3 Corações

3 Corações

Marc conheceu Sylvie por este ter perdido o trem e ela por ter ido comprar um cigarro. Marc perdeu a hora em seu segundo e último encontro. Marc então conhece Sophie coincidentemente no lugar onde3 Corações Poster trabalha, no interior da França. O fato de Sophie e Sylvie serem irmãs e melhores amigas é o único fato que torna toda a trama de 3 Corações uma longa e fatalista sequência que persegue os personagens por anos de suas vidas.

A direção de Benoît Jacquot, que co-escreve o roteiro com Julien Boivent, é intrusiva, com movimentos de câmera nada sutis e que parecem as mudanças de quadro de Wes Anderson, só que com um tom caótico. Menos sutil ainda é a trilha sonora absolutamente arrebatadora de Bruno Coulais, que funciona de diferentes maneiras durante o filme. Tão econômica quanto genérica, o suspense e a tensão do longa são criados já nos créditos iniciais com uma nota grave típica, repetida com uma regularidade perturbadora, pois bastam algumas notas para começarmos a antecipá-las em nossa mente. Já as duas ou três notas leves que iniciam a partir da conexão que é feita entre Marc e Sylvie é o final feliz que esperamos, mas que não necessariamente está lá (assim como momentos onde a música nos deixa apenas na tensão).

A história não é complexa, assim como os personagens, que alheios a tudo isso mais parecem representantes do destino algoz que a tudo e a todos leva sem perdão. Charlotte Gainsbourg como Sylvie já não é mais uma atriz, é um conceito. A francesa atraente por ser charmosa e livre. Ela usa a mesma camisa o filme inteiro. Não liga muito para convenções sociais como casamento ou monogamia. Porém, sua irmã – interpretada pela atriz Chiara Mastroianni, filha de Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve (essa última faz o papel de sua mãe no filme) – é a peça mais valiosa do acervo de antiguidades de Sylvie, e suas decisões precisam levar em conta antes a felicidade de Sophie do que dela própria. Porém, a reciprocidade da irmã é significativa, assim como tocante, por exemplo na despedida em que a irmã decide acompanhar seu namorado para um país distante. E sua fragilidade é notável nos pequenos gestos e gritante em suas inevitáveis lágrimas.

3 Corações Crítica

Já Marc é quase o destino fatalista em pessoa. Seus ataques do coração, sua falta de foco na vida (“eu sempre perco o trem”, “nem sei mais onde moro”) dá amplo espaço tanto para a imprevisibilidade quanto, ironicamente, para o inevitável. O fato de ser um auditor fiscal é sua única ponte com uma realidade onde ele tenta corrigir os erros (embora sejam de outras pessoas). Sincero sem soar grosseiro, consegue conquistar tanto a simpatia quanto a desconfiança de sua sogra em dois momentos distintos que se encaixam na mesma trama, por dizer respeito às duas irmãs.

Aliás, talvez o único personagem sutil o suficiente para conseguir se tornar um personagem de fato seja a mãe, Madame Berger (Catherine Deneuve). A sua função na história nunca é clara, mas é construída aos poucos, a cada nova refeição, até a hora da reviravolta boba. Boba e simplista. A tensão criada através do problema fiscal que atinge o prefeito nas vésperas de eleições é um artifício que soa batido antes mesmo de o vermos em cena. Madame Berger e o prefeito são os perfeitos extremos de uma história que tenta se alimentar de seus personagens sem dar nada em troca. Tira toda a espontaneidade dessas pessoas que estão fadadas a um escândalo desde o começo. Brinca com o tempo, alongando demais o reencontro de Marc e Sylvie, e quando este acontece soa em um primeiro momento insosso. Já o “verdadeiro” reecontro ocorre às escuras, e finalmente o filme dá uma nova guinada.

Infelizmente essa guinada é curta, pois não há muito mais o que espremer de tensão. A música de Bruno Coulais já está no nosso inconsciente e irá perdurar por alguns meses em nossas lembranças. Já a única cena que parece ter esse mesmo poder é a penúltima, que junta os três elementos em cena no melhor estilo tragédia grega.

3 Corações então gasta um bom tempo de reflexão a respeito da vida, e como ela pode mudar radicalmente apenas com um movimento. É assim no começo, e é assim no trágico, estático final. Por fim, uma pequena viagem no tempo tenta melhorar o clima, mas o estrago já está feito. Resta a reflexão: qual será, das infinitas possibilidades dessa vida, a opção que você tem escolhido?


“3 Cours” (Fra/Ale/Bel, 2014) escrito por Benoit Jacquot e Julien Boivent, dirigido por Benoit Jacquot, com Benoit Poelvoorde, Charlotte Gainsburg, Chiara Mastroianni e Catherine Deneuve.


Trailer – 3 Corações

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