Vox Lux – O Preço da Fama | Um retrato do século vinte e um

Vox Lux Filme

Talvez soe pretensioso Vox Lux – O Preço da Fama se autoproclamar em seu subtítulo “um retrato do século vinte e um”, mas não é. O novo filme de Brady Corbet parece ser sobre o caminho de uma popstar, mas busca entender o mundo ao seu redor de modo cru e violento.

O filme começa com um massacre em uma escola onde uma jovem sobrevive milagrosamente e faz dessa tragédia o combustível para sua arte. Celeste, nesse primeiro momento vivida por Reffrey Cassidy e sua irmã, Eleanor (Stacy Martin), partem então em uma jornada onde a primeira vai descobrindo a possibilidade de se tornar uma grande cantora, mesmo que não uma grande pessoa.

Essa “nova pessoa” é vivida no futuro por Natalie Portman, já estabelecida como uma cantora de proporções gigantescas, mas que derrapa em polêmicas, drogas e um vazio que é ofuscado pelas luzes do palco. Nesse segundo momento, no dia da estreia de seu novo show, Celeste ainda tem que lidar com um massacre em uma praia que remete a ela e consequentemente ao tiroteio em sua escola. Um ciclo que se fecha.

Mas também uma história interrompida como a trilha cortada logo no começo do filme. Extirpada de sua vida, Celeste chega ao Hospital ainda jovem enquanto o filme apresenta seus créditos iniciais subindo pela tela como se encarasse o fim. Celeste morre em 1999, o que nasce depois disso é um monstro descontrolado.

Sua carreira passa por 2001, com o atentado ao World Trade Center, onde acaba o segundo ato e também a inocência dela e de todo um país. O que vem depois é o vazio. Vox Lux sabe disso e não desvia o olhar, assim como encara o resultado do massacre e o show que fecha o filme. Seria mais fácil desviar a câmera dessas tragédias, mas é preciso encarar e entender que esse é o resultado de cada desastre.

Vox Lux Crítica

Corbet faz isso de modo incômodo, esquisito e quase sensorial. Mesmo com apenas mais um filme no currículo (tem uma carreira de ator e você deve se lembrar dele de Violência Gratuita, de Michael Haneke), seu trabalho é firme e de sentimentos simples, é fácil entender perfeitamente o que seus personagens estão sentindo. Essa clareza vem ainda com composições limpas, marcantes e uma câmera que consegue entender o estado mental de seus personagens, chacoalhando com o nervosismo e estabilizando diante da confiança, como na cena onde Celeste, ainda jovem, ensaia alguns passos de dança para seu primeiro show.

O que completa essa experiência é, com certeza, a narração de Willem Dafoe. Quase como um narrador literário, sua voz sem igual se entrelaça pela trama, algumas vezes desvendando o que está por trás das imagens, dos pensamentos e das impressões, outras, discorrendo sobre alguns detalhes do passado com uma consciência cirúrgica, um texto inteligente e veracidade que só sua voz conseguiria dar. Deixar o tempo passar com a companha de Dafoe é sempre um prazer sem igual.

Mas Vox Lux é mesmo sobre essa peça quebrada, Celeste. No futuro, Natalie Portman faz um trabalho incrível, ao mesmo tempo desgastado e cínico. Como se acreditasse mesmo que seu talento tivesse sido sugado pela fama e isso não importasse mais. O retrato de uma estrela que sobreviveu a um massacre, mas não conseguiu sobreviver a ela mesma.

Uma personagem quebrada como uma nação, que não consegue enxergar as próprias falhas e continua com os olhos fechados seguindo por um mesmo caminho, afinal ele levou todos ao sucesso e à fama, e deve estar certo. O futuro precisando ignorar o passado para continuar pleno em sua felicidade artificial.

Da plateia, os olhos daqueles que você abandonou observam como o hino de uma nação se tornou um resquício vazio, alto e sem significado. Mas a felicidade e a potência de cima do palco convencem a todos de que aquilo deve ser o correto, portanto, por que então não se deixar levar pelo ritmo e esquecer os pecados para trás?


“Vox Lux” (EUA, 2018), escrito e dirigido por Brady Corbet, com Natalie Portman, Jude Law, Stacy Martin, Jennifer Ehle, Willem Dafoe e Raffey Cassidy.


Trailer do Filme – Vox Lux – O Preço da Fama

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