Refilmagem de Como Possuir Lissu, estrelado por Michael Caine e Shirley McLaine em 1966, Um Golpe Perfeito, em vários momentos, parece que se mostrará surpreendente. Michael Hoffman e os Irmãos Coen (que assinam o roteiro), porém, trazem um um-golpe-perfeito-posterbom elenco em uma comédia pouco charmosa e raramente engraçada.

Harry Deane (Colin Firth) é um especialista em arte impressionista que trabalha para o arrogante multimilionário Lionel Shahbandar (Alan Rickman). Esperando arrancar 12 milhões de libras de seu chefe, ele arma um golpe para vender a ele um falso Monet, trazendo para o plano a texana PJ Puznowski (Cameron Diaz), que posa de dona da pintura.

Utilizando o mesmo recurso do original de trazer Puznowski não falando até 20 minutos depois de sua primeira aparição para arquitetar uma reviravolta boba que, ilustrando a diferença entre a facilidade com que Deane imagina que seu plano funcionará e a realidade, parece mais um recurso para alongar a duração de 85 minutos do filme. Além disso, sem sentido, já que a “caipirice” da personagem, ocultada na primeira exposição, não é a causa de nenhuma das complicações do desenrolar da trama.

Assim, é até surpreendente que a texana seja uma personagem bem construída, especialmente quando comparada às outras figuras do longa, e bem tratada pelo roteiro. Sim, Cameron Diaz exagera nos maneirismos e no sotaque caipira forçado, mas Puznowski é uma mulher decidida e, mesmo sendo do interior, não é nada ingênua ou ignorante. Quando o especialista em arte rival de Deane, Zaidenweber (Stanley Tucci, ainda mais exagerado que Diaz) menciona que é fluente em oito línguas, além do dialeto da internet, ela e responde: “Eu depeno galinhas. Não tenho que ficar tweetando e blogando.” ao invés de agir como se não soubesse nada de internet. Ela não hesita, também, em assumir que o dinheiro de Shahbandar o tornam atraente para ela e, mesmo insistente, este respeita a decisão dela de não ir para a cama com ele. Além disso, como única personagem feminina importante, também não é reduzida a simplesmente ser o interesse romântico do protagonista. Um resultado que tampouco recorre a gags sobre a garota-pobre-conhecendo-a-riqueza ou agindo como se pessoas simples não soubessem se comportar em sociedade.

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Já Colin Firth faz o que pode com o material que lhe é dado, e constrói Deane como um homem impulsivo e que frequentemente age antes de pensar (como na dolorosamente longa sequência em que ele fica preso no hotel após tentar roubar um vaso) e constantemente parece um sujeito fraco. Alan Rickman, por outro lado, interpreta no piloto automático um personagem que o filme parece julgar marcante. Por sua vez, Tom Courtenay fica preso a um personagem que nunca nos é permitido conhecer, apesar de (desnecessariamente) atuar como narrador da história.

A edição rápida e eficiente, a trilha sonora e as tentativas de golpe dão o clima das comédias dos anos 60, mas a falta de foco do roteiro, que transita entre um humor mais simples, “família”, e o humor negro, acaba impedindo voos maiores. As cenas envolvendo o grupo de japoneses, por exemplo, poderiam estar em qualquer filme da Sessão da Tarde.

O final esperto e, de certa forma, surpreendente, é o que ajuda a manter o filme na mente do espectador após a sessão, porque, mesmo sendo inofensivo e sem ter momentos completamente embaraçosos, Um Golpe Perfeito é descartável e nunca alcança suas pretensões.


Gambit, escrito por  Joel e Ethan Coen, dirigido por Michael Hoffman, com Colin Firth, Cameron Diaz, Alan Rickman, Stanley Tucci e Tom Courtenay.


Trailer do Filme Um Golpe Perfeito

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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