Há pouco mais de vinte anos, Trainspotting: Sem Limites chegou aos cinemas e logo se tornou cult com seu ritmo frenético, humor sombrio e a forma peculiar com que tratou o vício de seus personagens centrais. Além disso, é claro, a obra apresentou ao mundo o talento do então cineasta novato Danny Boyle e de seu elenco.

Hoje, Trainspotting já se estabeleceu como clássico, e Boyle é um diretor veterano cujo estilo conhecemos muito bem. Assim, é claro que este T2 Trainspotting não possui o mesmo frescor do original — e nem deveria, pois seus objetivos são bastante diferentes. Boyle não tenta recapturar as sensações trazidas à tona por Trainspotting, mas sim remeter a ele através de uma experiência diferente.

O subtítulo do longa original, “Sem Limites”, não poderia ser mais apropriado. Ali, Renton, Sick Boy, Spud e Tommy consumiam heroína desenfreadamente e, quando faziam ocasionais tentativas de largar o vício, logo desistiam e retornavam à rotina junkie. Finalmente, Renton decide roubar o dinheiro recebido pelo grupo após um esquema orquestrado por Begbie. Afinal, Renton não teria esperança alguma de mudar de vida pelos “meios tradicionais”. “Choose life”, declara ele no início de seu icônico monólogo de abertura. Mas ele ainda tem o luxo de fazer diferente: “I choose not to choose life”.

Agora, vinte anos depois, Renton (Ewan McGregor), Simon (Jonny Lee Miller), Spud (Ewen Bremner) e Begbie (Robert Carlyle) vivem de acordo com o que plantaram na juventude. Renton até conseguiu ter um gostinho de uma “vida normal”, mas logo descobrimos que sua realidade não é tão positiva quanto ele deixa aparentar. Assim, ele retorna à Glasgow que abandonou a tanto custo. Ali, ele reencontra Simon, que passa os dias cuidando de um bar que ninguém frequenta e armando esquemas para chantagear os clientes de sua namorada, a prostituta Veronika (Anjela Nedyalkova). Spud se casou, teve um filho e se divorciou, carregando a culpa e as consequências de não ter conseguido largar a heroína. Já Begbie, preso durante todo o período entre um filme e outro, acaba de escapar da prisão e tenta convencer seu filho a participar de ações criminosas a seu lado. A notícia de que Renton voltou à cidade, é claro, não será nem um pouco bem recebida por ele.

A arrogância juvenil e a sensação de onipotência de Trainspotting, assim, são substituídas pela nostalgia, por fracassos constantes, pela sensação de se mover sem conseguir sair do lugar. Dessa maneira, Boyle frequentemente insere momentos pontuais do primeiro filme e, indo além, também cenas da infância de seus personagens. O mais interessante é observar como essas imagens surgem não apenas como flashbacks tradicionais, mas também projetadas em paredes ou em um carro em movimento. A nostalgia permeia a narrativa, e isso não poderia ser mais apropriado, pois a nostalgia invocada pelo primeiro filme é a grande responsável pela produção deste. Boyle utiliza isso como combustível, fazendo de T2 uma obra sobre o retorno de um homem ao lar que o aprisionava, sobre os fantasmas e demônios que cercam antigas amizades e sobre sonhos abandonados pelo caminho.

T2 Trainspotting Crítica

Sem perder totalmente a energia irrefreável do original, T2 se permite um pouco mais de sutileza e de melancolia. Nesse sentido, um dos planos mais memoráveis criados por Boyle é, sem dúvidas, aquele que traz uma sombra ocupando o lugar onde a falecida mãe de Renton costumava sentar à mesa, ilustrando o peso de sua ausência de maneira rápida e impactante. Por outro lado, é um prazer constatar que o humor deliciosamente negro de Trainspotting permanece aqui. Ainda que não resulte em passagens tão marcantes quanto a do vaso sanitário ou da bebê engatinhando pelo teto, a revelação de Spud de que perdeu uma série de compromissos por não saber que o horário de verão havia começado ou o esquema para roubar um grupo de fanáticos pela vitória protestante sobre os católicos na Batalha do Boyne em 1690 são hilárias e, assim como na obra original, também funcionam enquanto narrativa. Enquanto isso, o diretor utiliza com frequência recursos como freeze frames e ângulos holandeses para criar ritmo, algo que remete ao filme original. O icônico discurso de Renton ressurge com uma roupagem ainda mais crítica e, agora, fala de redes sociais, do estado caótico em que a economia se encontra e pela ironia de se entregar ao vício por se exercitar e levar uma vida saudável.

Brincar com essa obsessão pelo passado, afinal, é uma tirada quase metalinguística, pois não aborda apenas a existência deste filme, mas também o que move seus próprios personagens. Ao se reencontrarem, Renton e Simon logo passam a revisitar velhos hábitos da juventude, acompanhados por Veronika. Entretanto, eles se mantêm longe da heroína: Renton, agora, reserva o vício para os exercícios físicos, enquanto Simon é um ávido consumidor de cocaína.

McGregor, Miller, Carlyle e Bremner retornam confortavelmente para seus personagens, estabelecendo com excelência dinâmicas que expandem os relacionamentos de vinte anos atrás. Enquanto isso, Anjela Nedyalkova é uma ótima adição ao grupo, utilizando sua juventude como contraponto à imaturidade dos colegas de elenco e revelando novas facetas conforme a trama avança. Finalmente, Kelly Macdonald tem uma importante ponta.

Para Renton, Simon, Spud e Begbie, o fôlego dos anos 90 já não consegue se sustentar por muito tempo. T2 Trainspotting reconhece e explora isso com excelência, estabelecendo-se como uma sequência digna da obra original. Sem superá-la, é verdade, mas alcançando de maneira memorável seu objetivo de revisitar esses personagens em um momento tão diferente de suas vidas, mas no qual eles ainda enfrentam as consequências de seu estilo de vida anterior e prendem-se ao mundo de possibilidades e aventuras que marcou sua juventude.

E, em meio a seus erros, conflitos, vícios e planos frustrados, como é bom voltar a encontrar esses personagens e o universo incomparável que Danny Boyle criou para eles.


“T2 Trainspotting” (RU, 2017), escrito por John Hodge a partir da obra de Irvine Welsh, dirigido por Danny Boyle, com Ewan McGregor, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle, Ewen Bremner, Anjela Nedyalkova, Shirley Henderson e Kelly Macdonald.


T2 Trainspotting

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