Se você já viu Uma Verdade Inconveniente, Oscar de melhor documentário de 2006, provavelmente vai se sentir em casa com essa continuação. Ela é espalhafatosa, desinformativa e um apelo à emoção. Mas isso não é nenhuma novidade para você. Conhecida por jogar números estatísticos como forma de combate, o folheto de propaganda na forma de documentário continua balançando ao vento para quem quiser e quem não quiser ver. E como os voluntários de programas sociais que vemos na Avenida Paulista, há a sensação que mais do mesmo não irá resolver o problema. Exceto que agora a calçada ficou um pouco menos agradável de se andar.

Quem segura esse folheto firme nas mãos é Al Gore. Há quarenta anos. Ele fala efusivamente para quem estiver disposto a ouvir. Ele levanta o tom, usa diversas formas de dizer a mesma coisa, apresenta gráficos, fotos e vídeos de desastres naturais. Nada parece muito convincente. Exceto pelos rostos da plateia, capturadas em harmonia com seu discurso alarmista. Os rostos sorriem, choram, balançam as cabeças e se inclinam nas cadeiras de mais algum auditório ao redor do globo. Quando Al Gore se exalta um pouco seguem os aplausos. A ode à emoção é linda de se ver quando não precisamos pensar muito a respeito.

Os diretores Bonni Cohen e Jon Shenk não possuem aqui uma maneira de conduzir a narrativa como na história original, onde alguém sensato estava disposto a ouvir mais sobre ciência e como conseguimos provar que o aquecimento global não apenas é verdade incontestável, como também sabemos que sendo causado pelo homem pela emissão de gases provenientes de combustíveis fósseis. O uso de gráficos, de imagens e de vídeos é mais para impressionar do que informar, com algumas raras exceções (como as temperaturas médias dos anos extrapolado em décadas, em um crescente preocupante). Na verdade, os diretores estão no piloto automático, pois repetem a mesma dinâmica do anterior como se este fosse o segundo episódio de uma saga que provavelmente vai terminar com o fim da vida na Terra como a conhecemos.

Uma Verdade Mais Inconveniente Crítica

Al Gore não é o melhor garoto-propaganda para espalhar mensagens ecológicas. Ex-político, seu jeito simplório de falar conquista, mas apenas a parte menos poderosa da equação. Em um claro descompasso com a atual presidência do retrógrado Donald Trump, o vice-presidente da “era Clinton” consegue se comunicar muito melhor com donos de grandes corporações, e negociar propostas excelentes que modificam lentamente estruturas geopolíticas – como repassar uma tecnologia de energia solar para a Índia – do que convencer Washington a voltar para a sanidade.

Ele, assim como o diretor homenageado da Mostra esse ano, Ai Weiwei, em seu filme sofre refugiados, concluem a mesma coisa: se há uma luz no fim do túnel, ela não será acesa por políticos e burocratas. Somos nós mesmo que teremos que levar adiante o farol da esperança. Ou como ele diz, se referindo aos painéis solares: acima dos telhados.

*Uma Verdade Mais Inconveniente faz parte da cobertura da 41° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


“An Inconvenient Sequel: Truth to Power” (USA, 2017), escrito por Al Gore, dirigido por Bonni Cohen, Jon Shenk, com Al Gore, George W. Bush, John Kerry, Marco Krapels, Angela Merkel


Trailer – Uma Verdade Mais Inconveniente

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