A Caixa

The Box (EUA, 2009) escrito e dirigido por Richard Kelly, a partir do conto “Button, Button” de Richard Matheson, com Cameron Diaz, James Marsden e Frank Langella

 por Vinicius Carlos Vieira

É interessante tentar entender como o cineasta americano, Richard Kelly, saiu de promessa cult a desastre natural em menos de uma década (e com apenas três filmes), uma derrocada tão violenta que faria John Bogdanovich e M. Night Shyamalan morrerem de inveja.

Primeiro de tudo, em 2001, Kelly surpreendeu o cinema com “Donnie Darko”, uma mistura de ficção científica, viagem no tempo, metafísica e um coelho gigante, e era óbvio que ali parecia estar nascendo um fenômeno do cinema, com um controle narrativo surpreendente, um visual de cair o queixo e uma vontade imensa de fazer algo diferente. Seu próximo passo, “Southland Tales”, demorou uma eternidade para sair do papel (cinco anos) e resultou em uma besteira sem sentido. O que nos trás a seu recente “A Caixa”, terceiro filme e que, muito provavelmente, mostrará para que lado ele será encarado. Infelizmente.

Para quem é um pouco mais velho e conheceu a famosa série de TV “Além da Imaginação” (“The Twlight Zone”) vai logo reconhecer o episódio escrito pelo Best Seller Richard Matheson (o mesmo que escreveu o livro de deu origem a “Eu Sou a Lenda”), sobre um casal (Cameron Diaz e James Marsden) que recebe uma misteriosa caixa com um botão vermelho e uma promessa de enriquecer. Para isso a única coisa que devem fazer é apertar o tal botão, e nesse caso, como lhes é contado pela estranha figura do Sr. Steward (Frank Langella), uma pessoa que eles não conhecem irá morrer.

Tanto o conto, que foi publicado na Playboy em 1970, quanto à adaptação para a TV, de 1986, acabam no momento que o Sr. Steward volta para pegar a caixa, e por mais que Kelly mostre um respeito imenso com a obra, começa ai a derrapar. Ainda que resgatando o mesmo pessimismo de seus antecessores, essa produção recente parte da curiosidade de saber o que aconteceu depois que o botão foi apertado, o que funcionaria para criar uma história linear, mas perde todo peso do final surpresa, e muito da graça, que é o que move tanto o conto quanto o episódio (que compartilham de finais diferentes, mas ainda assim colocam uma pá de cal em qualquer esperança da história).

Na verdade, Kelly consegue colocar/citar os dois finais dentro de seu roteiro, mostrando mais ainda sua tremenda admiração pelo material, mas é todo miolo de seu filme que não consegue se manter em pé. E é mais engraçado perceber, quando colocados lado a lado, que é justamente o que não existe nas duas obras de Matheson (conto e TV) que não funciona no filme. Colocando toda culpa em Kelly.

Prepotente e presunçoso, Kelly cria uma trama muito maior que consegue carregar, que, mesmo costurando-a bem, acaba perdido em um mar de referências e sem a mínima idéia de como fazê-las ter sentido no final das contas. Ao tirar o mistério de Matheson, acaba sendo obrigado a dar explicações demais para algo que funcionava muito mais por não ter explicação. Marte, vida extraterrestre, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, a danação eterna, a NASA, um pouco de “2001”, uma pitada de “Invasores de Corpos” e, lá no fundo a coitada da caixa (que acaba, pior ainda, ganhando uma explicação filosoficamente furada e risível).

A grande pena de toda essa besteira narrativa é ver o talento estético de Kelly ser mais uma vez desperdiçado, assim como em seu filme anterior. Mesmo que em contrapartida peque em um visual meio digital e plástico demais, Kelly acaba sempre apontando bem sua câmera para a ação, ainda que em certos momentos se perca em um zoom lento que habita a grande maioria de seus planos, que, se por um lado cria um visual datado e até interessante, acaba tendo pouca força depois da metade do filme, já que se repete demais.

No final das contas, “A Caixa” funciona como um pesadelo, incoerente e cheio de situações que te fariam acordar suando, mas que, ao juntá-las na manhã seguinte, acabam fazendo pouco sentido.