por Vinicius Carlos Vieira
01 de março de 2018

Alguns filmes são feitos para se pensar, outras para entender, uns outros para se divertir, mas The Square – A Arte da Discórdia tem tudo isso ai e ainda se porta como um tratado conceitual que discute o ser humano e o que é essa tal de arte.

O filme sueco, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 2017 é um daqueles momentos incômodos e que deixam o espectador perdido diante do fluxo de ideias, conceitos, meia verdades e violência.

The Square começa com uma entrevista que o curador de um grande museu de Estocolmo cede para uma jornalista americana. Nela, fica ali a pergunta: será que tudo é arte só porque está dentro de um museu? O curador, Christian (Claes Bang) não responde isso para a jornalista vivida por Elizabeth Moss de modo muito claro, mas acredite, você vai pensar sobre isso no resto do filme inteiro.

A própria obra que dá nome ao filme é um quadrado de luz no chão que chama as pessoas a serem mais bondosas, o que, decididamente, não define Christian, que depois de sofrer um golpe/assalto na ida para o trabalho, passa a enfrentar em sua vida uma quase aversão por tentar ajudar as pessoas, isso e uma desconfiança profunda de tudo. Uma combinação que o vai levar para o fundo do poço.

Seu problema são disparados por esse golpe, mas sua reação faz com que uma propaganda completamente imbecil se torne “a cara” da nova exposição e acabe viralizando no Youtube, não pela razão esperada para um “museu sério”. Mas ainda que isso esteja na sinopse oficial do filme, é uma reviravolta que só acontece muito mais para o final, já que The Square quer mesmo é discutir um pouco daquilo que você não está acostumado a debater quando o assunto é arte.

E sim, tudo isso envolto em comédia onde você quase não se sente à vontade para dar risada. Quando o riso vem, carrega com ele um nervosismo e quase um embrulho no estômago. É fácil dar risada de um faxineiro “destruindo” uma obra de arte, mas a solução de Christian beira o absurdo, ainda que, durante todo o filme, cada vez que aparecesse a instalação você pensasse: “será que isso é arte?”. E para Christian, o curador desse prestigiado museu, talvez não seja.

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Ou talvez para ninguém seja. Ou seja para todos. Não existe uma resposta correta. E todas elas serão interrompidas pelo barulho da pilha de carteiras escolares tombando, ainda que elas, em uma outra instalação, continuem lá, balançando como se quisessem se livrar desse peso de estarem sendo observadas. É fácil você sentir que elas caíram, mas elas continuam lá, assim como Christian, seus atos não permitem que você acredite que ele continua ali, mas ele continua.

Até porque, a grande crítica que The Square faz a todas essas certezas, talvez esteja no constrangedor momento em que um homem com Síndrome de Tourette interrompe a entrevista de um renomado artista. E isso acontece não por qualquer tipo de tentativa de humor diante de um problema sério, mas porque nos faz lembrar que, tirando àquela primeira discussão que abre o filme, todo o resto só aponta para o vazio das palavras e a tentativa de criar um significado diante da mais pura falta de significado.

Como se a cada segundo que se passa, o filme do diretor sueco Ruben Ostlund se sentisse mais e mais à vontade para abraçar quase um surrealismo. E não estamos falando só do macaco de estimação da jornalista, mas sim até do tamanho que o arco do roubo toma. Como se a cada passo tudo fosse ficando pior e pior. E Christian, em meio ao um mar de lixo embaixo de chuva, talvez seja o sinal de que a sujeira não tem volta, e que de não adianta mais uma ligação para emudecer o chamado de “socorro”.

Assim como a intervenção envolvendo um artista fingindo ser um gorila, The Square vai longe demais. E quanto mais acumula essa carga, mais se percebe que não dá mais para sair do personagem (ou do gorila) e continuar, não existe mais volta. Christian então dirige com suas filhas e seus olhares perdidos encarando um destino tão violento e sem esperança quanto o artista que fingia ser um gorila. Ou na verdade ele realmente fosse um gorila, já que, mesmo que aquelas cadeiras não caiam, acredite, cada vez que o barulho ensurdece seus observadores, elas deixam de estar lá.

É tudo uma questão de conceito, e não é porque isso tudo está no filme que automaticamente tem o significado que eu apontei. Até porque, essa tal de arte é bem complicada.


“The Square” (Sue/Ale/Fra/Din, 2017), escrito e dirigido por Ruben Ostlund, com Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Terry Notary, Annica Liljeblad, Christopger Læssø e Alijandro Edouard.


Trailer – The Square: A Arte da Discórdia

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