Tolkien | Toma o caminho mais fácil


Historicamente falando, podemos dizer que Tolkien não é uma biografia sobre o escritor de Hobbit, da saga O Senhor dos Anéis e de Silmarillion. O J.R.R. Tolkien retratado no filme, como os fãs poderão facilmente apontar, é um delírio imaginado por pessoas com pesada carga ideológica.

Esta é a explicação mais plausível para esse trabalho censurado, que bloqueia a característica primordial deste autor: sua devoção ao cristianismo. (E isso sem comentar sua postura política extremamente anti-autoritária, tendendo eventualmente ao anarquismo.)

Claro que para os roteiristas David Gleeson e Stephen Beresford, envolvidos em obras que abordam temas como homossexualidade (Orgulho e Esperança, Caubóis e Anjos) ou famílias disfuncionais (“The Last of the Haussmans”), não é tarefa fácil criar o seu protagonista neste filme, que foi um ser humano, além de intelectualmente admirável, possuidor de uma retidão moral que desafia a podridão do status quo atual. O background dos autores talvez explique a razão de terem evitado tocar nos detalhes religiosos que permeiam seu personagem central, além, é claro, de preferir o caminho fácil de mostrar os horrores da guerra como a fagulha que iniciou essa visão de Tolkien sobre o que escreveria anos depois.

A consequência dessa decisão da dupla de roteiristas é descaracterizar completamente o personagem histórico, virando no filme um mero joguete de símbolos. Para conseguir refletir o significado em sua vida pregressa aos livros sobre os valores de amizade e aliança que defendia com tanto afinco, Gleeson e Beresford inventam três outros personagens que serão seus amigos de colégio. Juntos esses quatro jovens são os quatro pequenos “hobbits” que partem para uma jornada que mudaria suas vidas: a criação de uma sociedade literária.

Simplório, mas eficaz. Contudo, a relação entre o universo fantástico criado por Tolkien e sua vida real não é tão simples assim. Para ajudar a construir outros elementos os roteiristas vão compondo de maneira astuta a partir de eventos de outros momentos de sua história. Usam, por exemplo, essa busca incessante de Tolkien pelo seu companheiro no front. Sofrendo de febre de trincheira, ele é acompanhado por um fiel soldado chamado Sam, e através de delírios do jovem Tolkien que nos mostram dragões e outros elementos fantásticos pelo horizonte. Tudo em efeitos visuais ótimos para televisão mas ineficientes para o Cinema, isso enquanto ambos vão “caminhando pela Terra Média”. Uma obviedade de dar sono.

O problema de todo o projeto de Tolkien ironicamente começa em querer se inserir após um dos maiores feitos do Cinema de todos os tempos: a trilogia O Senhor dos Anéis, do diretor Peter Jackson. Ainda que mais de 15 anos depois de concluídos, os filmes ainda alimentam nosso imaginário. Se não existissem, o trabalho dirigido por Dome Karukoski se sairia particularmente bem, mesmo com seus efeitos pedestres. Porém, não se pode ignorar o impacto permanente para o público, e nada que pudesse ter sido feito estaria à altura do trabalho de Jackson e suas nove horas de filme.

Ainda assim, nos momentos que o filme se concentra na vida pessoal do escritor ele brilha. É particularmente tocante o momento em que, desafiado por sua amiga para criar uma história, Tolkien se recusa a fazer uma narrativa, mas sua descrição de um possível lugar onde existisse algo chamado “cellar door” (a expressão que ele tanto gosta) é sozinha uma narrativa e tanto. Karukoski realiza as transições entre o momento e o imaginário com extrema competência, através de giros de câmera que lembram o abrir de olhos para uma realidade até então inexistente. Essa magia por trás das palavras do futuro escritor pode ser conferida nessa memorável cena.

Além disso, seu passado como filólogo e a ponte feita entre seus estudos é descrita de maneira maravilhosa pela sua passagem com o Professor Wright, uma atuação memorável de Derek Jacobi (você também pode conferir as habilidades teatrais de Jacobi em Assassinato no Expresso do Oriente). Aliás, muito embora a persona de Tolkien seja feita com extrema desonestidade, conforme comentado, as ligações feitas entre as passagens de sua vida são montadas de uma maneira econômica no roteiro, onde um evento puxa o outro. É nessa característica tão singular de unir os eventos de um trabalho biográfico, que geralmente sofre por ter que sempre se prender em fatos históricos, que Tolkien se sai acima da média.

A caracterização cuidadosa do excelente ator Nicholas Hoult (o Nux de Mad Max: Estrada da Fúria) consegue construir um protagonista sem chamar tanta atenção para si, o que descreve com precisão a persona de alguém estudioso vivendo a aventura de sua vida: estudar mais ainda. Uma pena, portanto, que sua atuação não encontre suporte do roteiro, que prefere deixar de lado boa parte da personalidade de Tolkien, o que provavelmente deixará não apenas os fãs religiosos, mas os fãs em geral, particularmente decepcionados com a falta de coragem tão essencial nas obras do autor.


“Tolkien” (EUA, 2019), escrito por David Gleeson e Stephen Beresford, dirigido por Dome Karukoski, com Nicholas Hoult, Lily Collins, Colm Meaney.


Trailer – Tolkien

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