Unsane | Suspense filmado com celular impressiona… mas nem tanto assim

Unsane Filme

Unsane é o novo filme de Steven Soderbergh e se você ouviu falar dele, provavelmente foi porque ele foi todo gravado com um iPhone. Apesar de isso ser bastante impressionante, o filme tem outras qualidades que o elevam ¿ e vários defeitos que o jogam lá embaixo.

Ele conta a história de Sawyer Valentinni (Claire Foy), uma mulher de negócios que parece desconectada do mundo. Em uma nova cidade, em um novo trabalho, longe de amigos e família. Mas logo o porquê disso é explicado: Saywer está fugindo de um stalker e espera que uma nova vida dê conta do recado. Entretanto, ela tem uma espécie de stress pós-traumático, em que ela vê o stalker ao seu redor mesmo quando ele não está lá. Após um episódio que a deixa perturbada, Sawyer decide procurar ajuda, marca uma consulta com uma psiquiatra e, durante a conversa, deixa escapar que já teve pensamentos suicidas. É o suficiente para que o hospital decida interná-la compulsoriamente fazendo-a assinar um termo de compromisso como se fosse papelada de rotina. Dentro do hospital, Sawyer descobre o esquema da instituição para ganhar dinheiro em cima dos planos de saúde e reencontra (ou não?) seu stalker.

Mas é bom começarmos pelas suas qualidades. O visual do filme é muito interessante e diferente. O fato de ele ser gravado com um iphone não é perceptível, ainda que se note que algo ali foge do tradicional. Soderbergh confere à produção um ar frio, distante, hospitalar mesmo.

Já o roteiro faz a escolha interessante de colocar como plano de fundo um arco envolvendo fraude dos hospitais psiquiátricos que internam pacientes saudáveis apenas para tirar dinheiro dos planos de saúde. É um assunto importante e real, que explica porque uma pessoa sem problemas mentais seria internada (afinal, essa história já foi contada várias e várias vezes, normalmente usando justificativas bem chinfrins).

Unsane Crítica

Unsane ainda tem um perfume de filme B, com momentos um tanto ridículos, mas que me parecem propositais (espero que sejam). Isso confere um humor ¿ às vezes um tanto negro e pesado ¿ ao filme. A melhor parte, entretanto, sem dúvida, é a atuação de Claire Foy. Para os que estão acostumados a ela como a Rainha da Inglaterra na série The Crown, a performance aqui é muito diferente ¿ mas igualmente magnífica. Foy mostra uma versatilidade impressionante e após ver Unsane, acredito até que ela tenha potencial para ser uma próxima Meryl Streep, tamanha a sua habilidade de mudar.

Porém, é impossível ignorar os ¿ vários ¿ problemas de Unsane. A maioria deles no roteiro mesmo.

É muito nobre um filme com a magnitude de Unsane abordar assuntos tão importantes. A fraude da saúde mental está ali, o gaslighting está ali, o assédio às mulheres e suas consequências estão ali. Entretanto, esse é exatamente o problema: é muita coisa. São muitos assuntos de peso competindo por atenção e, apesar de o foco principal estar no assédio e no gaslighting, mesmo estes temas acabam tendo pouco desenvolvimento, o que resulta em um filme que, no anseio de tratar de muitas coisas, trata de nada.

Isso é agravado pelo humor inserido no filme. São boas sacadas cômicas, a plateia várias vezes riu durante a projeção, mas combinadas a assuntos tão sérios que são tratados de forma tão superficial, soa como falta de responsabilidade. Sem contar o quanto o filme também é lotado de bons personagens que ficam perdidos no meio de tanto assunto. Juno Temple, sempre ótima, é desperdiçada numa personagem de apoio que não apoia em quase nada. Joshua Leonard está com uma ótima performance, mas, novamente, com tanta coisa acontecendo, não ganha o desenvolvimento que merece. Ah, e, mais uma vez, Soderbergh coloca um momento lésbico gratuito em um filme sobre saúde mental. Não sei exatamente o que pensar sobre isso.

Enfim, Unsane é um filme que não é ruim, mas está longe de ser ótimo. Uma pena, pois um elenco desses merecia bem mais.

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¿Unsane¿ (EUA, 2018), escrito por Jonathan Bernstein e James Greer, dirigido por Steven Soderbergh, com Claire Foy, Joshua Leonard, Juno Temple e Amy Irving.


Trailer – Unsane

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