Há sempre algo de admirável em filmes estapafúrdios que não se levam muito a sério. Valerian e a Cidade dos Mil Planetas certamente pertence a essa categoria e, aqui, o objetivo principal do diretor Luc Besson é nos guiar pelos cenários absurdos repletos de espécies alienígenas criados a partir dos quadrinhos de Pierre Christin e Jean-Claude Mèziéres. Entretanto, a maneira bagunçada com que tudo isso acontece e a falta de profundidade dos protagonistas tornam esta uma obra esquecível, mesmo que ocasionalmente divertida.

Os agentes Valerian (Dane DeHaan) e Laureline (Cara Delevingne) viajam pela galáxia em sua missão de proteger o universo. Os dois trabalham muito bem juntos, mas um ponto de conflito entre eles é o fato de que Valerian insiste em declarar sua paixão por Laureline de maneira ininterrupta. Mesmo. Ele passa tanto tempo implorando a parceira por atenção que Besson (que também assina o roteiro) parece achar que isso elimina a necessidade de ele desenvolver o relacionamento entre eles ou mesmo de trazer Valerian demonstrando de alguma forma concreta a sinceridade do amor que ele diz sentir. Assim, essa dinâmica incômoda entre os protagonistas faz com que o filme comece a destrambelhar logo no início.

Felizmente, antes de conhecermos Valerian e Laureline, acompanhamos uma ótima sequência que ilustra o desenvolvimento da tecnologia espacial terráquea ao longo dos anos. Iniciando com uma pequena estação, os avanços e o passar dos anos vão levando cada vez mais habitantes ao local — e é interessante perceber como o grupo vai se tornando mais diversificado ao longo do tempo. Até que, em 2150, acontece o primeiro contato com uma espécie alienígena. O dinamismo da sequência, a imaginação na criação dos ETs e o humor simples mas eficiente dos encontros abre Valerian de maneira promissora, prometendo um universo colorido e extravagante.

E isso é entregue por Besson, que aproveita bem o budget recheado para desenvolver os diferentes planetas, dimensões e espaçonaves percorridas pelos personagens…. Ah, sim, voltemos à trama: a atual missão de Valerian e Laureline é recuperar um pequeno alien que tem a habilidade de multiplicar tudo o que ingere — e que, obviamente, o torna um alvo cobiçado, especialmente pelo fato de ele ser o último de sua espécie. Após resgatar o bichinho, os protagonistas descobrem que ele é apenas o primeiro capítulo de um conflito que ameaça a segurança do universo, já tendo destruído o planeta de uma exótica e pacata espécie alienígena experiente na manipulação de um tipo de pérola com alto poder energético.

Besson acerta ao não tentar vender a trama de Valerian como algo complexo, pois o roteiro está longe disso. Entretanto, em um aparente esforço para estender o tempo de duração para as mais de duas horas que parecem ser a nova norma entre blockbusters (o que, é claro, tem tanto resultados positivos quanto negativos), o cineasta preenche a narrativa com diversos elementos mal trabalhados e que não tem impacto algum na trama. É o caso, por exemplo, da tão comentada participação da cantora Rihanna. Carismática e belíssima, ela não faz feio como uma alienígena capaz de alterar sua aparência à vontade, mas o fato é que Bubble está ali apenas para encher linguiça — se eliminássemos toda a sua história do filme, não haveria diferença alguma. Além disso, é uma pena ver que o suposto progresso que presenciamos na sequência de abertura é ignorado no restante do longa, já que Bubble é apenas uma versão sci-fi do clichê da prostituta sofrida e com coração de ouro.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas Crítica

Além disso, chama a atenção o fato de que a diversidade claramente presente na Cidade dos Mil Planetas (tanto em termos de etnias humanas quanto de espécies aliens) não se estende aos personagens centrais — que são, em sua maioria, brancos e, com exceção da própria Laureline, homens. O próprio conflito amoroso entre os protagonistas é baseado em uma dinâmica machista que enxerga Laureline como um prêmio que Valerian merece por seu heroísmo, em outro exemplo de que Besson se dedicou a criar uma galáxia evoluída e tecnológica, mas sem perder tempo refletindo em como isso influenciaria as relações interpessoais e a sociedade como um todo. O mais perto que chegamos disso encontra-se nos Pearls, nomeados em homenagem às pérolas que manipulam.

Essa falta de inspiração atinge os próprios protagonistas, que jamais se estabelecem como indivíduos multifacetados. Laureline tem um pouco mais de personalidade, além de ser beneficiada pelo carisma de Cara Delevingne — que, mesmo assim, apresenta pouco real talento como atriz. Já Dane DeHaan, por sua vez, é um ator interessante (nos papéis certos) que se mostra desastrosamente mal escalado como Valerian, um personagem que requer um charme e um magnetismo que ele simplesmente não consegue exalar.

Entretanto, há momentos inspirados em Valerian e a Cidade dos Mil Planetas. Além da já mencionada sequência inicial, há também uma vibrante perseguição interdimensional, que talvez seja o mais perto que o longa chega de oferecer algo realmente original. Por outro lado, outra cena divertida, aquela em que Valerian pega um atalho para chegar a determinado lugar, é estragada por um irritante diálogo expositivo, como quando o agente declara que “aquele pode ser o caminho curto, mas é o mais complicado” — algo que o espectador já havia percebido por si só a partir do que está sendo presenciado na tela.

Assim, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é mais um exemplo de superprodução visualmente ambiciosa e ocasionalmente divertida, mas que não possui o recheio necessário para realmente se destacar. Em um período em que os lançamentos recentes nos cinemas incluem excelentes summer movies (lançamentos do verão norte-americano) tão diferentes quanto Planeta dos Macacos: A Guerra, Em Ritmo de Fuga, “Dunkirk, O Estranho que Nós Amamos e Homem-Aranha: De Volta ao Lar, não precisamos mais aceitar blockbusters tão rasos quanto este de Luc Besson.


“Valerian and the City of a Thousand Planets” (Fra, 2017), escrito por Luc Besson a partir dos quadrinhos de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, dirigido por Luc Besson, com Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Herbie Hancock e Kris Wu.


Trailer – Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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