por Vinicius Carlos Vieira
02 de fevereiro de 2018

Muito provavelmente os anais da sétima arte lembre-se de Todo Dinheiro do Mundo como “o filme que o Ridley Scott substituiu Kevin Spacey por Christopher Plummer depois que o primeiro foi acusado de assédio e refilmou tudo em duas semanas”. Só por isso mesmo, porque no resto, tem é muita coisa a ser esquecida.

É claro que estamos falando de Ridley Scott, então, de um filme esquecível, pelo menos sobra um visual bem acima da média e um cuidado estético interessante o suficiente para fazer valer o ingresso (pelo menos em um dia com desconto ou meia entrada). Scott continua sendo um “criador de mundos”, então enquanto ele passeia por Roma no meio dos anos 70 ou quando tem uns dois flashbacks exóticos, tudo parece funcionar, pelo menos no visual.

Essas voltas no tempo que marcam o primeiro terço do filme são para posicionar o espectador dentro da vida de J. Paul Getty (Plummer), um bilionário do ramo do petróleo que praticamente inventou esse termo. O filme começa com seu neto, Paul (Charlie Plummer, que não é parente do Christopher), sendo sequestrado e se desenrola enquanto sua mãe, Gail Harris (Michelle Williams), tenta fazer de tudo para conseguir que seu ex-sogro pague o resgate de 16 milhões de dólares.

O problema, e o que fez com que todos se lembrem do caso na época (1973), é que Getty (o avô) se recusou a pagar o resgate, “ou iriam então sequestrar todos seus outros netos”. O que o faz colocar na negociação, Fletcher Case (Mark Wahlberg), um ex-agente que é responsável por sua segurança e alguns outros “trabalhos sujos”.

Mas tudo isso, por mais que pareça ser uma história interessante e cheia de reviravoltas, se deixa ser uma trama morna e desinteressante, que mantém um ritmo linear demais e parece ter a única inspiração de acompanhar os dois lados dessa história sem ir muito além disso. Scott consegue até tirar algo mais chamativo do modo como compara a frieza empresarial de Getty com a dos sequestradores, mas isso só lá bem para o fim, até lá, nada acontece de verdade.

O caso também ficou conhecido pela mutilação da orelha do sequestrado, mas nem isso chama a atenção no roteiro de David Scarpa, à partir do livro de John Person. Scarpa vem do atrapalhado roteiro do remake de O Dia Em Que A Terra Parou, o que não conta a seu favor no currículo, já que a mesma falta de condensação em favor de uma trama mais ágil se repete. Todo Dinheiro do Mundo é cumprido demais e lá para o meio, sem acontecer muita coisa, talvez você se pegue torcendo para que os sequestradores matem o jovem Getty.

Um dos problemas talvez venha com uma aparente falta de veracidade do segundo ato e até da conclusão, já que, enquanto na realidade tudo parece ter sido resolvido de modo um pouco menos melodramático, aqui, a obrigação de criar qualquer tipo de emoção, cena de ação, tensão ou surpresa, mais atrapalha do que ajuda.

Todo Dinheiro do Mundo Crítica

Pior ainda, cria um grupo de sequestradores que beira a burrice, um Getty ainda mais mal caráter (se bem que essa parte deve ser verdade) e um tal de Fletcher Case que não serve para absolutamente nada na trama inteira e está lá só para encaixar um esporro final que muda o rumo da história.

Dessa bagunça toda, Michelle Williams é talvez o único ponto do filme que preste sem ressalvas, já que ela cria essa mãe desesperada, mas de modo humano e crível, que se pega sempre de mãos atadas por um sistema que a oprime e um sogro que a trata com um desrespeito que ela transforma em combustível para uma força incrível. Ainda que, no final das contas, todo esforço dela também não sirva para nada dentro da trama, o que é um desperdício narrativo enorme.

Do lado dos bandidos, todos genéricos e sem identificação, sobra apenas para o francês Romain Duris (de De Tanto Bater Meu Coração Parou e A Espuma dos Dias) viver Cinquanta e mostrar que era sim possível aproveitar essa oportunidade para se destacar dentro do elenco.

Plummer tem também seus momentos, mas parece muito mais em um piloto automático do que se esforçando para tal resultado (para o bem de todos, o “piloto automático” dele é um dos melhores do cinema). A curiosidade fica aqui com a diferença do trabalho de Plummer, com 88 anos, para o que teria sido a caracterização de Spacey que, com 59 anos, contava com uma maquiagem pesada e uma visão muito mais fria do personagem.

E Todo Dinheiro do Mundo talvez seja lembrado só por isso mesmo, pelo diretor Ridley Scott ter todo dinheiro que precisava para cortar Spacey e refazer as duas dezenas de cenas com Plummer, tirando de seu filme a possibilidade de qualquer tipo de propaganda ruim para seu filme. Assim como Getty, Scott estava mais preocupado é com os seus lucros e a certeza de que ninguém iria se referir a seu filme como “aquele com o Spacey depois que ele foi acusado de assédio”.

De qualquer jeito, Todo Dinheiro do Mundo será lembrado por qualquer coisa, menos por suas poucas qualidades na tela.


“All the Money in The World” (EUA, 2017), escrito por David Scarpa, à partir do livro de John Pearson, dirigido por Ridley Scott, com Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Timothy Hutton, Andrew Buchan e Charlie Plummer.


Trailer – Todo Dinheiro do Mundo

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