Troca de Rainhas | Pelo menos é bonito

Troca de Rainhas Filme

Troca de Rainhas descreve um momento pontual e peculiar da história da monarquia, de maneira burocrática e estática, quase parando. Os eventos se sucedem lentamente e seus personagens já sabem automaticamente o que fazer, pois “assim está escrito”. Sim, são as tradições os verdadeiros monarcas: rituais que ordenam que crianças se casem para evitar guerras desnecessárias. As tradições atravessaram séculos imunes, sob as maiores adversidades, e sabem mais que qualquer rei ou rainha que já passou pela coroa o que deve ser feito.

Dessa forma, é muito didático que nesta passagem de bastões as crianças e jovens sejam “protagonistas”. Tendo grande poder ao mesmo tempo que nenhum, elas devem agir conforme os adultos ordenam (estes também, automaticamente) e perdem a juventude quase de graça, pois é tudo simbólico sob o ambiente pré-puberdade dos nobrezinhos. A ocasião é na França, 1721. Seu regente (Olivier Gourmet), querendo terminar a guerra com a Espanha, oferece um casamento duplo entre suas famílias, todas crianças entre 4 e 14 anos.

Inicialmente se torna curioso observar como cada jovem se comporta de maneira diferente diante do fardo de comandar um país ou ser a esposa do comandante. Enquanto os espanhóis buscam encarar seu destino da melhor maneira que acharam, os franceses são a parte revoltada da equação. Mas, como veremos, desejos humanos são muito estéreis quando se trata de seguir a lei de um país que não tem mais recursos para mandar seus súditos roubar e saquear seus vizinhos.

Apesar de constituído por personagens sem a menor empatia, e ser muito incerta a posição do protagonista da história, a cereja do bolo sem dúvida é a pequena Maria Anna Victoria (Juliane Lepoureau), uma menina de quatro anos e bochechas coradas, que é tirada do seu mundo de bonecas para se tornar a esposa de faz de conta, o que nos traz uma sensação de cumplicidade com o horrível. Nós sabemos que uma criança vai levar as coisas com a seriedade de uma brincadeira, mas também sabemos que os adultos farão o mesmo. Só que os adultos levam a vida a sério demais. Difícil saber se a criança comprou toda proposta ou, o mais provável, ela sempre estará em seu próprio mundo. Ela é delicada e sua história real provavelmente uma incógnita.

A produção possui um encanto particular, que é usar trilha sonora apenas quando algum evento é concretizado. Todo o resto é apenas o silêncio sepulcral dos castelos, em um clima de luto e em uma edição de som que nos deixa ainda menos à vontade, com passos pesados no assoalho de madeira. O resultado é particularmente desagradável quando ouvimos exemplos de crueldade vinda da boca das crianças, que possuem um status que lhes permitem agir sem consequências ao mesmo tempo em que não possuem malícia o suficiente para se desvencilhar do controle absoluto de seus regentes. É vilania inocente que nenhuma música conseguiria capturar.

Aliado a isso, note como a câmera no início insiste em nos apresentar a posição dos criados como testemunhas de tudo que ocorre em família. Em determinado momento a avó de uma das jovens pede sua cadeira de urinol à mesa de jantar e começa a discursar sobre o que sua neta deve fazer para salvar seu país. A cena se torna um momento íntimo no começo, pois apenas vemos as duas à mesa, para apenas no final o plano se abrir e vermos atrás delas meia-dúzia de serviçais. As aparências de momento comum aliada a uma pomposidade da família real nos entrega a melhor dissonância com a realidade do filme.

Ambientado em diversas locações apresentadas junto com a data e os eventos, Troca de Rainhas poderia ser uma inspirada e crítica visita a uma época onde os costumes eram muito diferentes dos atuais, mas se transforma em um diário de bordo em forma de filme com pouco ou nada a oferecer no quesito criatividade. Pelo menos é bonito.


“L’échange des princesses” (Fra, Bel, 2017), escrito por Marc Dugain e Chantal Thomas, dirigido por Marc Dugain, com Lambert Wilson, Anamaria Vartolomei, Olivier Gourmet, Catherine Mouchet, Kacey Mottet Klein, Igor van Dessel, Juliane Lepoureau, Patrick Descamps, Thomas Mustin.


Trailer – Troca de Rainhas

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