A Árvore da Vida | Crítica do Filme | CinemAqui

A Árvore da Vida | Passeia pelo significado de existir


Poucos cineastas em Hollywood conseguem o respeito que tem Terence Malick mesmo dentro dessa indústria pasteurizada por bilheterias ao mesmo tempo em que, justamente, foge totalmente de qualquer estigma, a não ser o de ser ele mesmo. Malick é sinônimo de lentidão, cuidado e paixão, de demorar uma média de meia década (ou bem mais!) entre um filme e outro e, nunca (mas nunca mesmo!), esquecer que, no final das contas, o que importa é dar ao cinema comercial a oportunidade de ser arte.

Malick dialoga com o dito “cinema de arte” com propriedade e coragem para, depois de duas décadas parado, desconstruir a segunda guerra com seu extraordinário Além da Linha Vermelha e colocar os pontos nos “Is” da história da índia Pocahontas no épico Novo Mundo (que, infelizmente foi mal recebido, mesmo sendo uma obra igualmente impecável). Mas esse segundo momento da carreira do diretor (que antes disso tinha feito dois filmes na década de 70, Terra de Ninguém e Cinzas no Paraíso) só culmina agora, com seu A Árvore da Vida, um drama existencialista que pula qualquer subterfúgio e vai direto ao ponto que muitos tentam, mas pouquíssimos conseguem: contar a história (parafraseando Douglas Adams) da “vida, do universo e tudo mais”.

Para isso (como se parecesse uma tarefa simples, já que o resultado é extraordinário) Malick passa pela história dessa família americana dos anos 50, com o pai opressor (vivido, belissimamente, por um Brad Pitt mais que nunca seguro de si e pronto para ser explorado por essa câmera), que carrega o peso da responsabilidade e da educação dos três filhos, que vêem na mãe (Jéssica Chastain) o porto-seguro da afeição que necessitam.

Ao mesmo tempo, Malick dialoga com o futuro de um desses garotos (Sean Penn, sólido e firme em um papel que poderia facilmente ser desperdiçado, mas que encontra o peso ideal), perdido nesse emaranhado de edifícios, espremido ainda por essa criação e o trauma da morte do irmão.

A partir desses dois pontos, A Árvore da Vida então convida seu espectador a passear pelo significado de existir, e se não encontra a resposta é por que tem a clara certeza que é função de cada um chegar as suas próprias conclusões. Corajosamente, Malick vai do Big Bang ao final de todas as coisas e cria essa experiência sensorial, profunda, tremendamente visual e que não deixará ninguém sair do cinema neutro. E não só em termos de gostar ou não do filme.

É lógico que muita gente, diante da carga dramática que Malick impõe em A Árvore da Vida, sairá da sessão insatisfeita, ainda que essas pessoas acabem perdendo a oportunidade de ter uma experiência cinematográfica inesquecível apenas por não conseguirem relaxar diante de uma obra tão abrangente, e não terem paciência de entrarem no ritmo do filme, que é lento para se dar tempo de ser apreciado e deglutido (já que, como é característico do cineasta, seria impossível esperar por algo mastigado e sem personalidade).

Mas não é essa neutralidade que mais extrapola ao filme, pelo contrário, é aquela que faz cada um dentro da sala de cinema pensar no que acabou de ver, talvez tendo a certeza de que há um longo caminho entre a fúria da natureza, que permite que a vida desse seus primeiros passos e esse ser-humano, muito provavelmente atônito por não mais precisar lutar para sobreviver.

A Árvore da Vida | Crítica do Filme

Malick não economiza nesses momentos, e enquanto o personagem de Sean Penn se perde no meio de uma multidão olhando para o céu, recortado pelo alto dos arranha-céus, volta ao início de tudo onde um dinossauro caminha pelo meio da floresta, na igual tentativa de entender qual será seu próximo passo. O espectador ficará de frente com a morte de uma espécie saída da água, mas terá a certeza que tudo se renova com o nascimento do primogênito da família de Pitt e entenderá que a tristeza do fim é sobrepujada pela alegria nos olhos do pai ao ver o filho.

Mas talvez o que mais impressione em A Árvore da Vida seja essa coragem de Malick de se despir diante de seu filme, de clamar por um Deus que ele custa a acreditar, e colocar em voga, de modo cru e contundente por que “Ele manda moscas na ferida que devia curar”. Mais importante que isso, através dessa poesia visual, não parece fazê-lo a fim de colocar nada em prova, mas sim para desafiar seu espectador a tentar buscar com ele respostas. E se Malick tem certeza do que pensa, dá então a oportunidade de seu público olhar um dos lados dessa equação.

E falar em equação, e qualquer tipo de pragmatismo, talvez seja um verdadeiro pecado, já que A Árvore da Vida não se envergonha de existir, justamente, para que nada seja uma certeza, ainda que sob o olhar da técnica do diretor o filme acabe sendo uma experiência impecável em cada enquadramento e movimento de câmera. Sem esconder essa procura pelo belo, que não se importa de observar o incrível desenho dos pássaros no céu acompanhado pelo trabalho, sempre competente e inspirado de Alexander Desplat (Discurso do Rei, O Escritor Fantasma e os dois últimos filmas da saga de Harry Potter) que dá ao filme uma trilha sonora inesquecível que faz com que tudo se torne mais clássico ainda.

Essa paixão de Malick por suas imagens dá ainda ao seu elenco a oportunidade de ser ultrapassado em suas simples existências de frente daquelas lentes. Em trabalhos magníficos, cada um, tanto as crianças quanto os adultos, servem para que o diretor vá em busca de algo a mais por trás daqueles olhares, como se tivesse a certeza de que nada acaba ali e cada olhar pode conter histórias enormes e que não são desperdiçadas.

Mas sobre tudo isso, não existe dúvidas, Malick e seu A Árvore da Vida clamam por um Deus, mas só obtém a resposta da natureza em sua fúria, bela e que sempre resulta na criação, já que, talvez, como um dos personagens pergunta diante dessa explosão de energia e vida, “se Deus veio, veio disfarçado do que?”, talvez dentro de cada um ou cada significado, mas isso é algo que Malick, de modo altruísta, dá de presente para seu público tomar para si e encontrar as resposta, se não agora, pelo menos enquanto aquela vela ainda estiver acesa, já que, como ela “ao menos que você ame, a vida passa como um flash”.


The Tree of Life (EUA, 2011), escrito e dirigido por Terence Malick, com Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Laramie Epples e Tye Sheridan