72 Horas

72 Horas

Talvez seja um pouco pragmático visto dessa forma, mas existem dois tipos de refilmagens em Hollywood: aquelas que apreciam o material original e procuram apenas transpô-lo para uma realidade americana, e aquelas que não conseguem ter a sensibilidade para isso e acabam dando com a cara na porta. Infelizmente, 72 Horas está muito mais para o segundo tipo.

Bem verdade, por que talvez nem o original francês Tudo por Ela seja lá uma produção tão inesquecível assim ou simplesmente por, muito mais provável, não ter conseguido nem ao menos enxergar nele o que mais o fazia funcionar e se destacar mesmo tremendamente mediado. Tanto nele, quanto nesse novo, de Paul Haggis (mesmo de Crash – No Limite), a história gira em torno de um homem que vê sua mulher ser presa acusada de assassinato e, depois de tentar tirá-la da cadeia pelos métodos ortodoxos, acaba então tomando um rumo menos dentro da lei. A diferença dos dois é que fica difícil acreditar na versão yankee, e isso é o fracasso do filme.

A começar por um erro de escalação de elenco enorme, onde no lugar do marido fragilizado e apaixonado, que acaba tendo que tirar forças sabe-se lá de onde para passar por tudo aquilo, Haggis optou por um Russel Crowe que até se esforça, mas não consegue fugir de uma espécie de sombra heroica que persegue sua persona cinematográfica. Pior ainda, Haggis não percebe isso e em certos momentos, se deixa, ainda por cima, levar por um thriller corrido e sem sentido. Como se optasse por deixar de lado o suspense do francês e caísse quase em um filme de ação, com montagens paralelas, perseguições, carros rodando e tiros, tudo sem preparação do roteiro, que de uma hora para outra resolve, simplesmente, dar um ânimo anormal para seu filme.

72 Horas

A maior prova desse equívoco é o quanto em nenhum momento do filme o espectador se sentirá empolgado ou torcendo por nenhum dos protagonistas, já que a partir de um momento todos vão se pegar simplesmente aflitos pelo fugitivo e não pelo personagem, por aquele instinto humano de sempre olhar caridosamente para a vítima, independente da situação. Como se o roteiro de Haggis não parecesse preocupado em ver a personagem principal (vivida por uma Elizabeth Banks, que pouco faz) como inocente, pior, em certo momento prefere obrigar o espectador a engolir isso somente pelo amor do marido, apenas para guardar a verdade para o final em um deslize estrutural imenso, já que só faz com que tudo se torne mais ainda esticado e chato (além de sonolento).

Enquanto o original contava sua história em 90 minutos, Haggis resolve estender tudo por mais meia hora, porém sem contar absolutamente nada de diferente, nem desenvolver nenhuma sub-trama que acrescente algo à principal. Como se só se mostrasse a fim de dar ao seu personagem a oportunidade de aprender um monte de contravenções pela internet, receber conselhos de um falsificador de documentos surdo, ser perseguido por um policial por ter sido visto vomitando, flertar sem muito sentido com mãe de uma coleguinha de seu filho e sendo idiota o suficiente para não saber onde se coloca as balas dentro de uma arma.

Ao mesmo tempo em que perde a chance de desenvolver bem mais a relação do protagonista com seu irmão e até dele, e do filho, com a esposa na cadeia, pontos que o francês parece olhar com muito mais carinho, talvez por ser muito mais preocupado com o drama de seus personagens do que o americano mais a fim de colocar a família para fugir da polícia. Como se não aguentasse deixar 72 Horas ser ele mesmo: um drama sobre um marido apaixonado que tem que ir até o inferno para alcançar o paraíso, tudo movido por seu amor, e não um thrillerzinho corriqueiro que não sabe à hora de acabar e vai fazer a maioria do cinema sair correndo de dentro da sala assim que as luzes se acenderem.


The Next Three Days (EUA, 2010), escrito e dirigido por Paulo Haggis (a partir do original “Tudo por Ela”) , com Russel Crowe, Elizabeth Bank, Brian Dennehy, Jonathan Tucker, Olivia Wilde e Liam Neeson