De longe, Tudo e Todas as Coisas parece uma adaptação bonitinha, simpática, até mesmo acima da média em aspectos como elenco e linguagem cinematográfica. Entretanto, conforme avançamos pela trama que se torna mais óbvia a cada minuto, o filme começa a apresentar facetas que efetivamente acabam com qualquer qualidade que tenha apresentado até então.

Prestes a completar 18 anos, Maddy Whittier (Amandla Stenberg) nunca saiu da casa completamente esterilizada em que vive, ela sofre de imunodeficiência combinada severa, ou seja, todas as bactérias e vírus do mundo exterior são uma ameaça gigantesca a sua vida. Para manter a garota em segurança, sua mãe, a Dra. Pauline Whittier (Anika Noni Rose) construiu uma casa desenhada especialmente para oferecer a Maddy toda a segurança e proteção de que ela precisa. Até que a jovem começa a se aproximar cada vez mais de Olly Bright (Nick Robinson), o garoto que acabou de se mudar para a casa ao lado. Conforme os dois se envolvem, Maddy começa a refletir sobre sua condição e os riscos que está disposta a correr em nome desse relacionamento.

Amandla Stenberg é uma atriz carismática, com isso faz de Maddy uma garota inteligente e doce. Nick Robinson, por sua vez, não tem muito a oferecer, mas pelo menos reconhece que o papel de Olly é, principalmente, o de desenvolver o arco dramático da protagonista (em uma espécie de reversão do estereótipo da “Manic Pixie Dream Girl”). Anika Noni Rose tem alguns bons momentos como a mãe de Maddy e, antes que o filme se auto-sabote, é bom ver uma mulher negra como uma médica bem sucedida e mãe atenciosa.

Aliás, a inclusão do elenco é uma das melhores qualidades do filme: apesar do sucesso das adaptações de livros young adult, o nicho continua majoritariamente branco. As histórias YA com protagonistas de outras etnias dificilmente chegam aos cinemas e, portanto, é importante reconhecer a importância de termos uma família de mulheres negras e outra de latinas ocupando a telona. Da mesma forma, merece destaque o fato de que o livro homônimo que o roteiro de J. Mills Goodloe adapta foi escrito por uma autora negra, Nicola Yoon, e que sua adaptação foi comandada pela diretora — e também negra — Stella Meghie.

Meghie, aliás, faz um trabalho competente de estabelecer a atmosfera de Tudo e Todas as Coisas, refleteindo diretamente a personalidade e os pensamentos de Maddy. Segura quanto à estética do filme, a diretora mostra-se particularmente inspirada na forma que encontrou para trazer dinamismo e originalidade às noites que Maddy e Olly passam em claro enquanto trocam mensagens de texto. Ali, as maquetes produzidas pela protagonista para seu curso online de arquitetura ganham vida e tornam-se cenário para as conversas dos dois que, na vida real, devem manter-se em espaços separados para não arriscar a saúde da garota.

Pelo menos, não inicialmente. Conforme a trama avança e o encantamento dos jovens um pelo outro aumenta, Maddy passa a arriscar-se cada vez mais em nome de seu desejo de estar com Olly e de viver sua vida fora do confinamento da casa em que cresceu. E é aí que o filme começa a desmoronar, quando mostra-se como mais um exemplo de obra fictícia que usa uma doença que afeta pessoas reais apenas como um recurso barato, utilizado de maneira pouco realista ou ao menos verossímil para permitir que o roteiro siga adiante.

[Atenção! Os parágrafos a seguir contêm spoilers!] Pois Tudo e Todas as Coisas não é a história de uma garota com imunodeficiência combinada severa, mas sim a de uma vítima da “Síndrome de Münchhausen” que aflige sua mãe após perder o marido e o filho mais velho em um terrível acidente de carro. Apavorada pela possibilidade de perder também a pequena Maddy, quando ela adoece ainda bebê, Pauline aproveita a oportunidade para diagnosticar a própria filha com uma forma particularmente rara da imunodeficiência, obrigando-a a permanecer trancada dentro de casa para impedir que qualquer coisa possa machucá-la.

