Nenhum gênero musical tem mais causos e curiosidades que o Rock n´ Roll, assim como nenhum fã é mais apaixonado do que os das guitarras distorcidas. E o documentário Woodstock – Mais Que Uma Woodstock Poster Loja é exatamente sobre isso: paixão pelo Rock e amor pelas histórias.

Nele, Wladimyr Cruz (que é editor do site especializado Zona Punk ) em sua primeira empreitada como diretor, posiciona sua câmera em direção a essa famosa loja paulistana, a Woodstock. Aberta em 1978, ela não só funciona até hoje focando na venda de discos e o que mais existir de memorabília roqueira, como se tornou o ponto de encontro de uma geração de cabeludos.

Uma geração que nos anos 80 viu o estilo nascer, crescer e se tornar maior que qualquer loja, cidade ou país. E talvez esse seja a maior qualidade do documentário: mostrar o nascimento de um mundo. Disso e encarar de frente a paixão com que isso foi feito, principalmente em torno da figura principal do filme, Walcir Chalas, único dono e criador da loja.

É através de seus olhos e sua vontade de “movimentar a cena” que, bem verdade, ele acabou “criando uma cena”. Foram suas enlouquecidas idas para a Europa e suas bagagens repletas de discos que não só serviram de combustível para a criação da loja, como também para que uma nação inteira de cabeludos vestidos de preto descobrissem um mundo. E quando durante o filme, tanto Igor Cavaleira quanto seu irmão Max afirmam que o Sepultura só existe por causa da Woodstock, isso não parece ser um exagero.

Mesmo mineiros, os dois e um grupo de amigo viajavam horas e horas para fazerem suas “comprar do mês”, novas bandas e novos discos de artistas conhecidos que pavimentaram a adolescencia dos dois e demais uma fila de personalidades que também dão as caras no documentário. João Gordo, do Ratos de Porão, o outro Sepultura, Andreas Kisser, o radialista (e ex VJ da MTV), Gastão Moreira e ainda um monte de gente que os roqueiros irão reconhecer e descobrir que estão ligados de modo intrínseco à loja.

Woodstock Filme

E por mais que algum provável problema com direitos autorais tenha impedido que o documentário fosse um pouco mais musical, assim como o impiedoso tempo talvez tenha privado o diretor de deixar a primeira hora do filme um pouco mais dinâmica (com mais imagens de arquivo), é incrível o quanto o que vem em seguida é fluido, fácil e passa em um segundo. Um período onde a loja já tinha se tornado não só ponto de encontro dos roqueiros paulistas, como passagem obrigatória dos lançamentos das bandas, tardes de autógrafos e plataforma de lançamento dos discos que irão estourar em uma época que todo mundo tinha um pouco de Heavy Metal.

Ninguém deve ter vendido mais discos do Gun n´Roses no Brasil do que a Woodstock, muito menos deve ter visto uma turba enlouquecida querendo uma autógrafo do Sepultura. Assim como poucas (ou nenhuma) loja do país recebeu os Ramones calmamente assinando os discos do público, ao mesmo tempo em que, por outro lado, teve que ver James Hatfield (do Metallica) dar a volta e ir embora ao chegar na “famosa loja de discos do Brasil especializada em rock” e ser pego por uma multidão. Pequenos causos que dão uma dinâmica incrível para o documentário.

Isso e a sensibilidade do diretor estreante de deixar seus entrevistados falarem abertamente. Woodstock deixa soar uma naturalidade de cada um que está sob o foco da câmera que transmite exatamente a óbvia paixão que todos devem sentir por aquele templo do rock. Cruz ainda tem o olhar técnico de diversificar a câmera enquanto conversa com Walcir, dando ritmo às longas passagens com o dono da loja.

Muito embora essa enorme versão de mais de duas horas deve acabar ganhando alguns cortes a fim de se adaptar melhor em festivais e mostras, ao seu final, a impressão que fica é que o que a Woodstock e todos que orbitaram e se inspiraram pela loja mereciam era na verdade mais algumas horas de histórias deliciosas, guitarras distorcidas e paixão pelo Rock n’ Roll.


Idem (Bra, 2014), escrito e dirigido por Wladimyr Cruz


Trailer – Woodstock – Mais que Uma Loja

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