45 Anos | Indicada ao Oscar é destaque de filme sensível

45 Anos Filme

45 Anos fala de relacionamentos. De como eles são construídos a partir de mentiras e de como, mesmo décadas depois, podemos nos surpreender com a outra pessoa. De como algo sólido pode desmoronar. Uma obra pesada e marcante que ainda ganha mais vida ainda ao se Centrar em uma performance memorável de Charlotte Rampling. 

Em meio aos preparativos para seu aniversário de casamento de 45 Anos, Kate Mercer (Rampling) presencia seu marido, Geoff (Tom Courtenay), recebendo uma carta da Suíça. Nela, a notícia: o corpo de sua namorada de décadas atrás, morta em um acidente em uma montanha em 1962, foi finalmente encontrado. Kate sabia da existência de Katya, sabia de sua morte, sabia que ela e Geoff eram namorados. Mas será que ela conhece mesmo toda a verdade? O que Geoff ocultou — sobre o que ele mentiu? E qual o peso que isso tudo teve em seu próprio casamento?

Acertadamente deixando a história longe de um simples “mulher sente ciúmes de ex-paixão do marido”, o diretor e roteirista Andrew Haigh cria seu drama com toques de terror, estabelecendo Katya como um fantasma que retorna para assombrar o relacionamento de Kate e Geoff. Inteligente ao não utilizar flashbacks, o cineasta nos dá imagens de Katya apenas através do reflexo das imagens vistas pela protagonista e, assim, sua imagem se torna tão perturbadora e incômoda para nós quanto para Kate — ela não pertence aquele lugar, mas está sempre por ali.

Conduzindo a obra com segurança, Haigh constrói o ritmo da narrativa com excelência, estabelecendo a rotina do casal antes de quebrá-la. Assim, conforme a situação se torna cada vez mais complicada, o filme ganha novas nuances, e um dos momentos de destaque é quando, em meio a uma noite de fortes ventos, Kate ergue a mão em direção a uma foto que ela sabe estar logo acima enquanto a porta range e quase se fecha sozinha — elementos de terror na vida até então pacata da personagem, graças ao fantasma de Katya. Anteriormente, quando Kate deixa o recinto, aquela mesma foto se torna o único objeto em foco, dando peso à imagem.

45 Anos Crítica

Levando Kate a questionar a natureza de seu próprio casamento através de informações que descobrimos aos poucos, 45 Anos conclui com uma festa que merece ser considerada uma das melhores cenas finais do ano. Além do talento de Haigh, tudo isso é alcançado graças à performance magnífica de Charlotte Rampling, que proclama discursos inteiros apenas através de seu olhar ou de uma leve alteração em seu tom de voz ou na forma como movimenta o corpo. Em uma atuação extremamente sutil e complexa, Rampling transmite hesitação, indignação, dúvida, doçura, determinação ou raiva sem precisar recorrer a choros dramáticos, gritos ou a diálogos intencionalmente sussurados para maior efeito; ela constrói Kate com uma naturalidade que mascara a riqueza de sua composição.

O filme pertence a ela, mas Courtenay também faz um belo trabalho aqui, transmitindo bem a determinação de Geoff em não deixar os recentes acontecimentos afetarem seu casamento — e nem de que Kate corrompa suas memórias de Katya. Evitando sentimentalismos ou cinismos, Haigh constrói um retrato maduro de um longo casamento entre dois indivíduos que descobrem não ser tão íntimos quanto pensavam. E não é assim que funciona? Por mais que nos entreguemos a outra pessoa, jamais deixamos de ser indivíduos e, portanto, de carregar histórias, passados e experiências que são só nossos. 45 Anos carrega tudo isso na semana que antecede a festa do casal e, portanto, o evento se torna o ápice do que vimos até então.

Charlotte Rampling utiliza de todo o seu talento para construir uma personagem que passa por um intenso conflito, que ela retrata de forma discreta e sincera — presente em praticamente todas as listas e premiações em sua categoria, a atriz levou o importantíssimo Ouro de Prata na Berlinale de 2015. Uma produção riquíssima em sua sutileza, 45 Anos explora seus temas com maturidade e complexidade e se revela uma experiência fascinante.


“45 Years” (Reino Unido), escrito e dirigido por Andrew Haigh a partir do conto de David Constantine, com Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Geraldine James, Dolly Wells e David Sibley.


Trailer – 45 Anos

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