Winfried (Peter Simonischek) e sua filha Ines (Sandra Hüller) não se veem muito. Solitário, ele passa seus dias dando aulas de música em uma escola, cuidando de seu idoso e querido cachorro e, ocasionalmente, visitando a mãe. Enquanto isso, Ines se mudou recentemente para a Romênia, graças ao trabalho como consultora em uma empresa que planeja terceirizar grande parte de seus serviços. Quando Winfried resolve visitar a filha em Bucareste, o reencontro dos dois logo desanda e ele concorda em voltar para casa. Entra em cena Toni Erdmann, seu irreverente alter ego, que posa como life coach do chefe de Ines e passa a percorrer a cidade ao seu lado.

Esse é o cenário do terceiro longa-metragem escrito e dirigido por Maren Ade, que transita com perfeição entre os momentos dramáticos, melancólicos e divertidos de Toni Erdmann. O humor da obra funciona tão bem por ser totalmente inesperado e natural — em termos de construção técnica ou da postura dos atores, não há diferenciação alguma entre um ou outro momento. Com isso, as quase três horas de projeção jamais se tornam cansativas, pois temos constantes surpresas.

Além disso, Ade aproveita ao máximo a própria duração do filme para construir o relacionamento entre Ines e Winfried com cuidado, dando tempo para que conheçamos os personagens tanto separadamente quanto em relação um ao outro. O Winfried de Simonischek é um homem irreverente e espontâneo, sim, mas também ansioso e inseguro, algo ilustrado por sua breve hesitação antes de entregar-se a algumas piadas, como a primeira vez em que coloca a dentadura de Toni na frente dos colegas de trabalho de Ines.

Sandra Hüller constrói Ines como uma mulher se esforçando ao máximo para apresentar-se altamente profissional, segura de si e competente, enquanto esconde (ou tenta esconder) sua energia nervosa e a bagunça em que sua mente se encontra. Sim, Ines é claramente uma profissional competente, mas o ambiente e as pessoas que a cercam não contribuem para o desenvolvimento de sua carreira, enquanto a forçam a adotar posturas insinceras e a desdobrar-se para agradar as pessoas certas.

Toni Erdmann Crítica

Assim, aos poucos, Winfried e Ines vão se redescobrindo. Afinal, a relação entre os dois é cordial e sem mágoas, mas há pouco da intimidade fácil que Winfried se esforça para estabelecer. Inicialmente relutante, Ines passa a abrir um espaço cada vez maior para o pai — algo alcançado, é claro, apenas através da irreverência de Toni Erdmann. Dessa forma, os dois passam a ficar cada vez mais longe das conversas repletas de silêncios constrangedores que acompanhamos no início da projeção, enquanto a espontaneidade do comportamento dos protagonistas cresce.

Se a vida é feita de seus momentos mais importantes, pergunta-se Winfried, como aproveitá-la de verdade? “A vida apenas… passa. Mas como podemos nos agarrar a esses momentos?” Quando finalmente percebemos, os momentos já se tornaram memórias, sendo, portanto, enxergados através das lentes nem sempre confiáveis do tempo que já se passou.

Toni Erdmann é, por si só, feito de momentos. Ade desenvolve a trama com delicadeza e sinceridade, fazendo com que a soma de tudo o que aconteceu anteriormente transforme um abraço no acontecimento mais emocionante e significativo do longa. É isso, também, que faz com que uma canção e uma festa de aniversário apresentados no terceiro ato encerrem o filme com chave de ouro.

Toni Erdmann encanta com sua honestidade, irreverência e, mais do que tudo, pelo carinho sincero que sente por seus personagens. Que, em última instância, aprendem a se livrar das convenções que o próprio filme se dedicou a abandonar desde os primeiro minutos.


“Toni Erdmann” (Ale/Rom/Aus/Sui, 2016), escrito e dirigido por Maren Ade, com Sandra Hüller, Peter Simonischek, Michael Wittenborn, Thomas Loibl, Trystan Pütter, Ingrid Bisu e Hadewych Minis.


Trailer – Toni Erdmann

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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