De uns anos para cá whitewashing se tornou termo popular para os fãs de cinema, ainda mais enquanto viam Hollywood ignorar qualquer tipo de nacionalidade em busca de colocar um americano (ou americana) branco bonitão ao invés de qualquer outra opção. E isso tem sido ainda mais comentado diante do número cada vez maior de remakes e adaptações.

Mas é bom lembrar que isso não surgiu nos dias de hoje, Hollywood vem fazendo esse tipo de besteira há algumas décadas. E são tantos exemplos ridículos que seria preciso algumas páginas para comentar todos. E ainda que todos se lembrem de Marlon Brando como o japonês Sakini em A Casa de Chá do Luar ou o mais famoso de todos, Mickey Rooney, como o vizinho meio cego de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, o assunto vai ainda muito mais além.

Brando estrelou o filme em 1965 e Rooney em 1961, uma década em que, tenho quase certeza absoluta, já existiam artistas japoneses atuando em alta performance que conseguissem ficar com esses papeis. E se levarmos em conta que o teatro kabuki tem inicio no século XVII, os japoneses já eram bem capazes de atuar alto nível há pelo 300 anos.

E tentar encontrar uma razão para isso é um exercício que dá voltas e voltas e chega sempre na mesma tecla do racismo e do preconceito. Hollywood nunca se deu bem com absolutamente nada que não fosse um republicano retrogrado sacando sua pistola. E falando em John Wayne, em 1956 ele “viveu” um dos maiores “ícones pops” da civilização oriental em Sangue de Bárbaro. Um Gengis Khan que não tinha absolutamente nada de mongol. “Mas pô, era o John Wayne!”.

Whitewashing com Marlon Brando

E para não perder a chance de contar com o Sir Laurence Olivier na pele de uma dos personagens negros (mouro na verdade) mais famosos da literatura mundial, o ator surge em um “blackface” quase cinza no Othello de 1965. E não aquela “morenadinha” que, por exemplo, Orson Welles experimentou alguns anos antes quando ele próprio interpretou o personagem, estamos falando aqui do nível O Cantor de Jazz quase 40 anos depois disso.

Falando em Welles, ficou para posteridade um aparente problema que eles possa ter tido com a Universal ao fazê-lo engolir Charlton Heston (mais um republicano retrogrado bonitão) no papel do “mexicano” Mike Vargas em A Marca da Maldade.

É bom lembrar que em pleno anos 50 e 60 o que não faltavam eram atores de etnias latinas e negros que dariam conta desses papeis até melhor do que esses dois fizeram. O mexicano Anthony Quinn e o negro Sidney Poitier já tinham até ganhado seus Oscars.

Mas é preciso mesmo entender o quanto Hollywood teria dificuldades de encontrar um oriental à altura de colocar seu nome no alto de um cartaz, por exemplo, de O Rei e Eu em 1951 e em sua versão anterior Anna e o Rei do Sião de 1946. No segundo, o papel ficou com o inglês Rex Harrison, enquanto no primeiro, o russo Yul Brynner. A “dificuldade”: nenhuma. A falta de vontade: toda!

O problema é a falta de oportunidade para um ator ficar famoso e estar “à altura” do topo do pôster de um blockbuster. E para isso acontece é preciso deixa-lo aparecer. Ficando ainda nas adaptações do livro de Margaret Landon, em 1999, enquanto Jodie Foster vivia Anna, o Rei do Sião, Mongkut, ficou no colo de Chow Yun-Fat, que naquele momento já tanto tinha ficado conhecido nos Estados Unidos com o cult Fervura Máxima de John Woo, como já tinha feito um punhado de dinheiro para Hollywood em Assassinos Substitutos e O Corruptor. É importante então que Hollywood abra espaço para outras etnias antes de precisar usá-las.

E ainda que a trinta ou quarenta anos isso servisse de desculpa, hoje isso não serve para enganar ninguém. Algum tempo atrás, na hora de escolher alguém para “vender” a adaptação do vídeo-game Prince of Persia o absolutamente nada persa Jake Gyllenhaal só não “brilhou” no meio do elenco, pois todo o resto dos atores no filme também pareciam saídos de uma praia em Los Angeles.

O que não chega nem perto da branquidão egípcia de Êxodo: Deuses e Reis, com o britânico Christian Bale e o australiano Joel Edgerton nas túnicas e sandálias de Moisés e Ramses. Sem contar os loiros Aaron Paul e Bem Mendelsohn, o “italiano” John Turturro e a bem branca Sigourney Weaver completando um elenco tão “não egípcio” que fazia o britânico Ben Kingsley, que tem cara de indiano por ter sido eternizado na pele de Gandhi… bom, OK, nem ele passa como “povo hebreu”.

Whitewashing em Ghost in the shell?

Mas o whitewashing voltou às manchetes de uns tempos para cá e semana passada virou uma polêmica maior ainda. Infelizmente, em ambos os casos, não deveriam estar sendo discutido, o que pode acabar diminuindo o real problema.

O primeiro foco ficou nas costas da adaptação da animação japonesa Ghost in The Shell, que no Brasil chegará aos cinemas na próxima quinta feira com o título (ruim) A Vigilante do Amanhã (confira o trailer). Scarlett Johansson comanda um elenco quase nada oriental a não ser pela presença de Takeshi Kitano. Mas não se engane pelas aparências, por mais que fosse tremendamente respeitoso à obra encher o elenco de orientais, ao que parece no filme a cidade fictícia em questão parece ser algo como um polo de culturas diferentes no Japão.

E para completar meu ponto de vista, a Major de Johansson é uma espécie de ciborgue completamente remodelada, o que permite que sua configuração física seja do jeito que seus criadores preferirem. E pode até parecer desculpa para “passar um pano” no whitewashing, mas se bem tratado dentro da trama isso não faz diferença alguma.

Já a adaptação produzida pela Netflix do anime Death Note sofreu nas mãos de seus fãs ao divulgar o primeiro trailer da produção e “para a surpresa de muitos”, não mostrando sequer um japonês no elenco. Uma surpresa que beira a ignorância, já que é preciso ter o mínimo de bom senso e entender o que significa a expressão: adaptação.

Em posse dos direitos de filmagem da história em quadrinhos (e animação), a Netflix, por razões óbvias de ampliar o público do filme e economizar filmando no quintal de casa, tirou a história do Japão e colocou em algum lugar dos Estados Unidos. E se ainda assim você não entender de onde vem a necessidade de atores ocidentais em um cenário como esse, boa sorte gritando por ai e não chegando em lugar nenhum.

Então, quando for pensar em whitewashing, não perca tempo lutando contra quem não precisa ser apontado, enxergue o problema onde ele realmente está. Mas ao mesmo tempo lembre do quão ridículo essa situação é e quanto Hollywood sabe disso, lembre do quanto o incrível Kirk Lazarus no papel do sargento Lincoln Osiris em Trovão Tropical, mostra que as vezes o único jeito de interpretar um personagem e mergulhando de cabeça nele.

PS: No caso de A Vigilante do Amanhã, se todo o resto da cidade for povoado por japoneses, fica aqui a declaração oficial de que estou queimando minha língua e me arrependendo de ter defendido o filme.

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Uma resposta

  1. Luiz Fenando

    Obrigado por esse texto. Já estava cansado do pessoal apontando whitewhashing em duas produções com contextos bem diferentes de outras como a coisa horrível que é Êxodo:Deuses e Reis.

    Responder

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