Um Homem Chamado Ove é um filme extremamente fácil de se ver. Indicado ao Oscar por filme estrangeiro e maquiagem, acaba sendo paradoxal ver um filme que se esforça tanto em ser tão agradável sobre um homem que parece fazer de tudo para não o ser.

A história é simples, mas vai se desenvolvendo aos poucos. Ove (Rolf Lassgård) é um viúvo que mora em um grupo de casas que trata como seu, onde todo dia a primeira coisa que faz é sua “ronda matinal”, percorrendo o condomínio se atentando a infrações mínimas do regulamento e as tratando de forma inflexível (como estacionar carros fora da faixa em uma garagem absurdamente grande), por mais simpáticos que seus vizinhos pareçam e por mais que eles não deem a mínima. A história começa e termina conm essa criatura grotesca, ríspida e solitária, mas em algum momento acabamos de alguma forma nos simpatizado com o sujeito. E não é por simples pena.

Mas poderia ser. Logo no começo ele é dispensado do seu emprego de 43 anos por dois garotos (e seus laptops), ganhando uma pá de presente pelos seus serviços (a comédia sueca às vezes consegue ser mórbida e ao mesmo tempo ácida). Faltando apenas isso para a conclusão de sua simples vida, ele compra uma corda e pretende se suicidar, mas ele não consegue, pois sempre que tenta, seus vizinhos acabam incomodando-o de uma forma ou de outra. Se no início é sutil, aos poucos fica claro que Ove é uma pessoa de bom coração, e querer ajudar e ser honesto não está apenas em seu DNA, mas de sua amada e finada esposa, Sonja (a estonteante, ainda que envelhecida por maquiagem, Ida Engvoll), cujo túmulo ele visita todos os dias.

Sim, tudo parece extremamente clichê e previsível, mas é nas entrelinhas que existe um grande filme sabotado pelos seus esforços em se vender como bonitinho. Note, por exemplo, como a única pessoa inteligente em torno dele é sua nova vizinha imigrante, Parvaneh (Bahar Pars), que se casou com um marido sueco e estúpido, apesar de ter bom coração. Todas as outras pessoas no filme são simples e relapsas demais para o convívio de Ove, e ao olharmos para a mensagem de “uma geração que está morrendo” entenderemos a crítica do filme para a crescente falta de cérebros (e, mais importante, integridade) em detrimento de excesso de comodismo. Uma das marcas mais atuais da história sueca(e por que não de praticamente quase todo o mundo!).

Um Homem Chamado Ove Crítica

Dessa forma, é fácil simpatizar com Ove desde o começo se você possui as mesmas convicções a respeito da realidade, mas caso não seja o caso, não tem problema. Todo o resto do filme irá tentar vender a ideia que ser “um Ove da vida” é apenas ser uma pessoa difícil de conviver, mas que entenderemos melhor através de flashbacks de toda sua vida. Afinal, se ele pretende se matar e mal o conhecemos, nada como voltar para momentos-chave de sua existência para tentar entender o que se passa por trás dessa pessoa tão intransigente, ainda que íntegra até os ossos.

E ao mesmo tempo teremos o outro lado, a visão de que as pessoas em volta são inexplicavelmente boas para um ser desagradável. O motivo parece girar em torno da simples pena, provavelmente. O que é triste, mas ao mesmo tempo inevitável, já que o filme insiste em tratar aquelas pessoas apenas como marionetes prontas para contracenar alguma cena que irá engrandecer mais o protagonista, ainda que não necessariamente ligadas a qualquer fio narrativo exceto as tentativas de suicídio do protagonista, em uma sequência repetitiva e previsível. Isso parece ser fruto de uma tentativa de adaptação do romance de Fredrik Backman pelo diretor/roteirista Hannes Holm que tenta inserir todas essas e as situações aparentemente relevantes para a história em um bolo que torna o filme episódico na maioria do tempo.

Exagerado em sua estilização, embora seja agradável observar como a direção de arte mantém o tempo presente sempre coberto de uma fina camada de cinza azulado (sugerindo não apenas o isolamento emocional de Ove, mas a tristeza que tomou conta de sua vida desde a morte da esposa), enquanto os flashbacks de seu passado estão iluminados e cheio de cores – principalmente os tons de vermelho de sua mulher – a sensação geral é do filme ter sempre errado a mão aqui e ali. Ora exagerando o romance (o que torna Sonja apaixonada por ele?), outros momentos exagerando no drama (um boletim de notas altas cheio de sangue), e até exagerando a comédia (a rivalidade com seu melhor amigo por causa das marcas de seus carros), sem contar exagerando também na trilha sonora (constante e repetitiva, nunca nos leva a entender direito as mudanças entre passado e presente). Ainda assim, tudo é exagerado em uma medida milimetricamente calculada; apenas o suficiente para ser palatável, pagando o preço de se tornar formuláico.

Ainda que entre as atuações as mais óbvias girem em torno do Ove de Rolf Lassgård, que é intenso e não se dá ao luxo de fugir de sua monotonia unidimensional em nenhum momento do longa, e de sua amiga Parvaneh, interpretada pela bela Bahar Pars de uma maneira iluminada, divertida (e o ponto de equilíbrio de fato do filme), gosto particularmente de Ida Engvoll em seu papel minúsculo (embora importante) da amada Sonja. Ida não precisa fazer ou falar praticamente nada para dizer a que veio. Uma interpretação econômica em meio a tantos exageros chega a soar mas simpático por contraste.


“En Man Som Heter Ove” (Sue, 2015), escrito por Hannes Holm, Fredrik Backman, dirigido por Hannes Holm, com Rolf Lassgård, Bahar Pars, Filip Berg, Ida Engvoll, Tobias Almborg


Trailer – Um Homem Chamado Ove

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