(Atenção: este texto conta detalhes sobre a trama de Star Wars: O Despertar da Força.)

Star Wars: O Despertar da Força chegou aos cinemas brasileiros no dia 17 de dezembro e não vai sair da mente dos fãs da saga tão cedo. Mesmo quem nem é tão enlouquecido pelos filmes anteriores foi ao cinema conferir o novo episódio e encontrou motivos para se encantar pelo universo criado por George Lucas e, agora, recontado por J.J. Abrams.

E um desses motivos é, sem dúvidas, a protagonista da nova trilogia: Rey, vivida pela novata Daisy Ridley. A jornada do herói, do escolhido, é um recurso narrativo muito comum na fantasia e na ficção científica — mas ainda é uma história contada principalmente através de protagonistas do gênero masculino. A chegada de Rey, portanto, é extremamente bem-vinda ao gênero.

Se nas décadas de 70 e 80 meninos e meninas de todo o mundo cresceram acompanhando o caminho trilhado por Luke Skywalker de garoto da fazenda a cavaleiro jedi, dessa vez, as meninas e meninos dos anos 2010 vão crescer tendo enxergado, desde a infância, uma jovem mulher dominando a narrativa, encontrando sua força (e, claro, A Força) e estabelecendo-se como a heroína da maior saga de todos os tempos.

E a personagem mais do que faz jus a esse legado: independente, engenhosa, esperta e corajosa, Rey é também uma jovem extremamente solitária, que cresceu sozinha no meio do deserto de Jakku depois que sua família a deixou no planeta. Assim, quando acompanhamos a garota conhecendo pessoas que gostam dela e de quem ela gosta, o peso de toda a sua solidão está ali, representado, por exemplo, em um gesto tão casual – e, ao mesmo tempo, grandioso – quanto o abraço que ela recebe de Finn. Da mesma forma, o filme, através dela, faz declarações sobre o modo que as mulheres geralmente são tratadas — e vê-la dizendo a Finn que sabe “correr sem dar a mão”, rejeitando o costume dos filmes de colocar o rapaz sempre “à frente” da frágil garota, guiando e comandando a ação, é gratificante.

Teve gente chamando Rey de “Mary Sue”, termo que designa personagens femininas perfeitinhas demais, capazes de tudo e sem qualquer defeito, nascido de fanfics em que as leitoras podiam se imaginar na história. Originado para criticar a forma como mulheres são escritas na ficção, o termo rapidamente tornou-se mais uma forma de criticar as mulheres — assim como também aconteceu com a “Manic Pixie Dream Girl”. E de qualquer forma, dizer que Rey se encaixa no arquétipo é uma leitura totalmente rasa da personagem que, além de tudo, mostra uma baixa compreensão da saga como um todo. Estamos cansados de ver Luke conseguindo realizar feitos dos quais ele nem imaginava ser capaz graças a sua conexão com a Força — por que seria diferente com Rey?

Porque ela é mulher, pura e simplesmente — e como tal, é bombardeada com deveres e padrões dos quais seus companheiros do gênero masculino estão livres. Aliás, Rey está longe de ser “perfeitinha” como muitos a descrevem, uma personagem sem defeitos e sem um arco forte. Rey clama por aventura, por descobrir o universo para o qual ela jamais ousou escapar, mesmo sendo uma piloto e engenheira competente; seu passado a prende a Jakku, e sua trajetória em O Despertar da Força a leva a, finalmente, romper as cordas que a deixam amarrada à esperança inútil de que sua família vai voltar para buscá-la; ela, então, torna-se livre para seguir seu caminho, que a levará diretamente para o topo de uma montanha com o sabre de luz de Luke Sywalker nas mãos.

E essa esperança, esse apego à família que a abandonou, nos apresentam a outro aspecto da personalidade de Rey: mesmo após tudo o que ela enfrentou e da solidão sufocante, ela é gentil. Há tristeza e solidão e, sim, raiva — como poderia ser diferente? — mas esse sentimento não domina o comportamento e a personalidade da garota.

Por outro lado, mesmo que Rey seja a protagonista — papel jamais ocupado por uma mulher nos filmes anteriores —, ela continua sendo basicamente a única garota em um universo povoado majoritariamente por homens. É verdade que O Despertar da Força é superior às obras anteriores nesse aspecto – Leia e Maz têm participações pequenas, mas importantes, Phasma deve ter mais destaque nos próximos filmes, e vemos mulheres pilotando X-Wings e mesmo servindo como Stormtroopers —, mas o número de homens é sufocantemente superior e, além disso, pouco vemos Rey interagindo com outras mulheres.

