2 Coelhos

Pode ser que o cinema brasileiro esteja mesmo com falta de algo um pouco mais pop e despretensioso (nunca de filme bons, já que, talvez, ele nunca tenha passado por uma safra tão interessante quanto hoje passa) e diante disso, 2 Coelhos se encaixa exatamente ai: como um filme de ação pop e despretensioso.

E aqui pop não deve ser encarado como algo feito para o sucesso, mas sim algo moderno, talvez até inquieto com um status quo visual, assim como despretensioso não possa ser entendido como algo pejorativo, mas apenas como uma busca por contar uma história simples, que até arranha certos valores morais e sociais, mas nunca os faz como ponto de partida para sua trama, até por que, 2 Coelhos só quer mesmo é ser bacana.

Moderno, vivo, com uma montagem picotada, cheio de inserções de animação, vídeo-games e mais um monte de referências pop, tudo em um ritmo alucinante que só quer agradar essa nova geração tão rodeado de informações e que não consegue parar um segundo sequer.

2 Coelhos então, tenta ser para o Brasil (e talvez até para o mundo) o que Corra, Lola, Corra foi para o cinema alemão, ou Jogos, Trapaças e dois Canos Fumegante foi para o cinema falado em língua inglesa: aquele tipo de filme cheio de estilo que vai dar o que falar e virar cult, fazendo ou não sucesso.

Bem verdade, Dois Coelhos não parece então se envergonhar de beber na fonte do filme britânico, tanto por sua estética, quanto por sua narrativa e ainda combinar suas referências. Aqui, Fernandes Alves Pinto é Edgar um jovem qualquer de um lugar qualquer de São Paulo, mas que diz ter um plano que irá resolver seus problemas e matar dois coelhos com uma “caixa d´agua” só. Um plano que envolve um poderoso criminoso do subúrbio, um deputado, um advogado, uma maleta cheia de dólares, uma espada, um professor universitário e um punhado de explosivo plástico.

Assim mesmo tudo meio bagunçado à primeira vista, mas que aos poucos vai se encontrando no roteiro de Afonso Poyart (também diretor) e resulta em um thriller mais que competente, bem amarrado, cheio de ritmo e com ação para ninguém botar defeito. Do mesmo modo que o Jogos, Trapaças… de Guy Ritchie, Poyart vai em busca desse imenso vai e volta de sequências e que, no final de tudo, parece mesmo fazer parte desse tal plano infalível. Como se tudo em 2 Coelhos fosse a repercussão de uma outra ação e que é usada como uma pequena surpresa narrativa à cada passo que a trama dá.

Essa vontade de costurar tudo como uma teia de aranha moderna e divertida fica mais clara ainda quando, em certo momento do filme o próprio protagonista decide organizar seu plano em um fluxograma vivo e que só deixa espaço para as reviravoltas finais, o que mostra ainda o quanto Poyart mantém essa história sob seu controle e a dispor de seu espectador, que pode então se divertir a cada momento dessa trama.

E com um roteiro que faz sentido, cheio de reviravoltas e surpresas, com uma linha narrativa simples, mas que é enriquecida por toda estrutura não linear, sobra então ao diretor preencher esse conteúdo em uma forma interessante. E é isso que ele o faz.

Vindo da publicidade, Poyart não esconda suas raízes e esbanja um estilo cheio de personalidade, que valoriza suas cenas e parece sempre em busca de algo novo. Algo que o cinema brasileiro não esteja tão acostumado a ter em termos estéticos. De modo natural, Poyart casa perfeitamente bem sua montagem inquieta com uma versatilidade enorme de ângulos e movimentos de câmera, dando a impressão, verdadeira, de que 2 Coelhos nunca está à vontade com a mesmice, como se fosse tomado por um medo de repetir aquele plano, nem que ele fique na tela por um ou três segundos (não acredito que algum plano permaneça mais que isso no filme inteiro, o que deixaria Michael Bay orgulhoso).

Atrelado a esse visual, que sempre parece em busca de algo novo, 2 Coelhos ainda é esse banho de estilo por onde passa. Seus personagens são marcantes e seus vilões (e capangas) cheios de personalidade, graças a um elenco que mistura, na medida, caras conhecidas com coadjuvantes que cabem perfeitamente dentro do personagem, seja por meio de um apelido ou pela função dentro da trama. Como Thogun, no papel de Bolinha, braço direito e “pau para toda obra” no vilão, tudo refletido em sua estatura e presença, assim como a dupla de bandidos “pés-de-chinelo” formada por Thaíde e Robson Nunes, ambos parecendo deslocados de qualquer imagem violenta e corajosa. 2 Coelhos então deve boa parte de seu acerto à escolha acertada de elenco, algo que parece sempre perseguir (no bom sentido) os bons filmes que o Brasil vem produzindo a cada ano.

Já suas sequências de ação, cheia de explosões, tiros e câmera passeando por buracos em parede a até canos de armas, pouco ficam atrás de algum “blockbuster hollywoodiano cheio de dólares para queimar”, principalmente em razão de uma montagem paralela competentíssima, do próprio diretor em parceria com André Toledo e Lucas Gonzaga, que faz com que todo esse esforço de efeitos visuais sirva para um bem maior, o de criar um ritmo no qual 2 Coelhos parece tão à vontade.

Tudo isso ainda é temperado com um humor natural e usado como válvula de escape da veracidade de seus personagens (e não como combustível), assim como sua violência que, ainda que bem presente, parece se sentir confortável o bastante para não se expor e pesar no resultado final. Um modo sutil de matar à sangue frio sem chocar ninguém, uma leveza que é acompanhada de uma crítica social velada que até pode ser lida nas entrelinhas e, não a toa, escolhe como antagonistas um advogado, um deputado, um bandido (esse que é mau, mas não extrapola sua verdadeira “especialidade” a não ser a de bandido), tudo milimetricamente combinado para que o espectador se sinta relaxado com todo clima e apenas veja esse plano de Edgar dando certo.

E talvez não só o plano de Edgar, mas também o do diretor Afonso Poyart, um plano de dar ao cinema brasileiro mais um caminho por onde seguir, já que em um leque de tantas opções, mais uma nunca é demais.


2 Coelhos (Bra, 2011) escrito por Afonso Poyarte, dirigido por Afonso Poyarte, com Alessandra Negrini, Caco Ciocler, Fernando Alves Pinto, Marat Descartes, Thogun, Thaíde, Robson Nunes, Roberto Marchese, Neco Vila Lobos e Yoram Blaschkauer.


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