Você Nunca Esteve Realmente Aqui | Imperdível. O filme de ação do ano.

Você Nunca Esteve Aqui Filme

Situado em nosso inconsciente, nas profundezas de nossa sociedade pós-moderna, flutua a realidade e os intermináveis debates sobre o homem comum, esse que vive uma rotina em que, apesar de alguns percalços, tudo parece estar em relativa ordem e estabilidade. Você Nunca Esteve Realmente Aqui não fala sobre este homem, mas trabalha do outro lado da equação, onde a violência brutal marca as pessoas que nela vivem, e que para sempre deixaram de ser os mesmos.

Pessoas as quais suas realidades não possuem essa estabilidade com alguns percalços de vez em quando. Essa realidade é o eterno percalço, com breves momentos, se tiverem sorte, de alguma calmaria.

O novo filme de Lynne Ramsay vem seis anos após seu grande hit (Precisamos Falar Sobre o Kevin) e demonstra como uma grande diretora (e roteirista) consegue explorar uma obra feita por palavras sem usá-las. Baseado no romance homônimo de Jonathan Ames, este é basicamente um filme que dispensa diálogos, mas quando eles ocorrem, são econômicos e certeiros. Aliás, o filme em geral é curto e grosso, conseguindo em menos de uma hora e meia explorar uma janela de emoções na vida de Joe, um caçador de recompensas inusitado, e Nina, seu alvo a ser protegido.

Colocando o peso parcialmente nas costas de Joaquin Phoenix, que faz Joe, e o resto da responsabilidade em uma direção milimetricamente pensada em termos de enquadramento, movimento de câmera, iluminação, cortes, etc, a história segue uma estrutura atribulada porque na realidade estamos enxergando o que se passa na cabeça de Joe.

Ele tem um trauma de infância que carrega para a vida envolvendo violência doméstica, o que, muito provavelmente, tem a ver com o que ele faz para viver: resgata meninas menores de idade do mundo da exploração sexual. Ele mora com a mãe, interpretada por Judith Roberts, que faz valer cada um dos seus poucos minutos em cena construindo um ambiente familiar, mas estranho, onde mãe e filho vivem em harmonia. No começo do filme não é possível entender se Joe é o vilão ou o herói, e Ramsay faz uma brincadeira com Psicose óbvia, mas não boba, pois traz ao espectador exatamente o teor de psicopatia que precisamos ter para entender a cabeça de Joe.

Este poderia ser apenas mais um filme sobre resgate, vilões repugnantes, violência gráfica, jogo de cena e personagens estilizados, mas Ramsay faz tudo parecer uma mistura de diferentes obras (do Psicose, já citada, até Taxi Driver… e porque não até Drive, de Nicolas Winding Refn) e desse mix de sentimentos desabrochar uma síntese original, sagaz e pertinente para uma discussão contemporânea cuja camada inconsciente é justamente o que torna a história possível: ninguém realmente liga para as pessoas em volta, ou a máxima resumida em um dos poucos e valiosos diálogos “eu apenas trabalho aqui”.

Engraçado que o filme sabe que não é original, mas justamente por referenciar de forma tão clara as obras em que se inspira, e sem o qual aí sim soaria mero plágio, ele consegue não apenas uma “desculpa” de criar as mesmas situações e a atmosfera de descaso e consequente violência urbana, mas a expande e atualiza.

E por isso este não é um filme dos normais. Tampouco é uma desculpa para vitimizar os anormais. A câmera de Ramsay está inquieta desde o começo, revelando visualmente o que se passa na cabeça de Joe: flasbacks sobre seu passado, a infância traumática, uma passagem por uma guerra e seus pecados (provavelmente no Afeganistão, em uma conexão temática ágil e solta), os cortes rápidos, incongruentes, que se ligam apenas na lógica visual (passos que se completam em outra pessoa, um tapa na testa que vira uma batida de cabeça na porta), mas que estão soltos para trazer esse sentimento de desorientação, mas não soltos demais para perdermos o fio da meada e nem para que Joe não entre em parafuso eterno.

Você Nunca Esteve Aqui Filme

Joaquin Phoenix tem essa marca de conseguir relaxar e ao mesmo tempo deixar claro como está tenso por dentro. Ele possui aquele tique especial em que sabemos quando uma pessoa está inquieta (no caso dele até micro-expressões podem ser observadas em seu rosto impassível), mas ao mesmo tempo seu andar é preciso, seus movimentos são ágeis e ele não titubeia. Aliás, seus óbvios traços de psicopatia viram o seu ponto forte quando ele precisa entrar em ação com um simples martelo.

Fantasioso demais? Bom, se ninguém acredita que algo é possível dá abertura para as pessoas que nem pensam nisso entrar nos lugares e simplesmente fazer o impossível. O filme nem cria sequências elaboradas de luta. O resgate em um prédio vira um recorte de câmeras de segurança em preto e branco que dão mais tensão do que se víssemos embates corpo a corpo e seus trocentos cortes habituais de hoje em dia. Do jeito que é filmado nossa imaginação vai preenchendo as lacunas, e a experiência se torna delirante na medida certa.

Ekaterina Samsonov, o que dizer dela? Aos catorze anos ela é jovem, como Jodie Foster em Taxi Driver, e assim como ela, linda como um anjo. Não é linda e fatal como Chloë Moretz em Deixe-me Entrar, pois isso seria fácil demais. Ela se torna uma incógnita que não questionamos, e esse é seu poder no ato final. Ramsay tem o poder de subverter as expectativas e ao mesmo tempo texturizar velhos clássicos com uma nova forma de se enxergar filmes de ação.

Um destaque merecido deve ir para o design de som, pois em um filme com pouquíssima trilha, a maioria ocasional de cena, a possibilidade dos menores ruídos e sons do ambiente serem relevantes para a criação da atmosfera não é algo que pode passar despercebido. Aliás, a própria questão do “ninguém liga” é estampada em nossos ouvidos com o barulho irritante de pessoas conversando em volta de ambientes públicos.

A melhor cena do filme é quando um certo personagem dá um tiro em sua própria cabeça. Observe como a fantasia representa a realidade muito melhor do que ela própria. Eis a cabeça dos anormais servindo de guia moral mais eficiente do que toda a sociedade.

Você Nunca Esteve Aqui é o filme de ação do ano, tenso do começo ao fim, com uma mensagem poderosa que ecoa após seu final para os pensamentos dos mais atentos. Imperdível.


“You Were Never Really Here” (RU/Fra, 2017), escrito e dirigido por Lynne Ramsay, à partir do livro de Jonathan Ames, com Joaquin Phoenix, Judith Roberts, Ekaterina Samsonov.


Trailer – Você Nunca Esteve Realmente Aqui

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