Cinema sem Y Rey e Finn

Nesse sentido, a prequel trilogy se sai bem melhor do que a trilogia original, já que há mais mulheres em papéis importantes – além de Padmé, há Shmi e a Rainha que assume o trono de Naboo depois dela. O Despertar da Força, por sua vez, traz a General Leia Organa no comando da Rebelião, em um papel digno de uma personagem tão icônica.

E Daisy Ridley parece a escolha ideal para dar vida a uma personagem tão importante — dentro e fora das telas. Se a atriz, mesmo com sua pouca experiência, conseguiu comandar um filme deste tamanho com segurança, confiança e um carisma enorme, sua intérprete mostrou-se uma jovem humilde, inteligente e ciente da importância de Rey. Em várias entrevistas, Ridley declarou o quanto ela admira Leia, sua personagem favorita da saga, e o quanto a presença e os ensinamentos de Carrie Fisher foram importantes para ela, durante as gravações. Recentemente, a atriz anunciou que será a produtora executiva do documentário The Eagle Huntress, que acompanha uma adolescente na Mongólia que se torna caçadora de águias, algo normalmente reservado apenas aos homens. Ridley definitivamente parece entender a importância de contar e apoiar histórias de (todas as) mulheres no cinema.

Mas há um aspecto em que Star Wars continua falhando: todas as mulheres citadas aqui, ou seja, todas as mulheres que aparecem nos sete filmes da saga (e neste texto abordamos apenas os filmes live-action de Star Wars), são brancas. Será que as mulheres negras, asiáticas, indígenas e de tantas outras etnias não têm lugar nessa galáxia tão, tão distante?

Felicity Jones vai comandar Rogue One: A Star Wars Story, então já sabemos que os novos filmes da saga estão realmente comprometidos a continuar incluindo as mulheres (brancas). Mas isso pode mudar no Episódio VIII, já que Gugu Mbatha­-Raw (negra) e Gina Rodriguez (latina) são duas das atrizes no topo da lista de candidatas à protagonista deste longa. Os homens não-brancos, pelo menos, estão conseguindo encontrar seu caminho pela galáxia: é importantíssimo que John Boyega e Oscar Isaac tenham conseguido papéis que em nada são definidos por suas etnias; em Rogue One, o britânico de origem indiana Riz Ahmed deve conseguir a mesma coisa. Mas por que não incluir personagens que se encaixem em mais de uma minoria?

Cinema sem Y Monopoly

O site Prosa Livre separou imagens de garotinhas fazendo suas próprias bonecas da Rey, já que não haviam conseguido encontrá-la em lojas de brinquedo. Repare que uma das bonecas é negra! Recentemente, o pequeno Matias, de quatro anos, conquistou a mídia — e o próprio John Boyega — ao ficar completamente encantado com um boneco de Finn. Meninas negras também merecem essa representatividade! Rey já é, definitivamente, um exemplo de heroísmo, força, determinação e coragem para milhões de garotinhas no mundo todo.

Mas, mesmo sendo a protagonista, Rey ainda sofreu do mesmo destino de personagens como Viúva Negra e Gamora: ser deixada de lado por produtores de brinquedos e roupas. A Hasbro chegou até mesmo a lançar uma versão da saga de Monopoly, que trazia todos os principais personagens… menos Rey. As reclamações foram tantas que a companhia decidiu relançar o brinquedo.

Kathleen Kennedy, a produtora no comando dos novos filmes de Star Wars, é uma figura essencial para a igualdade de gênero em O Despertar da Força. Ela tem uma equipe na Lucasfilm responsável por cuidar da trama e do roteiro, e quatro dos seis integrantes são mulheres – algo que, para ela, foi muito importante para criar Rey como uma personagem complexa, independente e heroica. Sobre a protagonista, ela declarou:

“O papel central de Rey no filme, sua independência e suas habilidades não são apenas o resultado dos tempos que estão mudando, mas representam o novo rosto das mulheres em Star Wars. Rey não é importante por ser mulher, ela é apenas importante. Mas, obviamente, ter uma mulher como essa em um filme é extremamente importante.”

Rey é celebrada por ser uma personagem fascinante e carismática, e o fato de ela ser mulher apenas traz à tona o fato de que merecemos tanto espaço nas histórias quanto os homens, de que somos capazes de tanto quanto eles. E, por isso, Rey surge como uma revolução – mas que, como discutimos acima, ainda não chegou ao fim.

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