A Arca do Sr. Chow | Crítica do Filme | CinemAqui

A Arca do Sr. Chow | Sobre outros heróis


Na pior das hipóteses A Arca do Sr. Chow é divertido, mas na melhor delas, ele é fascinante. Fascinante pensar em tudo o que aconteceu, ou o que foi imaginado, naqueles loucos anos 90 em uma universidade em uma China ainda duramente estratificada em classes e funções da sociedade. Já em seu título denuncia esse ódio pelo diferente, pelo fora do comum, entendido como uma afronta.

Um professor, o Sr. Chow do título, reúne uma equipe de improváveis alunos encontrados nos lugares menos acadêmicos possíveis, desde bares de apostas a fazendas de agricultores. O que eles têm em comum? Uma inteligência fora do comum. Como isso é medido? Através do QI, ou Quociente de Inteligência, uma série de exercícios lógicos que avaliam a capacidade cognitiva de uma pessoa e cospe um número. Uma forma objetiva de saber quem é o mais inteligente de um dado grupo.

Mas este não é um método antiquado, até para a década onde se passa a história? Não, e nunca foi. Os exercícios de um teste de QI são frequentemente atualizados, assim como se tornam ultrapassadas suas versões antigas. O que nunca muda é seu resultado objetivo: um número. Quem tem o maior é melhor.

A maior crítica reza que não se avaliam os diferentes tipos de inteligência, citando outras habilidades como inteligência espacial, criativa etc. E isso talvez acaba “destribuindo” demais essa inteligência por aí.

A Arca do Sr. Chow torna tudo isso explícito e gritante quando coloca esse grupo de superdotados no circo que é uma universidade. Todos os outros alunos assediam moralmente os recém-chegados por serem muito inteligentes.

Mas o filme não quer ser impopular, e por isso segue uma direção e roteiro convencionais, apesar de estupidamente divertidos. Nunca vi material recente tão subersivo enquanto clichê. Nós nos divertimos com Fung, o garoto de 11 anos que mal chegou na puberdade, mas já tem planos para explorar o espaço. Nós nos encantamos com Dafa e seu esoterismo que encontra as respostas exatas da matemática por meios misteriosos. Nós nos compadecemos da discrição de Lan, cujos sentimentos entendemos e é talvez a que mais nos identificamos, pois ela é incompreendida por ambos os grupos, gênios e não-gênios.

Este filme de fundo bibliográfico dirigido por Yang Xiao é ágil e dinâmico. Realiza infinitas transições de um amontoado de eventos que é difícil de lembrar, pois são muitos, e são caóticos, por mais que o roteiro tente amarrar em símbolos e momentos de farofada com música solene. Entretanto, ele é autêntico, pois a única forma de nos conquistar a simpatia é querer ir além do desafio de matemática que um dia foi o motivo dessa empreitada.

E ele é bem produzido, fotografado e enquadrado, como uma arte exótica: referenciar heróis que nunca se tornaram heróis em uma narrativa que não se pode confiar.


“Shao Nian Ban” (Chi, 2015), escrito por Xiao Yang e Ji Zhang, dirigido por Yang Xiao, com Honglei Sun, Dongyu Zhou e Zijian Dong.


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