Os bons e velhos filmes de desastre podem ser experiências bastante genéricas ou, então, longas de ação eficientes e ainda imbuídos de uma relevante mensagem sobre as formas com que tratamos o meio ambiente. Claro, essa moral não é nada que não tenhamos ouvido antes, mas quando o próprio presidente dos Estados Unidos nega a veracidade do aquecimento global, é melhor continuar repetindo-a, não é mesmo? Assim, Tempestade: Planeta em Fúria consegue ser uma experiência relevante, além de acertar moderadamente no balanço entre ação e desenvolvimento de personagens.

Na sequência de abertura do longa, Hannah Lawson (Thalita Bateman) nos conta sobre como as condições de “clima extremo” do planeta levaram a um cenário de quase total destruição — até que nós percebamos que só conseguiríamos sobreviver trabalhando juntos. Então, “o mundo se uniu” e um time liderado por Jake Lawson (Gerald Butler), pai da garota, construiu uma complexa estrutura de satélites, apelidada de Dutch Boy, capaz de manipular calor, pressão e água e, assim, manter o clima do planeta sob controle. Mas Lawson se recusa a obedecer aos comandos dos governantes, que acreditam saber mais sobre Dutch Boy do que ele e sua tripulação. Seu irmão mais novo, Max Lawson (Jim Sturgess) trabalha para o governo e recebe a missão de demitir Jake, o que causa um rompimento na relação já complicada entre os dois.

Até que, dois anos depois, Dutch Boy passa a apresentar defeitos: uma comunidade no meio do deserto é tomada por uma nevasca e, na Estação Espacial, um tripulante é sugado para o espaço. Jake é enviado para lá com a missão de descobrir o que está acontecendo e, logo, ele, o irmão e a namorada deste, a agente secreta Sarah Wilson (Abbie Cornish), passam a desconfiar de uma conspiração para devastar o planeta.

Tempestade - Planeta em Fúria

A narração inicial — e que retorna para concluir o longa — é eficiente em resumir os eventos anteriores à trama que acompanhamos em Tempestade, fazendo com os acontecimentos seguintes se desenrolem de maneira bem organizada. Além disso, o diretor Dean Devlin, que assina o roteiro ao lado de Paul Guyot, acerta ao balancear o lado desastre do filme, que aparece de maneira pontual e eficiente, com os conflitos emocionais vividos por seus personagens. Nesse sentido, é somente uma pena que essas pessoas não sejam mais complexos — Gerald Butler parece ter dedicado todo o seu esforço a manter seu sotaque escocês sob controle (e, nisso, ele ainda tem que contar com a ajuda do roteiro, que estabelece que ele e o irmão, apesar de criados nos Estados Unidos, nasceram no Reino Unido), enquanto Jim Sturgess toma as decisões mais óbvias para expressar as emoções de seu personagem. Ao lado dos dois, Abbie Cornish facilmente se estabelece como a figura mais interessante do longa. Sua dedicação e lealdade ao trabalho são respeitadas, assim como sua força e coragem — o que não impede Sarah de ser uma mulher multifacetada, capaz também de ter dúvidas, receios e medos, jamais reduzida a interesse romântico de Max. O filme teria muito a ganhar se ela fosse a protagonista.

Aliás, é louvável o cuidado de Devlin em estabelecer a diversidade étnica e de nacionalidade do elenco, algo fundamental em um filme cuja mensagem central é a importância de que todos nós trabalhemos juntos. Por outro lado, o conservadorismo que ainda permeia a indústria cinematográfica resulta no fato de que, apesar de toda essa inclusão, Tempestade seja centrado em um homem branco representando os Estados Unidos. Outro problema é que os demais personagens ficam presos a tramas descartáveis, como a própria filha de Jake. As únicas duas que realmente se destacam são Ute Fassbinder (Alexandra Maria Lara), cientista-líder da Estação Espacial — mais uma mulher em posição de autoridade! —, que estabelece uma parceria eficiente com Jake; e a jovvem e divertida Dana (Zazie Beetz), que ajuda Max na Casa Branca.

Politicamente falando, o filme mostra-se surpreendentemente relevante. De início, Devlin parece ter uma visão positiva do futuro, já que o atual presidente é democrata e Trump está longe o suficiente dos holofotes para sequer ser mencionado. Até que as descobertas feitas por Jake, Max e Sarah revelam um âmbito mais cruel do governo, em que uma figura de autoridade chega a declarar sua intenção de “levar os Estados Unidos de volta a 1945”, quando o país era próspero e imponente, sem ter que dividir sua autoridade com outras nações em nome da sobrevivência e da paz. O figurino desse personagem poderia perfeitamente incluir um boné com o slogan “Make America Great Again”.

Enquanto isso, Devlin — um experiente produtor que, aqui, estreia na direção de longas-metragens – faz um trabalho seguro e coeso. Sua direção realça bem a qualidade dos efeitos visuais do filme, sem precisar recorrer a planos com alguns segundos de duração para trazer energia. Assim, apesar de trazer muitas das convenções do gênero e de não oferecer uma experiência particularmente memorável, Tempestade: Planeta em Fúria faz o bastante para estabelecer suas próprias forças. Inúmeras histórias podem já ter explorado a ideia da importância da união da humanidade, mas diante do caos que estamos vivendo, o longa faz muito bem de continuar gritando-a.


“Geostorm”, (EUA, 2017) escrito por Dean Devlin e Paul Guyot, dirigido por Dean Devlin, com Gerald Butler, Jim Sturgess, Abbie Cornish, Alexandra Maria Lara, Daniel Wu, Eugenio Derbez, Andy Garcia, Ed Harris, Robert Sheehan, Amr Waked, Adepero Oduye, Zazie Beetz e Talitha Eliana Bateman.


Trailer: Tempestade: Planeta em Fúria

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