Takara: A Noite que Nadei | Uma reflexão sobre a liberdade

Takara

Largue essa pressa e esse jeito adulto de ser. Takara – A Noite que Nadei, apesar de curto, é lento. Bem lento. Isso porque ele parece explorar o tédio através dos olhos de uma criança, ao mesmo tempo que se transforma em um conto para refletirmos sobre liberdade nas mãos de uma criança.

E o que o filme franco-japonês dirigido por Kohei Igarashi e Damien Manivel nos entrega é uma experiência minimalista, mas cheia de enquadramentos evocativos. Cercado de amontoados de neves por todos os lados, a cidade soa ameaçadora para uma criança de poucos anos sozinha neste frio do lado de fora. Mas ao mesmo tempo ao vermos que ela está bem se transforma em uma poesia sobre o poder da iniciativa humana em trilhar seu próprio caminho, por mais pequenino que seja o humano e por mais simplório que seja este o caminho.

E para Takara, seu caminho é simples: filho de um trabalhador de uma peixaria, ele quer entregar o desenho que ele fez de um peixe para o pai. Por isso ele desvia da escola. Já era um plano premeditado, percebemos, quando ele saca de seu bolso uma mexirica para comer no caminho. O menino de uns cinco anos de idade tem tudo sob controle apesar de ter perdido a luva de uma mão.

A direção dupla do filme orquestra a experiência sem um roteiro definido. É uma história simples e direta sem nenhum diálogo. Isso facilita para os não-falantes de japonês, pois não há o que ler, mas apenas observar. E o que vemos são momentos dos mais inspiradores. Pensando como adultos, ficamos o tempo todo preocupados, e o filme sempre tenta nos mover para o significado contrário dessa jornada: perceba a beleza inerente que é uma criança, com seu pouco discernimento, tentando atingir seu objetivo.

A “interpretação” de Takara Kogawa é direta. Quase o vemos olhando para a câmera em alguns momentos. Quatro personagens existem nesse filme, e são todos da mesma família (no filme e na vida real): o menino, a irmã, pai e mãe. Esses últimos três quase não aparecem, apenas pavimentam o caminho para que o garoto faça seu show particular. O acompanhamos, e se tivermos paciência, seremos recompensados por um arco minimalista e que entrega 78 minutos que terminam em uma paz interior e um sentimento de leveza. Eis a alma de uma criança capturada por lentes apontadas apenas para ela.


“Takara – La nuit où j’ai nagé” (Jap, Fra, 2017), dirigido por Kohei Igarashi e Damien Manivel, com Takara Kogawa, Keiki Kogawa, Takashi Kogawa.


Trailer – Takara: A Noite que Nadei

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