Tudo e Todas as Coisas Crítica

Após uma idílica viagem ao Havaí ao lado de Olly, Maddy adoece e vai parar na emergência de um hospital. Isso acaba levando a garota a descobrir que ela não tem nenhuma doença, apenas um sistema imunológico particularmente fraco por não ter sido exposto a nada que o ameaçasse. Entretanto, o espectador já poderia ter adivinhado a reviravolta praticamente desde o início do filme. Afinal, quando vemos Maddy se sentindo mal durante o segundo ato, sua fraqueza e recuperação são praticamente irrisórias, chegando e partindo sem deixar marca alguma — e o mesmo acontece com sua condição consideravelmente mais grave depois da viagem.

Porque a verdade é que, assim como A Culpa é das Estrelas fez recentemente, Tudo e Todas as Coisas não está nem um pouco interessado em explorar a realidade de uma garota cronicamente doente, apenas de usar uma doença com alto potencial dramático para tentar trazer algum elemento marcante a sua trama (quem quer ler uma história de amor entre dois adolescentes que não correm o risco de cair mortos a cada segundo, não é mesmo?!?). Assim, a doença é mencionada o tempo todo, mas jamais se mostra: Maddy é uma garota linda, forte, capaz e com aparência perfeitamente saudável. Enquanto isso, a doença mental de sua mãe surge apenas como plot twist e jamais é explorada seriamente.

Mas o pior é, provavelmente, o fato de que o final feliz de Maddy está diretamente ligado a uma “cura milagrosa”, o fato de sua doença ser uma mentira. Livre do fardo que a aprisionava, ela agora pode “viver, e não apenas existir” e correr atrás de seu amor. Enquanto isso, no mundo real, milhões de pessoas doentes e/ou com necessidades especiais realizam a façanha de “viver, e não apenas existir” enquanto convivem com suas condições físicas e de saúde.
[Fim dos spoilers!]

Cuidadoso ao passar a inserir músicas não-incidentais apenas depois que Maddy deixa sua casa (gosto particularmente do uso de “Sound & Color”, do Alabama Shakes), Tudo e Todas as Coisas também se sai bem em estabelecer que, mesmo que Olly seja o catalisador, Maddy tem ambições e sonhos independentes do garoto. Mesmo assim, o filme tende a se entregar a diálogos que parecem claramente saídos do livro, mas que soam um tanto cafonas na tela (“Você é como uma princesa em seu castelo” / “Eu não sou uma princesa” / “Que bom, porque eu não sou um príncipe”). Da mesma forma, a narração de Maddy leva o roteiro a verbalizar aquilo que já havia sido perfeitamente demonstrado, como quando, já na conclusão do longa, a protagonista repete tudo o que a mãe havia acabado de lhe contar.

Com qualidades pontuais que o colocam acima de outras adaptações YA que parecem acreditar que levar livros populares de qualquer jeito para o cinema é o suficiente para atrair o público, Tudo e Todas as Coisas nos apresenta a uma protagonista interessante e com personalidade bem definida, mas tudo isso é desperdiçado por sua premissa preguiçosa. Assim, o filme se estabelece como apenas mais uma história que trilha caminhos fáceis e irresponsáveis para tentar imprimir drama e urgência à narrativa.


“Everything, Everything” (EUA, 2017), escrito por J. Mills Goodloe a partir do livro de Nicola Yoon, dirigido por Stella Meghie, com Amandla Stenberg, Nick Robinson, Anika Noni Rose, Ana de la Reguera, Danube Hermosillo, Taylor Hickson, Dan Payne, Fiona Loewi e Sage Brocklebank.


Trailer – Tudo e Todas as Coisas

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