No fim de Trovão Tropical, um personagem pergunta a outro o que teria acontecido ali, essa mesma pergunta leva o espectador a tirar a mesma conclusão que o questionado: quase um grande ponto de interrogação estampado na testa. Não uma falta de entendimento à lá David Lynch, mas uma ao melhor estilo Monty Python.

Dirigido por Ben Stiller, que fez ótimos trabalhos na cadeira de diretor em O Pentelho e Zoolander, agora, mais uma vez, aposta no mesmo humor negro e irônico que colocou nesses dois filmes, e acerta na mosca. É impossível não sair da sessão de Trovão Tropical quase cansado de tanto dar risadas.

No filme, o próprio Stiller é Tug Speedman, astro de filme de ação em Hollywood, que se junta a Jeff Portnoy (Jack Black), blockbuster de comédias repletas de escatologias e Kirk Lazarus (Robert Downey Jr.), australiano ganhador de uma cacetada de premios, o quinteto, que ainda conta com Alpa Chino (Brandon T. Jackson), rapper famoso, e extremamente sexista que agora decidiu se tornar ator, e Kevin Sandusky (Jay Baruchel), o novato no cinema, se junta para estrelar o maior épico de guerra da história de Hollywood, pelo menos é que eles pensam, mas que acabam no meio de um narco-conflito quando o diretor britânico Damien Cockburn (Steve Coogan) resolve tornar o filme mais “realista”.

Stiller é perfeito quando, diante disso, faz uma critica insandecida a toda Hollywood e sua industria do cinema, sua mesmice, sua autofagia de assuntos e suas infitas sequencias, seus atores de ação tentanto papeis sérios, seus rappers marqueteiros virando atores, suas comédias flatulentas, seus premiadíssimos atores australianos e é claro seus produtores inescrupulosos.

A grande sacada do diretor, que ainda escreveu o roteiro com Justin Theroux (rosto conhecido como ator, mas não como roteirista) e Ethan Coen (não um dos irmãos), é jogar todo essas criticas dentro da história, mais como pano de fundo dos personagens, como seus contextos, do que, necessariamente, esfregado na cara do espectador. Fazendo com que se crie espaço para que todos se divertam achando essas (e mais um monte de outras) citações.

Os três parecem saber rir do mundo que vivem, e para isso, não tem medo de passar por cima de nada, e muito menos de ofender ninguém. Momentos hilários, como a discussão entre Speedman e Lazarus e o porque de um ator interpretando um personagem totalmente “retardado” nunca ganhar o Oscar, já que a academia só premia as interpretações de meio “retardados” pode parecer o ápice da falta de respeito, mas cabe como uma luva em um filme onde nada ali merece ser levado à sério. Do mesmo jeito que, provavelmente, a primeira luta contra um panda, que acaba com ele levando a pior de um jeito sengrento, em outros momentos ganharia ares ofensivos, mas o ótimo trabalho de apontar o filme para essa insanidade faz desses, alguns de vários momentos hilariantes.

Mas talvez, o filme não funcionasse tão bem se não fosse o Kirk Lazarus de Robert Downey Jr, que, para conseguir o papel, se submete a um procedimento de mudança de cor, se tornando um “afro-americano” e se jogando totalmente

Trovão Tropical

dentro do personagem, na verdade se perdendo dentro dele. Kirk Lazarus some por trás do soldado negro, e Downey Jr desaparece por trás dos dois. Além de todos maneirismos exagerados ( criados na sua maioria pelo próprio cinema), Downey ainda cria um personagem tão enigmático (ou insano, como você preferir) que assusta. Repleto de frase de efeitos sem sentido nenhum, com um olhar esbugalhado meio enlouquecido e totalmente espetacular. Kirk Lazarus “não lê o roteiro, o roteiro lê ele”, e o espectador não entende nada.

Por outro lado, mesmo com o resto do elenco afiado, e totalmente a vontade, contando com nomes como Nick Nolte, Matthew McConaughey e algumas outras participações especiais, Jack Black é o único que ainda parece forçar um pouco uma interpretação caricata e por isso mesmo acaba em terceiro plano dentro do filme, mas ainda assim não passando nem perto de prejudicar o filme, já que o roteiro o ajuda com algumas tiradas muito bem colocadas, como em sua crise de abstinência.

Mas talvez a maior surpresa do filme, seja o melhor, e talvez único, bom trabalho de Tom Cruise no cinema nos últimos anos. No papel do produtor de Hollywood que consegue dar um novo sentido a expressão mau-carater. Recoberto por uma maquiagem, o deixando quase irreconhecível, xingando e ofendendo todos ao seu redor, mostra que talvez o galã já tenha passado da hora de rir um pouco de si mesmo. Além de criar uma dancinha da vitória cheia de estilo, que vai causar pesadelos em muita gente.

No que se propões a ser, uma comédia descarada ou algo como um Monty Python encontra Platoon, Trovão Tropical se torna um exercício inteligente de como fingir ser sério diante do absurdo. Não vai ser você que vai ver Trovão Tropical mas sim o Trovão Tropical que vai ver você! (mesmo que de jeito nenhum dessa frase possa ter sentido).

Uma dica para quem não viu o filme (e um desafio), é procurar os trailers e as biografias fictícias dos personagens na internet, e mesmo assim ainda tentar não ficar com vontade de ir correndo ver o filme de verdade.


Tropic Thunder (EUA, 2008) escrito por Ben Stiller, Justin Theroux, Etan Cohen, dirigido por Ben Stiller, com Ben Stiller, Robert Downey Jr, Jack Black, Steve Coogan, Brandon T. Jackson, Nick Nolte e Tom Cruise.


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