Se o último dia de Outubro para os Estados Unidos é dia de celebrar seus espíritos, para o resto do mundo isso se dá nos dois dia seguintes, por isso mesmo que o melhor à fazer é olhar tudo isso o mais separadamente possível e desmembrar aqui uma dezena de produções (da última década) que não falam a língua do Tio Sam, mas fazem tão bem (na maioria melhor) quanto aquelas outras dez.

 Deixe Ela Entrar (“Låt den rätte komma in”, SE, 2008)

Muito provavelmente o melhor dessa lista … e da lista de falados em inglês, e ainda de mais algumas listas de melhores da década de alguns gêneros, já que essa produção sueca extrapola totalmente essas barreiras e se instala somente sob um olhar: o de obra de arte. É lógico que o cerne acaba sendo o terror, pelo assunto tratado e pela quantidade razoável de sangue e mutilações, mas a sensibilidade com que ele anda por tudo isso é tão emocionante e sincera que é impossível não se apaixonar pela história e por seus personagens. Na trama, uma criança de 12 anos, sozinha e introspectiva, acaba ficando amigo de uma vizinha recém chegada em seu prédio (e vou parar por aqui, pois gostaria muito de ter visto o filme com um sinopse apenas desse tipo em mente). No brasil teve vida curta pelos festivais e um circuito restrito, porém a refilmagem hollywoodiana já chegou por lá (e espero que siga a risca esse original), portanto é só esperar por que logo logo o DVD/Blu-ray dá as caras na esteira do remake.


A Invasora (“À L’Interieur”, Fra, 2007)

São 83 minutos que mais parecem três horas. Três violentas, cruéis, sufocantes e acachapantes horas. Suficientes para você torcer para tudo aquilo ser um sonho …na verdade um pesadelo. A produção pode parecer econômica, mas na verdade é na medida para criar um “pequeno grande filme do gênero”. Sobre uma mãe prestes a dar a luz só tendo que “aproveitar” sua última noite de descanso antes de ir para o hospital na manhã seguinte. Definitivamente para quem tem o estomago e o coração fortes.


Martyrs (idem, Fra/Can, 2008)

Essa produção francesa de 2008 começa com uma menininha, toda machucada fugindo no meio da rua e acaba com um exercício intelectual sobre o que há depois da vida. Sendo que o importante disso tudo ainda é seu recheio de filme de terror, que ora é “torture horror” (psicológico é bom dizer), ora bebe nos franceses e suas heroínas cobertas de sangue. Martyrs é um soco no estômago, te chacoalha em um monte de surpresas e praticamente não te deixa piscar um segundo sequer. Infelizmente as distribuidoras nacionais não se interessaram por ele, que continua inédito tanto nos cinemas como nas locadoras, portanto, o único jeito é torcer para que Hollywood decida fazer um remake ou simplesmente usar de meios “mais escusos”.


Sede de Sangue (“Bakjwi”, KR, 2009)

Filme Coreano sobre um padre que, ao se oferecer para uma pesquisa na cura de uma doença contagiosa fatal, acaba, por meio de um transfusão de sangue, se tornando um vampiro. E ele está aqui não só pelo tremendo respeito com o ícone cultural, mas também pois Sede de Sangue ainda se sai perfeitamente bem ao discutir como essa “maldição” atinge cada pessoa. Além disso tudo, a direção de Chon-Wook Pak (de Old Boy e do resto de sua “trilogia da vingança”), cheia de estilo e soluções visuais criativas, só completa seu controle narrativo impressionante, tornando esse filme imprescindível não só para quem gosta do gênero, mas para todos amantes do cinema em geral.


Alta Tensão (“Haute Tension”, Fra, 2003)

Esse filme francês começa com duas amigas e termina com duas amigas, mas o que o diretor Alexandre Aja faz para ligar esses dois pontos é de gelar os ossos. Tanto pelo modo explícito com que ele trata a violência do filme, como pelo modo cru com que ele carrega a trama. E ainda que, para muitos, a surpresa no final seja a grande estrela da produção, o ponto alto dele é ver o quanto Aja vem traçando e preparando esse final desde os momentos iniciais. Serviu de passaporte para o cineasta entrar em Hollywood (Viagem Maldita, Espelhos do Medo e Piranha), mas sem, em nenhum desses, chegar nem perto desse momento genial.


