A Assistente | Um grito suprimido


O novo filme de Kitty Green e estreia da Amazon Studios, A Assistente, parece estar falando de uma figura óbvia, tanto à Hollywood, quanto aos noticiários policiais dos últimos anos. Mas infelizmente esse contido e significativo filme não está só falando só de Harvey Weinstein, mas também de um número incontável de predadores sexuais em salas enormes e poderes ilimitados.

Green apontou que realmente sua pesquisa começou com o ex-presidente da Miramax, mas aos poucos foi expandindo os relatos, tanto dentro da indústria do cinema, quanto para perto de qualquer tipo de grande empresa. A Assistente é sobre todas elas, até mais do que isso, o filme é também sobre essa violência que todo mundo vê, mas continua invisível.

A Assistente acompanha um dia inteiro de trabalho de Jane (Julia Garner), recém-chegada a essa enorme produtora de cinema comandada por uma figura que não aparece no filme e só é referido durante todo tempo como “ele” ou “o chefe”. Jane é um dos assistentes diretos dele, chega antes de todo mundo e só vai embora depois que todos se foram, mas sistematicamente precisa lidar com o assédio moral e ainda tentar entender o que deve fazer diante de uma óbvia série de assédios sexuais que estão acontecendo.

Como é de se esperar, Jane está sozinha, ao seu redor todos parecem ter consciência do problema e são pequenas vítimas dessa violência, direta ou indiretamente, mas precisam daquilo para manterem seus empregos, objetivos e sonhos. A Assistente é sobre esse dia inteiro onde Jane precisa, não só lidar com isso, como também entender que caminho deve tomar.

O filme de Green não tenta ser um escândalo ou uma espalhafatosa verdade esfregada na cara de seu público, mas sim vai pelo caminho contrário, espreme sua personagem em um misto de medo, insegurança, culpa e vontade de alcançar seu desejo de se tornar uma produtora de cinema. O julgamento está lá, claro e violento, mas é preciso seguir com Jane até esse lugar doloroso onde nem sempre a verdade é a salvação. Principalmente em um mundo onde essa verdade pode não ser considerada real caso ela venha à tona.

Green entende o silêncio, acompanha Jane nesse dia que não parece acabar, mas que não esconde ser apenas mais um, igual a diversos outros. A violência estrutural dessa indústria praticamente não é exceção, é quase uma regra, e se acostumar a ela é agonizante. Jane aos poucos vai fazendo isso e Green acompanha essa transformação, acompanha ela de perto, enxerga em seu olhar esse desespero. A cena final, sentada em uma lanchonete observando a porta da produtora é tão pesada que é possível sentir seus ombros arcadas para baixo enquanto ela caminha em direção à casa, deixando para trás tudo aquilo. Pelo menos até o dia seguinte.

A diretora não inventa um grande esquema visual, está apenas interessada na verdade de seus planos e na atuação incrível de Julia Garner. Sua câmera é objetiva e firme, enquanto Garner é visceral, mesmo sem precisar de nada a não ser o olhar poderoso e uma linguagem corporal eficiente. A atriz faz você sentir o que a personagem está sentindo, mas o faz sem a necessidade de palavras. Um trabalho sutil, seguro e detalhado, sem absolutamente nada fora do lugar ou exagerado.

E isso talvez seja o mais precioso de A Assistente, essa vontade de ser contido, de mostrar essa realidade violento ao mesmo tempo que sufoca o espectador. Jane parece ficar o filme inteiro com vontade de gritar, colocar para fora essa dor. Seu espectador faz o mesmo. No final, nada disso acontece. O grito fica preso à garganta, tanto dela, quanto da diretora, quanto do espectador e de todos que sofreram esse tipo de violência e foram calados por uma estrutura esmagadora.

Wenstein é a clara inspiração para o filme, seu julgamento é um alívio, mas não um respiro. É preciso pegar fôlego e mergulhar novamente, quem sabe ver essas figuras sem rosto que controlam tanto a indústria do cinema, como um monte de outras, comecem a ganhar rostos, nomes e penas na cadeia. A Assistente pode não gritar, mas ajuda a expor um pouco disso.


“The Assistant” (EUA, 2019); escrito e dirigido por Kitty Green; com Julia Garner, Jon Orsini, Rort Kulz, Noah Robbins, Alexander Chaplin, Bregje Heinen e Kristine Froseth