Depois de ter o “gostinho” de ver uma ou outra cena do primeiro Transformers aqui e ali quando o filme era exibido na televisão, não desenvolvi o mínimo interesse de conferir os longas de Michael Bay inspirados nos brinquedos homônimos da Hasbro. Até que recebi a nobre missão de assistir a este novo Transformers: O Último Cavaleiro, quinto filme da franquia, e escrever sobre ele.

Confesso que foi difícil não entrar na sala do cinema já havendo previamente declarado que o filme é uma porcaria. Afinal, toda obra merece sua chance, e expectativas — positivas ou negativas — apenas estragam a experiência. Mas Michael Bay, muito generoso, não demorou mais do que alguns segundos para justificar minha hesitação. Depois de sofrer por intermináveis 2 horas e meia, posso declarar: Transformers: O Último Cavaleiro é uma porcaria.

O filme é tão ruim, mas tão ruim, que só pode ser proposital. É impossível que as milhares de pessoas envolvidas nesta supermegaprodução não estivessem cientes de que estavam colocando um filme terrível no mundo. E o que falar de Michael Bay, mais uma vez no comando de tudo isso? Como alguém pode fazer um filme esteticamente coeso como Armageddon para, menos de 20 anos depois, agir como se não fizesse ideia de que a linguagem cinematográfica existe?

Em O Último Cavaleiro — e, provavelmente, nos quatro filmes anteriores — é impossível encontrar um plano que dure mais do que… 5 ou 6 segundos. E mesmo nesses planos mais “longos”, a câmera praticamente não para durante a projeção inteira, nem quando Michael Bay nos mostra primeiros ou primeiríssimos planos. Isso, é claro, tira qualquer lógica, coerência ou ritmo da narrativa, que se torna apenas uma experiência irritante e exaustiva.

Mas isso acontece também devido a uma série de outros motivos, obviamente — como eu disse, Bay e sua equipe se esforçam para entregar o pior filme possível. Há os diálogos, por exemplo, igualmente ilógicos e bagunçados em seu tom. Três escritores (Art Marcum, Matt Holloway e Ken Nola) são os responsáveis pelo roteiro desta bomba, enquanto Akiva Goldsman juntou-se ao trio para conceber a história de O Último Cavaleiro. Sim, roteiros escritos a diversas mãos não costumam resultar em trabalhos muito coesos, mas este impressiona com seu nível de incompetência. Assim, somos obrigados a testemunhar o visivelmente embriagado Merlin de Stanley Tucci declarar que “Deus, estou bêbado!”, ou o Lancelot  de Martin McCreadie erguer o peito para dizer que “sem sacrifício, não há vitória” — frase que o narrador do longa havia literalmente acabado de proclamar.

Ah, e por falar em Stanley Tucci, os fãs da saga (se é que ainda há algum por aqui…) talvez se lembrem de que ele já havia aparecido em A Era da Extinção, interpretando um personagem que aqui descobrirmos ser, então, descendente direto de Merl- opa, não, ele simplesmente foi (re)escalado para viver outro papel completamente desconectado do anterior — pelo menos, até que Bay mude de ideia, já que Transformers é um desastre tão colossal que não consegue fazer sentido nem mesmo dentro de sua própria (falta de) lógica.

Transformers: O Último Cavaleiro Filme

Enquanto isso, os personagens sofrem desastrosamente nas mãos de Bay & Cia. Mark Walhberg apresenta zero charme e personalidade, mostrando-se mais estúpido, ignorante ou chato (talvez os cineastas utilizem outros termos) de acordo com as necessidades do roteiro. A principal personagem feminina do longa, a Dra. Vivian Wembley (Laura Haddock) é brilhante, coleciona diplomas, leciona em uma prestigiosa faculdade e… é sujeitada a cada cinco minutos por uma piadinha envolvendo sua solteirice. Ela rebate todas elas e, na maior parte do tempo, é uma personagem decidida, mesmo que o próprio longa não pareça respeitá-la (vide o comentário do herói do filme sobre o “vestido de stripper” dela).

Mas aí chegamos ao ponto em que Yeager cita a famosíssima frase “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”, do famosíssimo Arthur C. Clarke, e isso impressiona fortemente Vivian! Pois é, Michael Bay, os homens do cinema realmente não precisam fazer nada para serem dignos de protagonizar um filme. Ah, e temos ainda a jovem Izabella (Isabela Moner), que parece estar se esforçando ao máximo para estabelecer sua personagem como uma Bad-Ass Action Girl, algo reforçado pelo diretor. O resultado é involuntariamente cômico.

Opa, ainda nem falei da trama, que apesar de ser um fiapo, é também inexplicavelmente confusa. Não por ser complexa, obviamente, pois ela não é — mas por se mover sem ritmo ou lógica alguma e, assim, jogar elementos e conceitos na cara do espectador a todo momento, sem que saibamos sequer se algum deles é realmente importante. De qualquer modo, basta saber que há robôs alienígenas bons e maus, assim como humanos bons e maus, e que está todo mundo atrás de um cajado que tem o poder da vida. Ou algo assim. Aparentemente, esse tal cajado é um elemento novo na franquia, apesar de ser importantíssimo para a… hmm…. mitologia da saga.

Iniciando as explosões já durante a exibição do logotipo da Paramount (!!!!!), Transformers: O Último Cavaleiro traz efeitos especiais impecáveis. Ou seja, nada aquém do esperado para um blockbuster com um orçamento estimado de 217 milhões de dólares. Bumblebee é bacaninha, Optimus Prime passa por um arco dramático complexo que não recebe praticamente atenção alguma, e o robô-mordomo do personagem de Anthony Hopkins (uau, Transformers não para de surpreender: sim, Anthony Hopkins está aqui, e a coisa mais divertida que você pode fazer durante a sessão é tentar adivinhar o que está se passando na cabeça dele em cada uma de suas cenas) tem um sotaque inglês, por algum motivo, e, bom, dizer que ele é uma imitação barata de C-3PO é uma enorme ofensa ao droide.

Se você acompanha com afinco a saga Transformers nos cinemas, provavelmente vai gostar deste O Último Cavaleiro. Mas saber que ele provavelmente arrecadará 1 bilhão de dólares ao redor do mundo é o suficiente para deixar qualquer cinéfilo pra baixo.


Transformers: The Last Knight” (EUA, 2017), escrito por Art Marcum, Matt Holloway e Ken Nola, dirigido por Michael Bay, com Mark Wahlberg, Laura Haddock, Anthony Hopkins, Josh Duhamel, Santiago Cabrera, Isabela Moner, Jerrod Charmichael, Stanley Tucci, Liam Garrigan e Martin McCreadie.


Trailer – Transformers: O Último Cavaleiro

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