Ultimato é a maior bilheteria do cinema… e agora?


Um tempo atrás disse que iria me retratar publicamente se eu não estivesse certo com meu texto que apontava que Vingadores: Ultimato não iria se tornar a maior bilheteria da história do cinema. Aconteceu. Portanto, fica aqui meu oficial “eu errei”.

Mas o que isso quer dizer? Não eu ser cobrado de uma retratação, afinal ninguém mais lembra do que eu falei dois meses atrás, mas o que significa ser a maior bilheteria da história. E a resposta é triste, mas é importante que seja dita: Nada.

E mais uma vez é bom lembrar que vou falar somente de mercado americano, para assim termos uma ideia mais coerente dos números, que acabam refletindo perfeitamente bem o resto do mundo.

Com nove semana em cartaz Ultimato chegou bem perto de Avatar, mas estava sendo exibido em apenas pouco mais de 900 salas. Em um suspiro final (que eu já previa no meu texto), com cara de desespero, a Disney preferiu sacrificar sua obra a permanecer em segundo, mesmo que, repetindo (e depois a gente entra nesse assunto), isso não signifique nada.

Alguns minutos de cenas foram colocados no filme, assim como um extra no final e até uma prévia de Homem-Aranha: Longe de Casa. E não pense que eu acho isso algum tipo de “tentativa covarde”, não é, mas é sim uma tentativa vazia. Ultimato estava pronto, foi lançado, culminou para uma geração inteira a experiência de 22 filmes. Chegou ao segundo lugar das maiores bilheterias da história, sozinho. E isso é perfeito para coroar todo esforço.

O impacto do lançamento triplicou as bilheterias, mas isso não queria mais dizer algumas centenas de milhões de dólares, mas apenas pouco mais de US$ 8 milhões, que na semana seguinte virou quatro, depois três… dois… e agora um. Na próxima semana deve ser um valor tão irrisório que já será esquecido ao mesmo tempo que chega na casa das pessoas via DVD/BD e streaming.

Quando Avatar atingiu a marca de pouco mais de US$ 1 milhão semanalmente nas bilheterias, ainda permaneceu em cartaz por mais 15 semanas. Alguém acredita que Vingadores ainda estará em cartaz em dezembro? Não, né.

E isso não é um problema, é apenas uma constatação que Vingadores: Ultimato chega a sua nona semana em cartaz como o maior filme do ano e um dos maiores fenômenos midiáticos do século 21 (quiçá do cinema!), mas acabará sua carreira nos cinemas como um garotinho mimado que chora no meio do corredor de brinquedos porquê quer um boneco do Hulk que fala “Hulk Esmaga” e não o faz equações complexas. Tudo bem, também prefiro o primeiro, mas é o segundo que os Irmãos Russo decidiram colocar no filme… no filme deles, não no seu.

E talvez esse seja o problema, um desespero de um público fiel além do saudável que não gosta de cinema, nem de super-heróis, só do MCU e da Marvel. Um séquito sem bom senso que talvez veja Vikings demais e acha que a ideia é apenas pilhar e matar. Um público tóxico que não suporta ver seus personagens mudados e torce para que a DC não faça filmes bons, já que ele se sentem em um estádio gritando acefalamente o nome de uma marca. E se isso já é complicado de racionalizar com esportes, imagina quando estamos falando de um CNPJ.

Sim, a Marvel mudou minha vida, não aprendi a ler com Cebolinha, Magali e cia, mas sim com Stan Lee e Superaventuras Marvel, portanto eu sei o que é ter a vida mudada por esses personagens. Mas é preciso distanciamento e não fazer disso uma obsessão sem limites. Os fãs do MCU ficaram por dois meses contando os dólares para o momento onde iriam “chegar em primeiro”. Mas não algo saudável, seus gritos vinham com ódio, raiva e uma necessidade de diminuir todos outros filmes, como se não fosse suficiente que Ultimato fosse o maior, era ainda preciso demonstrar que era o melhor.

Não é. Muito provavelmente não seja nem o melhor filme do semestre, muito menos do MCU e até também fica bem para trás quando o assunto são “super-heróis no cinema”.

De qualquer jeito, esse desespero desenfreado ainda surgirá novamente no segundo semestre e, depois mais perto do fim do ano, quando os fãs irão querer que Ultimato ganhe Globo de Ouro, Oscar, Nobel da Paz e Dança dos Famosos. Ou tudo isso acontece, ou “estão todo contra os Vingadores”.

A Disney sabia disso, talvez a Marvel já estivesse pensando em outras coisas, mas a Disney sabia que poderia usar esse exército encabrestado para fazer o filme se tornar a maior bilheteria da história. Muito provavelmente ela fará a mesma coisa com Avatar perto do lançamento do segundo filme e os azulzinhos de James Cameron talvez voltem ao topo. Sim, Avatar era da Fox, consequentemente agora é da Disney e muita gente nem percebeu isso.

Essa “maior bilheteria” não significa nada não por não ser real ou qualquer desculpa do tipo, ela é real, os números estão lá e isso não será tirado nunca mais de Vingadores: Ultimato. A questão é, para que? O que esses fãs farão agora? Qual serão suas próximas brigas? Quantos bons filmes perderam enquanto estavam nas ruas espalhando suas palavras?

Das cinquenta maiores bilheterias da história do cinema, somente três delas são de filmes anteriores ao ano 2000. Indo mais além, Star Wars, o primeiro de 1977, é a 94ª maior bilheteria, seguido de Guardiões da Galáxia em 95º. Na mesma página, em 89º, está Velozes e Furiosos 6. Todos esses estão atrás de Minions, que é a 20ª maior bilheteria da história do cinema. Agora faça um exercício e tente imaginar quais desses filmes ainda será lembrados e discutido daqui a 10 anos.

Avatar mudou a história do cinema dez anos atrás. A história nem é lá essas coisas, mas mostrou mais uma vez a uma indústria que era possível fazer material original e, ainda assim, estourar nas bilheterias. James Cameron mostrou para o público do cinema que ainda era possível sonhar com novos mudos, personagens e uma imersão única.

Curiosamente, um ano antes, em 2008, a própria Marvel tinha feito o mesmo com Homem de Ferro, mostrou que não existiam limites para levar para as telas alguns dos mais famosos personagens da Marvel em um mesmo universo. Era possível levar para os fãs de cinema aquilo que fez gerações e gerações de leitores se apaixonarem pela Marvel desde os anos 60.

Homem de Ferro é 163º maior bilheteria da história do cinema. E isso poderia estar escrito tudo em letras maiúsculas, já que sua importância é tão grande, senão maior, quanto da maior bilheteria. E o que isso quer dizer? Nada. Não são os números que dizem, mas o legado. Não são um bando de fãs sanguinários por escalpos digitais que levaram nenhum filme para lugar nenhum e muito menos tiraram ninguém de posição qualquer, é a história que irá fazer isso. Um filme, seja com o vilão roxo ou com os heróis azuis é apenas um detalhe dentro desse organismo maior chamado cinema.

Talvez eu tenha errado nas minhas previsões, mas o cinema nunca erra.

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