Uma Mulher Alta | Uma sucessão de catarses sem recompensa


Uma Mulher Alta é uma incursão estranha nas mentes e corações dos russos pós-guerra. Com a economia destruída e as relações sociais radicalmente alteradas, o filme de Kantemir Balagov realiza uma obra que parte da intimidade do triângulo amoroso mais bizarro que você verá esse ano para nos revelar as idiossincrasias que emergem de uma sociedade sem amor.

O resultado prima pela distorção dos valores mais burgueses, como família, pois ignora os sentimentos como se eles fossem inexistentes. Balagov está olhando com uma lupa quebrada para essas pessoas e vai com ela desvendando alguns pedaços do desconhecido, que começa na revelação de que o filho de Iya, a mulher alta do título, na verdade é de Masha, sua colega de guerra que usou sua beleza e seu poder de sedução para sobreviver no front. Iya, que pela altura exagerada conseguiu se defender mesmo sem sexo, voltou da guerra com um trauma que a paralisa repentinamente por um tempo indeterminado, o que faz com que ela acidentalmente mate essa criança, o que inicia esse drama pesado.

Mas o peso das relações entre Masha e Iya parece esvanecer nas interações entre essas duas e o resto do mundo. Mesmo ligadas agora para o resto da vida pela dívida impagável de um filho que se foi, o espectador é movido a observar mais os detalhes de uma Leningrado minimalista e impessoal através dessas duas, e o filme vai nos entregando cada vez mais através do resto da sociedade, que mecanicamente vive em um microcosmos em suspensão. A guerra acabou, mas levou embora a alma do povo russo.

Viktoria Miroshnichenko vive Iya com ajuda da direção sensível de Kantemir Balagov, que captura os pouquíssimos momentos íntimos de uma atriz de uma nota só. Por outro lado, a vida e a energia entregues por Vasilisa Perelygina vivendo Masha acabam compensando e completando as diferentes personalidades entre as duas. Uma depende da outra para que nasça uma personagem só.

Personagens secundários como Andrey Bykov, que vive um cínico doutor do hospital onde ambas trabalham, e Konstantin Balakirev, que vive o namoradinho burguês Stepan, fecham o ciclo necessário para que haja uma conexão mínima com o mundo que elas vivem. O esforço do filme em nos manter o mais distante possível do que ocorre do lado de fora das quatro paredes é estonteante e reflete diretamente a visão da vida pós-guerra de Masha e Iya.

Feito para acompanhar o ritmo irregular da vida de Iya e seus ataques de paralisia, a música de Evgueni Galperine é a única coisa no longa que irá chamar muito a atenção. Com um ritmo irregular e repetitivo, nos créditos finais é possível observar com mais cuidado, mas o cuidado de Galperine em dar o tom com que essa inusitada história se desenvolve é primordial para entendermos o ponto de vista de Iya, cuja vida é uma sucessão de catarses sem recompensa. Catarses essas que resume muito bem o último século da história russa, desde a revolução socialista.


“Dylda” (Rus, 2019), escrito por Kantemir Balagov e Aleksandr Terekhov, dirigido por Kantemir Balagov, com Viktoria Miroshnichenko, Vasilisa Perelygina e Andrey Bykov.


Trailer – Uma Mulher Alta

Outros artigos interessantes:

1 Comment

  1. Que crítica limitada. O médico não é um cínico…a personagem não se caracteriza como de “uma nota só”….que visão pobre e reducionista sobre um filme tão senso e profundo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *