Terra à Deriva | Esqueça um pouco os Estados Unidos


O terceiro filme mais visto de 2019 até agora não é estrelado por um super-herói, nem uma franquia de sucesso, muito menos é produzido em Hollywood. Terra à Deriva é Chinês, estreou em fevereiro (em “módicas” 5.781 salas locais) e até agora acumulou quase US$ 700 milhões em bilheterias, o que, muito provavelmente o colocará na lista de dez maiores bilheterias mundiais do ano.

No Brasil, assim como em grande parte do mercado ocidental, Terra à Deriva não irá resultar em nenhum dinheiro de bilheteria, já que está sendo distribuído pela Netflix. Bom para o público, que terá acesso a esse extravagante épico futurista e a oportunidade de lembrar que em se tratando de fim do mundo, os Estados Unidos não é o único lugar que sofre as consequências.

De modo prático, Terra à Deriva é um enorme filme catástrofe dirigido por alguma versão chinesa do Roland Emmerich ou do Michael Bay. Frant Gwo comanda o filme assinado por um batalhão de mãos, o que torna ainda mais curioso o filme simplesmente funcionar ao invés de ser um daqueles desastres típicos de quem se afasta de suas raízes cinematográficas para imitar o vazio existencial e patriótico de Hollywood.

Nele, o Sol já não é o mesmo e, diante de algumas mudanças e explosões, está prestes a começar sua expansão, o que colocará em risco todo sistema solar, inclusive a Terra. A solução é o Projeto Migratório, uma série de turbinas gigantes que são construídas e, quando ligadas, empurram a Terra para longe do Sol.

Jing Wu vive Liu Peiqiang, um astronauta que embarca na missão de fazer parte da tripulação dessa estação espacial que serve de guia para o caminho da Terra enquanto vaga pelo espaço. O problema é que, 17 anos depois do começo da missão, uma falha de curso faz com que o Planeta entre em rota de colisão com Júpiter, o que obriga, Peiqiang e seu filho, Qi, na Terra, a lutarem pelo destino da humanidade.

Parece exagero, e é. E talvez isso seja o melhor de Terra à Deriva, a criação desse mundo de modo a fazer sentido, já que toda humanidade agora vive em cidades subterrâneas, pois o clima parou de funcionar direito (a Terra não roda mais!), mas sem nunca perder a mão da extravagância que segue a ideia. Portanto, fica fácil se manter dentro da história, justamente, porque ela parece fazer sentido, mesmo dentro de todos absurdos.

Esse exagero ainda vem de um visual impecável, com a imensa maioria de tudo sendo resultado de imagens geradas por computador, fica fácil perceber que “Terra à Deriva” tem um cuidado especial com alguns grandes cenários, design de produção interessante e um mundo que abrace esse… exagero. Sim, tudo no filme é grande, do problema inicial à jornada que Qi precisa percorrer junto de sua irmão, seu avô e um grupo de soldados, sem contar, é claro, a estação espacial e tudo que está “fora de órbita”.

Terra à Deriva é um filme gigante, assim como qualquer filme catástrofe americano seria, portanto, por mais que não seja nada surpreendente, é também interessante ver que outros cinemas pelo mundo conseguem resultados semelhantes. E isso quer dizer, divertidamente vazios também.

Não existem muitas surpresas em Terra à Deriva, as pistas estão no começo e o roteiro bem escrito e muito melhor intencionado, recorre ao primeiro ato para fechar essa história do jeitinho que os manuais de escrita pelo mundo te mandam fazer. Talvez isso traga alguns problemas, como alguns flashbacks desnecessários ou discursos motivacionais em meio a tragédias, mas absolutamente nada que ninguém já não tenha visto em outros filmes.

Esses lugares comuns habitam Terra à Deriva com a mesma facilidade que estão em 90% do resto do gênero, a diferença é que aqui, talvez pelo receio de não ter uma segunda oportunidade de usá-los, tudo é explorado de uma vez só. Close nas balas caindo, robô meio sociopata que comanda a estação e é representado por um círculo vermelho, muitos sacrifícios finais, uma ideia estapafúrdia que salvará todo mundo, patriotismo exacerbado, enfim, todos os detalhes que os fãs de filmes catástrofe/ação procuram.

Junte isso a um diretor que, realmente está em busca de um visual interessante e movimentos marcantes (tem alguns planos sem cortes que atravessam objetivos e até um que sai da Terra e chega na Estação), completando seu trabalho com algumas cenas de ação divertidas e tensas e você terá em Terra à Deriva uma ótima oportunidade de acompanhar uma história com jeitão de filme catástrofe cheio de clichês, mas com um ar bem diferente dos enlatados americanos. Além de, é claro, ter a oportunidade de ver um filme desse tamanho que não é uma franquia e muito menos é estrelado por um super-herói.


“Liu Lang di Qiu” (Chn, 2019), escrito por Gong Geer, Frant Gwo, Junce Ye, Yan Dongxu, Yang Zhixue. Cixin Liu e Ruchancg Ye, dirigido por Frant Gwo, com Jing Wu, Chuxiao Qu, Guangjie Li, Man-Tat Ng, Jin Mai Jaho, Mike Kai Sui e Arkadiy Sharogradskiy


Trailer do Filme – Terra à Deriva

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