Wasp Network | Leve, mas deveria ser mais pesado

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


Wasp Network faz o melhor com o que tem para contar uma história confusa sem protagonista definido, e o diretor/roteirista Olivier Assayas nos traz um filme leve quando essa opção seria a única que não poderia ser escolhida.

Com várias estrelas, Penélope Cruz, Wagner Moura e Gael Garcia Bernal, cuja posição política já é conhecida por todos (porque eles simplesmente não conseguem se conter), sabemos desde o começo que a história envolvendo uma Cuba pós-queda da URSS em plena decadência econômica se trata de uma fachada pobre e sem imaginação quando um piloto de Cuba foge para Miami, é acusado de desertor pelo governo e fala coisas horríveis do regime comunista, em uma trama que irá se desdobrar de maneira impressionante e inexplicável.

Porém, esta é a história inicial que acompanhamos por mais da metade deste longuíssimo filme: cubanos se unem em um movimento humanitário em solo americano para resgatar e dar apoio a refugiados que fogem do país sem condições de sobrevivência. Este movimento paga bem aos pilotos dispostos a lutar pela causa, então não há problema em ser patriota e ao mesmo tempo ganhar a vida em Miami. É como se diz na América, uma situação “win-win”.

O que faz este ser um filme longuíssimo é que ele se desdobra em outra história muito tarde, e por mais intensa que seja sua reviravolta, nos forçando a reinterpretar rapidamente os objetivos de cada um na história, ela continua soando rasa. Isso porque unindo tráfico de drogas, terrorismo e militância, o roteiro de Assayas se esforça para não fugir muito dos fatos históricos (apesar dos letreiros dizerem ser “apenas inspirado em fatos reais”) e ainda precisa tornar interessantes as trajetórias pessoais de cada um dos envolvidos.

Porém, assim como Bacurau, este é um filme sem protagonistas e com a bússola moral quebrada. Ele define a alegoria (ou espantalho) de uma Cuba comunista onde as pessoas morrem de fome de maneira porca, para logo depois convenientemente atacá-la. E da mesma forma que o filme 100% brasileiro de Juliano Dornelles e Kléber Mendonça Filho, que une gêneros e realiza truques de camadas para não soar tão ruim, Wasp Network não se importa com a narrativa, desde que haja mais e mais eventos sendo empurrados goela abaixo do espectador.

Para piorar, o design de produção está preocupado em tudo menos a história. As músicas usadas para caracterizar cada época (ano?) é completamente desproposital, virando música de fundo que inicia um novo capítulo, e os letreiros de localização, quando não apontam um lugar que todos sabem onde fica, como Havana e Miami, são inúteis.

De qualquer forma, Wasp Network não consegue ser um filme ruim. Ele tem a direção do competente Olivier Assayas (Personal Shopper), que nos entrega, cena após cena, momentos que nos deixam interessados em seus rasos personagens independente de seu pano de fundo. Isso quer dizer que ser um filme leve pode ter sido uma péssima ideia, mas, assim como a equivocada comédia As Aventuras de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, nas mãos de um diretor habilidoso funciona mesmo assim.


“Wasp Network” (Fra/Esp/Bel, 2019), escrito e dirigido por Olivier Assayas, com Ana de Armas, Penélope Cruz, Edgar Ramírez, Wagner Moura, Gael García Bernal e Harlys Becerra.



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