por Mariana González
02 de abril de 2018 |

Uma Dobra no Tempo é uma produção assumidamente voltada para as crianças, e isso não é um problema. Entretanto, isso perdoa o nível de exposição e até um pouco da forma óbvia e escancarada com que o longa transmite suas mensagens, mas não a perda considerável de ritmo no terceiro ato ou a maneira rasa com que os sentimentos dos personagens são tratados. Mas, ainda que menos ambicioso do que aparenta ser, a nova superprodução da Disney apresenta diversos pontos louváveis.

Quando a história tem início, a jovem Meg (Storm Reid) mostra-se resignada ao bullying que sofre das colegas e ao isolamento na escola, situações que tiveram início com base no comportamento imprevisível e fechado que surgiu após o desaparecimento de seu pai (Chris Pine) há quatro anos. Sua partida pode ter a ver com as experiências que ele e a esposa (Gugu Mbatha-Raw) conduziam sobre o tempo e o espaço, e que levaram o cientista a descobrir as tesseracts, uma espécie de estado da mente que nos permitiria viajar livremente pelo cosmos (o filme não se preocupa muito em explicar como isso funciona). Isso, até que três criaturas mágicas — a elegante e impaciente Sra. Queé (Reese Witherspoon), a sábia e excêntrica Sra. Quem (Mindy Kaling) e a deslumbrante Sra. Qual (Oprah Winfrey) — aparecem para guiar Meg, seu pequeno irmão adotivo Charles Wallace (Deric McCabe) e um colega de escola dela, Calvin (Levi Miller), em uma missão para encontrar o cientista desaparecido e trazê-lo de volta para sua família. Entretanto, a busca logo torna-se um resgate quando o grupo depara-se com o planeta-entidade Camazotz, lar do temido Aquilo, que ameaça acabar com toda a luz do universo.

Como o trio cósmico explica, o Camazots é responsável por toda a escuridão — o que, no filme, basicamente significa qualquer sentimento negativo que possamos ter sobre nós mesmos ou sobre as outras pessoas. Ainda que a intenção seja nobre, isso faz com que o roteiro escrito por Jennifer Lee e Jeff Stockwell, a partir do livro homônimo de Madeleine L’Engle, seja também bastante simplista.

Por outro lado, bem mais eficiente — e importante — é a mensagem de Uma Dobra no Tempo sobre amor próprio e sobre respeitarmos e celebrarmos cada parte de quem somos. Isso está presente não apenas na história do longa, que leva Meg em uma jornada de autoaceitação, mas também na própria produção, que traz uma jovem protagonista negra, parte de uma família multirracial, no lugar de personagens que, no livro de L’Engle, são exclusivamente caucasianos. Uma garota negra, de cabelos crespos e óculos, como a pessoa mais importante do universo — você nunca viu esse filme antes. DuVernay é, ela própria, uma mulher negra — a primeira a comandar um filme com orçamento de mais de 100 mil dólares —, o que torna a inclusão da obra ainda mais significativa.

E Meg é, certamente, uma protagonista fascinante, graças também à bela performance de Storm Reid. A garota mantém uma postura fechada e segura pela maior parte do filme e, no terceiro ato, durante um momento-chave com o pai, deixa essa fachada desabar e revela toda a fragilidade e medo que vinha escondendo até então. Assim, Reid faz de Meg uma jovem multifacetada e envolvente, especialmente considerando que a parcela do público da idade dela (na faixa dos 12/13 anos) se identificará fortemente com os conflitos internos da protagonista.

 Ao seu lado, Levi Miller acerta ao entender que o papel de Calvin é o de celebrar Meg; o ator também traz uma intensidade na medida certa para o quase-romance que os dois vivenciam. Enquanto isso, é uma pena que a talentosa Gugu Mbatha-Raw não tenha mais tempo de tela, mas Chris Pine abraça o sentimentalismo do longa e traz energia para seu relacionamento com a filha, que é o mais importante de Uma Dobra no Tempo.

Uma Dobra no Tempo Crítica

Mas os problemas mais graves da obra começam a aparecer ou acentuam-se no terceiro ato, em que DuVernay e sua dupla de roteiristas parecem perder o controle sobre a narrativa e sobre o tom dos sentimentos e mensagens que querem transmitir. Isso se dá, em grande parte, pela importância que Charles Wallace ganha a partir da transformação que sofre nas mãos d’Aquilo — o garotinho Deric McCabe simplesmente não possui o que seria necessário para aquela versão do personagem funcionar, já que, anteriormente, havia chegado muito perto de cruzar a fronteira entre o adorável e o irritante.

Ainda nos problemas, quando o filme começa a caminhar para seu clímax, outro fator que diminui sua qualidade é a ausência das três Senhoras, que são os únicos elementos verdadeiramente peculiares e originais da produção — Kaling, que comunica-se apenas por meio de frases já ditas por outras pessoas por ter “ultrapassado a linguagem”, faz isso com irreverência o bastante para que o recurso não torne-se pedante (e suas referências vão de Shakespeare a Lin-Manuel Miranda); Witherspoon diverte-se ao passear entre um tom etéreo e a bruta honestidade; e, finalmente, Oprah Winfrey usa sua persona para criar uma personagem que parece conhecer o universo inteiro.

Em termos técnicos, as Senhoras novamente se destacam — é divertido perceber como seus visuais deslumbrantes e repletos de detalhes, das roupas à maquiagem, são alterados de uma cena a outra sem qualquer alarde. Mas, se DuVernay emprega cores vibrantes nos cenários espaciais, trazendo energia aos planos e diferenciando bem cada ambiente, é uma pena que esses planetas limitem-se a trazer paisagens deslumbrantes ou decadentes e algumas belas criaturas, sem realmente fazer algo de ousado. Dessa forma, o fascínio pelo que vemos em tela depende majoritariamente das expressões e reações encantadas dos personagens, e não de algo que o filme realmente desperte no público. Pelo menos, o talento de DuVernay floresce na hora de conduzir a narrativa, já que ela cria planos cuidadosamente pensados e que trazem peso emocional aos acontecimentos, como os closes no rosto expressivo de Storm Reid ou a distância que separa Meg e Calvin em um riacho.

Uma Dobra no Tempo é despido de qualquer cinismo, e isso é admirável, especialmente considerando o público-alvo da obra. Conduzido por uma protagonista complexa e de grande importância, a narrativa reconhece a necessidade de abraçarmos nossos defeitos, que também são parte de nós. Entretanto, o próprio longa não entende muito bem os pontos em que deixa seus problemas tornarem-se maiores do que suas boas qualidades, especialmente em seu terceiro ato, o que enfraquece a impressão que fica na mente do espectador.


“A Wrinkle In Time” (EUA, 2018), escrito por Jennifer Lee e Jeff Stockwell a partir do livro de Madeleine L’Engle, dirigido por Ava DuVernay, com Storm Reid, Oprah Winfrey, Reese Witherspoon, Mindy Kaling, Chris Pine, Gugu Mbatha-Raw, Levi Miller, Deric McCabe, Zach Galifianakis, Michael Peña, André Holland, Rowan Blanchard, Bellamy Young e David Oyelowo.


Trailer – Uma Dobra no tempo

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