas Olimpíadas, inclusive) costumam ser fascinantes porque o que está em jogo não são peças em um tabuleiro, mas personalidades e vidas. Entre os exemplos mais vitais estão dois filmes dos anos 90, Lances Inocentes (de Steven Zaillian) e “Fresh” (de Boaz Yakin). Enquanto o primeiro nos apresenta essa metamorfose na personalidade necessária para dominar o nosso eu psicológico, o segundo vai pras ruas e demonstra o que acabei de afirmar sobre a universalidade do xadrez, mesmo que você seja um garoto vivendo sob a asa de gangues em Nova Iorque.

O roteirista de A Chance de Fahim, Pierre-François Martin-Laval, com certeza assistiu esses dois filmes e aplicou alguns de seus elementos em sua história, mas infelizmente, sem nunca conseguir mesclar o jogo com a vida real.

Xadrez é praticamente tudo que o instrutor de Fahim lhe diz durante sua jornada, mas não é praticamente nada do que vemos no filme, que usa o contexto do tabuleiro para referenciar grandes mestres (campeões mundiais) e nomes de aberturas famosas (lances iniciais de uma partida), enquanto a história de Fahim e sua família segue em paralelo, sem conexão.

A Chance de Fahim chega como um drama preguiçoso em que a notícia de jornal acaba sendo mais empolgante do que um filme inteiro. Fahim Mohammad, um garoto de Bangladesh, chega com sua família em Paris foragido de sua terra natal e suas habilidades em jogar xadrez o ajudam a se estabelecer no novo país.

A versão cinematográfica diminui seus personagens para que eles se encaixem no único interesse do diretor e roteirista Pierre-François Martin-Laval: uma mensagem social sobre refugiados.

O formato deste filme é frustrante para fãs do jogo do cavalo porque ele nos entrega tanta previsibilidade que se torna uma análise post mortem de uma partida que já sabemos o resultado. Para acrescentar um pouco de reviravolta o roteiro omite os acontecimentos que levaram Fahim e seu pai a fugir do país, mas quando descobrimos é como se isso não importasse mais.

Soma-se a isso todos os momentos em que Fahim dramaticamente se atrasa e todas as coincidências que convergem para uma partida crucial que decidirá algo que o filme com ambivalência deseja e não deseja contar, ignorando que já sabemos tanto o que será decidido quanto qual será o desfecho.

Os percalços linguísticos do pai de Fahim ocupam tanto tempo de tela e fazem tão pouco para enriquecer a trama que o personagem vai desaparecendo aos poucos. Desde o começo sem qualquer ideia do que fará em uma terra onde mal sabe dizer frases básicas de convívio social, o papel de Nura na história é ser um personagem inacreditável, pois enquanto consegue as conexões necessárias para fugir do país com o filho é incapaz de buscar ajuda a partir daí, transformando sua família em estatística, como mais vítimas da crise de refugiados políticos.

Enquanto isso, entre as pautas mais irritantes na cartilha social vigente, o “feminismo de check-list” é o mais odiável. Ele não entrega nada para o público feminino além de condescendência, e distorce a realidade de uma maneira nunca antes vista.

Tome por exemplo o papel de Sarah Touffic Othman-Schmitt como Luna, a segunda melhor enxadrista do clube de xadrez de Gérard Depardieu, atrás apenas de Fahim. Esta é uma personagem da vida real que nunca existiu (a equipe original do clube de xadrez não tinha uma garota) e é notório não apenas que ainda é minoria as jogadoras no meio enxadrístico, mas também a posição no ranking sempre as coloque em desvantagem em relação aos homens. Mais proveitoso seria se o filme, no meio de suas inúmeras referências aos grandes mestres, citasse Judit Polgár no lugar de Gary Kasparov. Polgar figura entre as melhores jogadoras do mundo, independente de gênero. E, diga-se de passagem, tão ou mais agressiva quanto Kasparov.

Já entre as convenções mais irritantes nos filmes comerciais, a cereja do bolo é enfiar algum relacionamento amoroso porque Hollywood entende que isso abre espaço para o público feminino. E por isso os personagens de Depardieu e Isabelle Nanty (você irá lembrar dela em Amélie Poulain) sofrem dos sintomas dessa doença cinematográfica que precisa aproximar todo casal que trabalhe junto. Uma relação completamente gratuita para a história, diga-se de passagem.

Gérard Depardieu está envolvido em todo filme em que um urso gordo e raivoso é permitido atuar, mas isso não o torna o melhor ator para o papel. Aqui ele apenas repete trejeitos, como socar a parede ao ensinar seus alunos. E sua face melancólica é vazia, como se ele estivesse pensando em qual será seu próximo ursídeo papel.

Além disso, este é mais um filme envolvendo xadrez ou outro tipo de luta em que o treinador possui um trauma em que poderia ter sido o campeão. No que voltamos às inspirações de Pierre-François Martin-Laval, com Lances Inocentes, onde a atuação invisível de Ben Kingsley já imortaliza seu personagem para esta e as próximas gerações como o treinador acadêmico/frustrado Bruce Pandolfini. Gérard é uma mera sombra socando as paredes frente ao trabalho de Kingsley.

Por outro lado, a energia de Assad Ahmed mantém a única coisa em foco no filme que vale a pena acompanhar. Seu Fahim é, diferente de todos no set, exceto o elenco-mirim, um personagem focado. Econômico, Ahmed demonstra a personalidade de Fahim apenas nos momentos onde ela poderá ser percebida pelo espectador, quando por exemplo ao sugerir que seu treinador se veste mal, dizendo de uma forma brincalhona e assertiva ao mesmo tempo. Sua postura física nos campeonatos que participa é de um auto-controle ímpar, pois ele está de fato fazendo mímica com o Fahim original, mas ao mesmo tempo acrescentando sua dose de empoderamento nos tabuleiros.

É Fahim levantando a mão após o final da partida para o árbitro recolher as anotações, mas a energia de Ahmed que sabe como esta mão deve ser levantada.

Esta é mais uma história que dá uma cara aos seus vilões para justificar os seus heróis, mas você não irá se lembrar quem são porque eles de fato não importam. O mal como o conhecemos no século 21 não possui caras, mas ainda há os que fazem filmes como se estivéssemos nos mais lúdicos e simples anos 90.

O público sairá da sala de cinema emocionado pelos motivos errados e perderá mais uma vez a chance de entender o drama por trás de uma partida de tabuleiro. Por isso volto a fazer a recomendação do início do texto: jogue xadrez. E comece hoje. Daqui um ano estará analisando melhor a si mesmo e aos filmes que assiste.


“Fahim” (Fra, 2019); escrito e dirigido por Pierre-François Martin-Laval; com Gérard Depardieu, Isabelle Nanty e Assad Ahmed.


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