Eles (“Ils”, Fra/Rom, 2006)

Ainda que no final tudo fique bem claro (bem diferente do semelhante Os Estranhos) a principal arma dessa produção francesa é deixar aquela sensação incomoda e torturante de alguém te cutucando de modo que você detesta, mas que, naquele momento, pouco pode fazer contra a situação, a não ser ver sua pressão subir e subir em uma espécie de “claustrofobia psicológica” que toma seu corpo, já que a única vontade é sair correndo daquele lugar. Talvez ainda pelo desespero de se sentir a todo tempo observado e manipulado por forças estranhas, não importa, já que, o que vale mesmo é que Eles é um daqueles filmes inesquecíveis… por mais que você tente esquecê-lo.


A Espinha do Diabo (“El espinazo del diablo”, Esp/Mex, 2001)

Antes de ficar famoso com seu Hellboy e Labirinto de Fauno o cineasta mexicano Guilermo Del Toro já dialogava livremente com a fantasia e o terror, e essa produção de 2001 é um exemplo clássico disso. Na verdade foi até esse terror fino e caprichado que deve ter chamado a atenção de Hollywood para o diretor. Nele, um orfanato no meio de “lugar nenhum” na Espanha é atormentado pela presença fantasmagórica de uma de suas crianças, assim como pela sombra da guerra civil. Ainda que, no final das contas, o filme beire um drama sobre vingança e cobiça, é com certeza a presença do pequeno fantasminha (com um visual inesquecível) que carrega a trama de um lado para outro.


O Orfanato (“El Orfanato”, Esp/Mex, 2007) leia a crítica completa

E falando no diretor mexicano, não por falta de referencias cruzadas que o próprio Del Toro deve ter produzido esse terror bem depois de ter seu nome saudado pelo cinema. Se não pela semelhança linguística, geográfica e narrativa então pela preocupação de fazer um “filme de fantasma”, mas mais preocupado em contar uma história sensível que tenta andar contra o marasmo em que Hollywood se deixou instalar dentro do gênero.


[REC] (idem, Esp, 2007)

Também vindo da Espanha, aqui porém a sutileza é varrida para longe abrindo lugar para um prédio infestado com uma espécie de vírus que tornou seus moradores algo parecido com zumbis (na verdade a sequencia até explica tudo, mas é estapafúrdia demais para ser considerado, então o melhor é se ater ao primeiro). E se não fosse só isso, o grande chamariz aqui ainda fica por conta de todo ele ser filmado pela câmera de uma reportagem de TV que acompanhava os bombeiros chamados ao local. O filme é desesperador, acelerado, sufocante e delicioso para os amantes do gênero, principalmente por darem de frente com um novo sopro de criatividade dentro do terror.


The Eye (“Gin gwai”, HKG/SGP, 2002)

Por mais que pareça ser o único “J-Horror” da lista (aquele terror vindo do Japão e famoso pelas suas refilmagens hoolywoodianas) ele não é, já que é de Hong-Kong, mas mesmo assim, bebe bastante em sua fonte, com a mesma estrutura de seu passado vindo à tona e tudo mais. Porém, aqui sob a batuta da dupla de diretores Danny e Oxyd Pang, que conseguem tirar leite de pedra do lugar comum do gênero. Além do visual sensacional, também pela vontade de sair do susto fácil e ir em direção a um terror climático, daquele que carrega o espectador pela mão para o inevitável, acompanhando a protagonista nessa nova vida onde recebe a visão e com ela a presença de um monte de outras coisas. Mas não se enganem, a refilmagem de Hollywood pode ter seus méritos, mas não chega nem aos pés da idéia original e do peso com que ela te afunda na poltrona.

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Uma resposta

  1. » NewsAqui #29

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