Os fãs da animação japonesa de 1993, Ghost in The Shell, que me perdoem, mas deixando de lado algumas cenas incríveis, o resto forma uma experiência lenta e que pensa demais e age de menos. A Vigilante do Amanhã: Ghost in The Shell corrige essa falha e faz nascer um produto muito melhor acabado, e o melhor ainda, carregando consigo essas cenas incríveis.

Como se o roteiro de Jamie Moss e William Wheeler tivesse a responsabilidade de passar por essas sequências e situações de modo copiado, mas sempre com a obrigação de reescrever tudo ao redor disso, com novas situações, novas motivações e conclusões completamente diferentes. A Vigilante do Amanhã só não chega mais longe, pois essas decisões alternativas deixam de lado muito do que talvez seja o ponto principal do original: seus problemas existenciais.

Não que isso diminua a diversão, mas com certeza faz com que a experiência permaneça menos em sua cabeça depois que o filme acaba. Aqui, em algum lugar do futuro e em uma cidade que parece estar no Japão, Scarlett Johansson vive uma ciborgue que nasceu de uma experiência que colocou um cérebro humano dentro de um robô. Ela então se torna uma operativa, Major, da Seção 9, espécie de Departamento de Defesa. Mas em meio ao surgimento de hacker intitulado Kuze (Michael Pitt), parte em uma busca frenética para impedi-lo em meio a uma série de assassinatos.

O problema é que esse Kuze talvez tenha alguns segredos do passado da Major, o que a fará colocar em jogo sua lealdade perante a mega corporação que a construiu. Aquela discussão filosófica de “ser ou não ser” continua lá, arranhada vez ou outra por alguma conversa entre a personagem e sua criadora, Dr. Ouelet (Juliett Binoche) ou seu parceiro Batou (Pilou Asbæk), mas A Vigilante do Amanhã é muito mais prático e direto (talvez ocidentalizado?), deixando de discutir “o que é”, mas tentar encontrar “o que foi”.

Mas enquanto esse novo caminho se afasta do original, consegue encontrar possibilidades e soluções até melhores do que as do desenho. E quando passa por cada umas das cenas clássicas dele, o faz de jeito novo e inovador. Sequências como a de abertura ou da luta em um espelho de água parecem retiradas diretamente da animação, plano por plano, assim como lá para o final, boa parte da luta contra o tanque-aranha, mas tudo com objetivos e motivações diferentes. E melhor ainda com uma direção de arte que consegue ser ainda mais interessante do que já tinha sido feito no desenho.

Não que o trabalho do diretor Rupert Sanders (de Branca de Neve e o Caçador), não mereça ser celebrado, mas o trabalho de Design de Produção de Jan Roelfs faz valer cada real que você gastar com o ingresso. Além de um mundo crível e futurístico, que consegue até sair um pouco do úmido e neon Blade Runner (mas não se preocupe, como qualquer bom exemplo de filme Cyberpunk, ainda recebe suas doses cavalares de inspiração no filme de Ridley Scott) e criar muito mais que uma cidade, mas sim pequenos mundos por onde Major e Batou passam em busca de Kuze.

A Vigilante do Amanhã Crítica

A cada passo que a dupla dá dentro do submundo dessa metrópole, fica a impressão de que um filme poderia se escrito para aproveitar somente aqueles cenários, corredores e personagens. Cada mínimo detalhe parece carregar uma história incrível, seja o bar lotado que se esgueira por uma série de corredores até encontrar um misterioso círculo de pessoas (monges?), até bem lá para o final um vislumbre do subúrbio que se afasta da tecnologia e observa a água para o chá ferver em um antigo fogão.

E se Sanders tem a acertada decisão de não forçar esses detalhes, mas apenas passar por eles, quem ganha é o espectador, que mergulha em um mundo incrível. Por outro lado, o mesmo Sanders falha na teimosia de repetir demais um grande plano aberto da cidade mostrando os gigantescos hologramas que, em vias de fato, não significam nada e depois da primeira vez vistos e apreciados, poderia claramente ser ignorado no resto do tempo.

Mas sobre tudo isso paira a impressão de que Hollywood não “embranqueceu” um elenco, mas sim uma produção inteira. Da incrível trilha sonora original com aqueles tambores e o coro agudo dando lugar a um sintetizador qualquer a uma trama que funciona, é muito bem resolvida e contida dentro de suas intenções, mas não passa daquela boa e velha busca pelo passado que inúmeros “esquecidos” de Hollywood já enfrentaram.

Uma pena, já que quando esbarra em momentos existências e simbólicos como o mergulho (“deep dive”) na cabeça da gueixa ou no questionamento de que “a fantasia e a realidade não são tão diferentes desde que você acredite nelas”, consegue encontrar possibilidades incríveis de ir além das cenas de ação. Ao invés disso, “ocidentaliza” o material que tem em mãos por meio de uma intriga mais palpável e uma trama mais “normal” em busca da boa receptividade de um público mais “geral”. E se o original Ghost in The Shell pecava no modo anticlimático com que tratava essa profundidade, pelo menos aqui A Vigilante do Amanhã teria a oportunidade aproveitar um pouco mais esse conceito e, quem sabe, conseguindo com isso apresentar algo diferente para seu novo público.

Esse mesmo público então ganha um filmão, com um visual lindo e cenas de ação empolgantes, mas que deixa a impressão de ter perdido a oportunidade de criar o que talvez, com um pouco mais de carinho (e coragem) se tornasse um clássico tão lembrado quando a animação continuará sendo.


“Ghost in The Shell” (EUA, 2017), escrito por Jamei Moss, William Wheeler e Ehren Kruger, à partir da HQ de Masamune Shirow e a animação de Mamoru Oshii, dirigido por Rupert Sanders, com Scarelett Johansson, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano, Juliette Binoche, Michael Pitt, Chin Han e Peter Ferdinando.


Trailer – A Vigilante do Amanhã: Ghost in The Shell

o crítico foi na pré-estreia à convite do Cine Roxy
Cine Roxy

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